Guilherme Macedo: “A endoscopia está secundarizada em Portugal”
DATA
16/02/2022 09:10:48
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Jornal Médico
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Guilherme Macedo: “A endoscopia está secundarizada em Portugal”

Desde dezembro de 2021 que a presidência da Organização Mundial de Gastrenterologia (World Gastroenterology Organization – WGO) é portuguesa, mais especificamente do professor Guilherme Macedo. Em entrevista, atribui esta eleição ao reconhecimento do papel da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), a que preside, e preconiza, como linha mestra do mandato, até 2023, aproximar as diferentes sociedades científicas aglutinadas pela WGO. A nível nacional, lamenta que os decisores políticos ainda não estejam sensibilizados para a importância da especialidade e para a particular necessidade de se aprofundar os programas de rastreio endoscópico das doenças digestivas, sobretudo das oncológicas, as de maior mortalidade e morbilidade.

Jornal Médico (JM) | Como encara a sua eleição para presidente da Organização Mundial de Gastrenterologia (WGO)?

Guilherme Macedo (GM) | Além da satisfação pessoal, conta, sobretudo, a noção de que é um lugar de enorme destaque e prestígio para a Gastrenterologia nacional. É uma representação a que, inevitavelmente, está associada uma sociedade científica, neste caso, a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, que gera esta circunstância feliz de uma liderança portuguesa de uma federação que aglutina mais de 60 mil gastrenterologistas de 117 sociedades científicas. Isto sinaliza, de alguma maneira, o reconhecimento pela WGO de algumas características importantes para a assunção de um cargo com esta dimensão e esta envergadura, nomeadamente a capacidade de criar pontes, uma aceitabilidade e uma respeitabilidade transversais. A federação tem uma implantação global e é muito reconfortante saber que congregamos essa visão global.

Por outro lado, muito mais importante do que essa noção de reconhecimento, é a responsabilidade de que estamos investidos. A confiança que depositaram em nós significa também que há uma grande expectativa na liderança portuguesa para expandir os programas educativos da WGO.

Esta é uma perspetiva de grande relevo para nós. As linhas de ação que vamos promover neste mandato têm muito a ver com a proximidade entre as diferentes sociedades científicas. É esse o objetivo do programa Globetrotter, em que nos propomos estar com contacto com as direções das sociedades que fazem parte da federação, dando informação e realçando os principais programas existentes. Temos um programa muito ambicioso e esperamos que corresponda às expectativas que estão geradas à nossa volta.

JM | Mencionou que a eleição resulta do reconhecimento do papel da SPG. Mas não é também o reconhecimento da sua carreira?

GM | Não gostaria de colocar a questão de uma forma individual. É muitíssimo relevante que as estruturas internacionais compreendam que há uma sociedade científica em Portugal que tem um particular empenho e uma particular visão em relação à saúde digestiva. E que os especialistas da saúde digestiva portugueses estão agrupados numa sociedade científica que tem um programa educacional muito forte, seja na pós-graduação, seja na formação contínua. A nossa perspetiva é que a SPG fica profundamente enriquecida por este reconhecimento internacional e o nosso objetivo é que a própria WGO sinta como uma mais-valia e um capital de grande relevo a presença portuguesa no seu seio. É esse o grande desafio que temos pela frente.

JM | Assumiu como missão do mandato salvaguardar e promover a saúde digestiva. Como se propõe levar a cabo esta missão, tendo em conta que, sendo uma organização mundial, estamos, naturalmente, a falar de realidades muito distintas?

GM | É um desafio tremendo e que nos obriga a um esforço de grande versatilidade para compreendermos, em primeiro lugar, e darmos uma resposta adequada, em segundo, a circunstâncias tão diversas como são as de países de latitudes, longitudes e realidades tão diferentes.

A saúde digestiva tem facetas muito comuns, mas também variadas, estas relacionadas, nomeadamente, com as situações infeciosas e nutricionais de algumas partes do globo, bem como com a prevenção ativa.

A Gastrenterologia tem conseguido levar o que de melhor existe para todas as partes do mundo, através de um programa específico da WGO, que são as “Linhas de Orientação em Cascata”. Trata-se, de alguma forma, de uma adaptação da melhor prática gastrenterológica às diferentes realidades económicas e sociais. É fazer o melhor possível, com a melhor ciência e a melhor tecnologia, à medida de cada país. Isto pode parecer muito romântico e teórico, mas, de facto, é um ato exclusivo da nossa federação, porque nenhuma das outras grandes sociedades científicas consegue ter esta pegada global. Esta visão em cascata, de hierarquização em função das realidades, é algo de muito único e de grande relevo.

JM | Não obstante essa diversidade, é possível identificar denominadores comuns em matéria de saúde digestiva?

GM | Sim, há vários, como os aspetos nutricionais, puros e duros: embora se possa revestir de determinadas características numas zonas e de outras características noutras zonas, a nutrição é decisiva.

Outro aspeto tem a ver com as patologias típicas da abordagem do gastrenterologista: a patologia oncológica do tubo digestivo é a principal preocupação em todo o mundo, seja ele desenvolvido, seja em vias de desenvolvimento. É predominante e temos de estar lá para facultar todos os métodos de prevenção, diagnóstico e tratamento.

Uma outra questão para a qual estamos a tentar sensibilizar – o público e os políticos –prende-se com as alterações climáticas, pois um dos grandes impactos que têm na saúde é precisamente na saúde digestiva. O impacto sobre o tipo de culturas agrícolas e sobre as diferentes cadeias alimentares é decisivo para a migração das populações e, por consequência, para o aporte de novas doenças infeciosas que afetam depois, transversalmente, todos os aspetos da saúde.

Além disso, há aspetos colaterais como a pegada ecológica que criamos com a utilização de recursos tecnológicos muito avançados; temos de ter uma visão integrada e equilibrada, para que não haja um consumo excessivo de determinados componentes ou lancemos para a natureza um conjunto mito grande de componentes industriais. Todas essas preocupações fazem parte do nosso portefólio de interesse.

JM | É presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia. Foquemo-nos, pois, na saúde digestiva da população portuguesa. Que diagnóstico faz?

GM | Devo dizer que é uma das que, reconhecidamente, mais preocupa os portugueses, pela importância que tem no quotidiano. Ter queixas digestivas é verdadeiramente perturbador do equilíbrio funcional e, portanto, as pessoas têm a noção de que a saúde digestiva é um bem a preservar.

Além disso, temos a oncologia digestiva. A mortalidade e a morbilidade oncológicas estão muito dominadas pelos tumores digestivos, daí a necessidade de estar perto do público.

Onde, às vezes, há dificuldade, e nós sentimos isso, é no reconhecimento pelas estruturas sanitárias do papel que a Gastrenterologia deve desempenhar nos hospitais. Os serviços de Gastrenterologia são charneiras médico-cirúrgicas decisivas. E esta mudança que aconteceu na última década implica que os departamentos clínicos sejam repensados no sentido de procurarem o circuito dos doentes e não propriamente a patologia do órgão. Os serviços não devem ser de órgão, devem ser dirigidos à patologia do doente. E o doente digestivo implica um leque de atuação muito variado, em que a Gastrenterologia ocupa um papel decisivo. É um desafio que teremos em Portugal nos próximos anos.

JM | A nível dos decisores das políticas de saúde não há o reconhecimento da importância da especialidade?

GM | Não. E faz parte do nosso papel essa pedagogia. Os tempos mudaram e a nossa função, enquanto gastrenterologistas, não se cinge à utilização dos métodos endoscópicos. É isso, mas muito mais, é a capacidade de, em cada momento, conseguir facultar a melhor solução possível, para todos os tipos de patologia digestiva, com a melhor qualidade e a maior segurança.

JM | Referiu que os cidadãos estão muito atentos às queixas digestivas. Mas isso significa que há literacia neste domínio?

GM | São queixas muito comuns, mas a importância disso é que constituem o maior pretexto de proximidade entre o público e o especialista de saúde digestiva. Depois de criado esse pretexto e criada essa ligação, há muito mais para fazer do que se imagina. Passa pelas estratégias de prevenção, pois, muitas vezes, os sintomas digestivos são a primeira forma de comunicação e temos de a aproveitar para exercer a chamada pedagogia de oportunidade.

JM | Estamos a falar de prevenção e de diagnóstico precoce?

GM | São duas coisas diferentes, mas a endoscopia tem essa dupla vantagem, pois, ao fazer diagnósticos precoces, também se pode fazer prevenção. Vamos atrás de fazer alguma coisa eficazmente: é claro que queremos diagnosticar precocemente o cancro, mas o nosso objetivo é que a pessoa não tenha cancro, o que queremos é identificar situações percursoras do cancro e tratá-las.

JM | Isso implica um maior investimento em rastreios…

GM | Falamos muitas vezes com a tutela para tentar desenvolver um programa de rastreio endoscópico, que me parece fundamental para tratar o cancro do cólon e do reto. E é possível que, mais tarde ou mais cedo, se desenvolva um plano relacionado com o cancro gástrico. Os desafios são muito grandes e os nossos políticos têm de ter a perceção de que o panorama da saúde tem exigências diferentes e obriga a recursos diferentes.

A endoscopia está secundarizada. O que existe tem a ver com a pesquisa de sangue oculto nas fezes, que é um método razoável, mas não é o método ideal. Temos de ser realistas. A exigência de qualidade e segurança da saúde dos portugueses obriga a que tentemos dar o melhor possível e o melhor possível, sobretudo para a prevenção, é o método endoscópico, não há dúvida nenhuma em parte alguma do mundo.

Em Portugal, as recomendações, até agora, indicam que a endoscopia se inicie aos 50 anos, na população sem história familiar de risco aumentado, mas as orientações internacionais já apontam para que se inicie aos 45 anos.

Mais proximidade com a MGF

Convidado a comentar a articulação entre a Medicina Geral e Familiar (MGF) e a Gastrenterologia, Guilherme Macedo foi claro ao afirmar que existem oportunidades de melhoria, justificando: “A referenciação tem de ser mais humanizada e personalizada. A que existe é muito administrativa. E nós queremos muito essa proximidade com a MGF, mas queremos que seja uma relação biunívoca. Tem de haver abertura para que nem o especialista de saúde digestiva sirva apenas para facultar exames, nem o especialista de MGF seja apenas o interlocutor para prescrever exames. É preciso muito mais do que essa troca de tarefas. Neste momento, interessa-nos criar uma pedagogia para a saúde digestiva e essa pedagogia faz-se em parceria com a MGF.”

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.