Isabel Saraiva: “A situação em termos de prevenção e reabilitação respiratória afigurasse-nos dramática”

Da prevenção à reabilitação dos doentes com doenças respiratórias crónicas, o panorama descrito por Isabel Saraiva é devastador. A presidente da Respira, que fala com “desgosto” da ausência de políticas públicas de prevenção, de diagnóstico e de vacinação, alerta ainda que os cuidados de saúde “estão informalmente suspensos”, temendo que o impacto da pandemia nos doentes respiratórios crónicos seja “esmagador”.

Jornal Médico (JM) | Os mais recentes dados do Relatório do ONDR revelam que as doenças respiratórias continuam a ser uma das principais causas de morbilidade e mortalidade em Portugal e no mundo. A que se deve este panorama tão negativo?

Isabel Saraiva (IS) | A prevenção, que é uma área-chave para evitar as doenças respiratórias, continua a ser uma área muito mal-amada, maltratada, mal compreendida e sobretudo muito pouco financiada pelas políticas públicas de saúde. E, por isso, continuamos a ter elevadas taxas de doenças crónicas que podiam ser preveníveis, como a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) ou o cancro do pulmão, para as quais o tabaco é o principal fator de risco - lembro que desde há dois anos, altura em que começou a pandemia, que as consultas de cessação tabágica quase desapareceram e as que existem são em horário laboral.

Está na altura de Portugal, como fazem outros países, realizar uma campanha constante, permanente e articulada contra o tabaco e os hábitos tabágicos. Isso tem de começar a ser feito nos vários níveis da sociedade, nomeadamente nas escolas, educando os meninos e adolescentes desde cedo para as consequências de fumar, seja o tabaco tradicional ou estas novas modalidades de cigarros eletrónicos. É preciso que lhe digam e que eles possam perceber que todos os mecanismos que impliquem uma agressão química das vias respiratórias, a prazo, têm efeitos desastrosos para a saúde. 

 

JM | De que forma é que o contexto pandémico afetou os doentes com doença respiratória crónica (sabemos que necessitam de cuidados regulares e continuados)? A Respira dispõe de alguns dados sobre o assunto?

IS | Tal como na prevenção, também não há um grande investimento público na obtenção de dados. Obter informação quantitativa é sempre um problema em Portugal. Contudo, pelo que temos lido, ouvido e testemunhado, e embora não haja atualmente nenhum diploma legal que dite que os cuidados de saúde estão suspensos (como aconteceu entre março e maio de 2020 e janeiro e marco de 2021), a verdade é que os cuidados estão informalmente suspensos. Até porque os profissionais de saúde, nomeadamente os médicos e enfermeiros, continuam muitos deles adstritos a funções relacionadas com a pandemia e sabemos que os hospitais alocaram certas zonas destinadas a outras patologias à Covid-19, como é o caso da reabilitação respiratória. Muitas salas de reabilitação respiratória foram transformadas em enfermarias Covid durante a pandemia e não temos informação de que tenham sido reconvertidas para a sua função inicial.

Tememos, por isso, que o impacto da pandemia nos doentes respiratórios crónicos seja esmagador, até porque, por exemplo, aos doentes com DPOC existentes sem acesso à reabilitação respiratória (99%), há que somar aqueles que naturalmente entrariam em reabilitação respiratória (mesmo sendo poucos), bem como os que se esperam que venham a ter Long Covid (cerca de 100 mil pessoas estimadas), e que também precisarão de reabilitação respiratória. Como tal, e embora não tenhamos dados objetivos, a situação em termos de prevenção e reabilitação respiratória afigurasse-nos dramática.

JM | Mas, entretanto, alguns destes doentes com doenças respiratórias crónicas já começaram a voltar às instituições de saúde…

IS | Alguns sim, mas a situação é muito irregular em termos nacionais. Há zonas do país, e mesmo dentro da Grande Lisboa que são muito diversas. Temos casos em Lisboa de pessoas que têm tido acesso aos hospitais e têm tido contactado com o seu médico de família com uma certa regularidade, mas temos casos, nos arredores de Lisboa, em que as pessoas continuam à espera ou que precisam de transporte e não têm. Já no Norte, na zona do Minho, por exemplo, os cuidados processam-se com alguma regularidade. Os motivos para esta heterogeneidade não são conhecidos, mas estimamos que estejam relacionados com os recursos das instituições ou o nível populacional de cada região.

“NÃO É POSSÍVEL ACEITAR QUE UM DOENTE NÃO SEJA TRATADO”

 

JM | O Relatório do ONDR observa que durante os meses de Covid-19 houve uma redução média nacional de 50% nos internamentos por doenças do aparelho respiratório (DAR) que o esperado. Já os ambulatórios por DAR tiveram uma redução média nacional de 84%. Como comenta estes dados?

IS | Não é possível aceitar que um doente não seja tratado. Um doente, e sobretudo um doente crónico, não pode aceitar, nem pode viver com a ausência de tratamento. Temos de perceber que a pandemia foi um dado absolutamente novo, muitíssimo perturbador, que gerou ondas de choque, mas passadas essas ondas de choque era nossa expetativa que a situação retomasse alguma normalidade. Com esta nova vaga (ómicron) e continuamos a ter notícias de serviços que estão absolutamente assoberbados, os telefones não são atendidos, os emails não são respondidos e as pessoas sentem-se um pouco desamparadas. Penso que é natural um tempo de suspensão, atendendo à dimensão e ao desconhecimento absoluto que existia em relação à pandemia, mas passado esse tempo esperávamos que os cuidados fossem retomados – até porque há diplomas que o recomendam.

JM | De acordo com o Relatório do ONDR, a DPOC continua a ter uma expressão importante na morbilidade e mortalidade por doença respiratória, tendo a taxa de mortalidade aumentado 7,9% em 2018 face a 2017. Como pode atuar a Respira na defesa destes doentes?

IS | O que define o trabalho da Respira é batalhar pelo acesso aos cuidados de saúde, desde a prevenção até à reabilitação respiratória. No caso da DPOC, temos mantido as nossas atividades em permanência, mesmo durante a pandemia. Embora sejamos doentes respiratórios crónicos e praticamente confinados há dois anos, nunca deixámos de trabalhar, nomeadamente na organização intensa de webinars em.  

No campo da prevenção quero salientar o nosso empenho na promoção da cessação tabágica e da vacinação, dois dos vetores da maior importância para os doentes respiratórios. Quanto ao diagnóstico, recordar que existe um diploma que determina que em cada centro de saúde deve haver um espirómetro, a forma mais rápida e indolor e prática de detetar a DPOC. Esta foi, aliás, uma ideia que defendemos em 2016, de forma que num primeiro momento, perante uma queixa de tosse, de cansaço permanente, o médico pudesse fazer desde logo um diagnóstico precoce e inicial. Contudo, isso não aconteceu, porque até agora esse despacho ficou na gaveta… E, efetivamente, a situação referente às espirometrias é complicada, de tal forma que se estimam que existam cerca de 800 mil pessoas com DPOC em Portugal, embora sem diagnóstico. Portanto, na ausência de uma política pública efetiva de prevenção e de cessação tabágica, na ausência de uma política pública de diagnóstico com espirometrias e na ausência de uma política pública de vacinação maciça das pessoas a partir dos 60/65 anos, é um desgosto, mas não é para nós uma surpresa os valores do crescimento da DPOC.

JM | A pneumonia foi uma das doenças respiratórias que mais matou e é causa de um número crescente de internamentos hospitalares. Além disto, em Portugal, ano após ano, as taxas de mortalidade por pneumonia em Portugal são das mais elevadas dos países da OCDE. Que fatores, na opinião da Respira, podem ser causa desta contínua taxa elevada de pneumonia no nosso país?

IS | Na nossa opinião, essa é uma situação que reflete a falta de uma política pública de vacinação Não precisamos de decisões avulsas – agora vamos vacinar aquele grupo, depois o outro… – mas sim de uma política pública concertada, com objetivos - reduzir a taxa de mortalidade em x - e elencando formas de corrigir a situação após o diagnóstico. Uma situação com princípio, meio e fim. Diminuir a taxa de mortalidade por pneumonia tem de ser assumidamente uma política pública em Portugal.

JM | Quais os projetos constam do plano de ação da RESPIRA para 2022?

IS | A inclusão das questões ambientais é um projeto relativamente novo, mas sobre o qual estamos muito empenhados, pois sabemos que a má qualidade do ar, interior e exterior, condiciona muito a saúde respiratória. Relativamente aos restantes projetos estes versam naturalmente a prevenção e a reabilitação respiratória. Uma das nossas preocupações é, por exemplo, a Long Covid e as suas repercussões, e, por isso, estamos a trabalhar com outras instituições que estão com projetos nessa área, no sentido de avaliar formas de reabilitação respiratória domiciliária, nomeadamente para evitar as deslocações dos doentes, que sabemos que são caras, demoradas e penosas no inverno. Portanto, se houver uma forma igualmente eficaz e cientificamente comprovada de fazer reabilitação respiratória domiciliária, seja em casa dos doentes, ou através de telemedicina, seria o ideal.

Por outro lado, continuamos a nossa aposta na área do e-health, até porque na direção da Respira somos só doentes, não temos staff, e o facto de podermos trabalhar por meios remotos tem sido de uma grande ajuda.

Por fim, destaco o Prémio Luísa Soares Branco e o Fórum Luísa Soares Branco, projetos estruturais da Respira, que vamos retomar assim que haja oportunidade e condições, pois tiveram de ser suspensos devido à pandemia.

“TERIA SIDO UM CENÁRIO DE HORROR SE OS MÉDICOS DE FAMÍLIA NÃO ESTIVESSEM DISPONÍVEIS DURANTE A PANDEMIA”

JM | Como avalia o papel dos especialistas em MGF na referenciação, gestão e acompanhamento das doenças respiratórias e como tem sido a colaboração entre estes especialistas e a Respira?

IS | O papel dos médicos de família é fundamental. São eles a porta de entrada do sistema e embora haja muitos portugueses sem médico de família, isto não põe em causa a dimensão e a importância destes médicos no sistema de saúde português. São absolutamente fundamentais. Nem quero pensar o que teria sido se os médicos de família não estivessem disponíveis – dentro daquilo que os deixam fazer – e prontos para ajudar durante a pandemia... teria sido um cenário de horror. Quero também salientar que muitos deles ligaram dos seus telefones pessoais para os seus doentes para saber como estavam. E estas atitudes são de um valor imenso. Para nós, doentes, não tem descrição a valia de uma situação desta natureza.

Quanto à colaboração da Respira com estes especialistas, esta tem sido muito estreita e frequente, seja em termos de troca de impressões, opiniões, participação em reuniões, elaboração de documentos, entre muitos outros aspetos.

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.