José Castro Lopes: “A maior dificuldade que o sobrevivente de AVC tem é o desconhecimento total do seu direito aos cuidados de reabilitação multidisciplinares”
DATA
09/03/2022 09:46:26
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Jornal Médico
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José Castro Lopes: “A maior dificuldade que o sobrevivente de AVC tem é o desconhecimento total do seu direito aos cuidados de reabilitação multidisciplinares”

No rescaldo do 16.º Congresso Português do AVC, o presidente da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC), José Castro Lopes, em conversa com o Jornal Médico, falou da atual capacidade de resposta médica junto dos sobreviventes de AVC, nomeadamente na área de reabilitação e da comunicação com os cuidados de saúde primários (CSP) e Medicina Geral e Familiar (MGF) na gestão destes doentes.

Jornal Médico (JM) | Como é hoje possível permitir o máximo de funcionalidade e qualidade de vida após um AVC e quais a terapêuticas que mais benefícios têm demonstrado?

José Castro Lopes (JCL) | Para conseguir o máximo de funcionalidade após um AVC, o mesmo é dizer fazer com que o nosso doente possa atingir todo o seu potencial de reabilitação, é necessário um conjunto de meios humanos e materiais e a observância de boas práticas. Antes de tudo, destaque para uma intervenção precoce das equipas de reabilitação, que felizmente hoje já colaboram na Unidades de AVC. Cada caso deve merecer um programa de reabilitação individualizado. Para tal torna-se obrigatória uma avaliação diagnóstica dos défices funcionais e incapacidades por um médico fisiatra, que vai prescrever e coordenar todo o conjunto de intervenções mais adequadas a cada doente. Estas serão sempre as terapias com mais benefícios, precisamente porque são as adequadas. São muito variadas. Vão desde os cuidados de enfermagem de reabilitação, a técnicas de fisioterapia, de terapia da fala (incluindo reabilitação da disfagia), de terapia ocupacional, à aplicação de ortóteses e auxiliares de marcha, a intervenções no domínio da reabilitação cognitiva. Existe um lugar para técnicas manuais, instrumentais e um futuro inquestionável para o recurso a novas tecnologias.

JM | Quais são, na sua perspetiva, as principais dificuldades que o sobrevivente de AVC enfrenta?

JCL | A maior dificuldade que o sobrevivente de AVC tem é o desconhecimento total do seu direito aos cuidados de reabilitação multidisciplinares, pois é induzido em erro a pensar que ter “fisioterapia” é suficiente. Para atingir o seu potencial máximo e ser integrado na sociedade, segundo as guidelines, para além do médico, outros profissionais são essenciais como terapeutas ocupacionais, enfermeiros de reabilitação, terapeutas da fala, assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas.  É fundamental existir uma coordenação de todo este processo por Medicina Física e de Reabilitação. Existe falta de literacia na reabilitação, tanto da parte das entidades competentes, bem como da população.

JM | Que avaliação faz à atual capacidade de resposta médica junto dos sobreviventes de AVC, nomeadamente na área de reabilitação, sendo que atualmente estas pessoas são atendidas em idade cada vez mais jovens?

JCL | Vem melhorando, mas é insuficiente. Em instalações, equipamentos, recursos humanos, meios organizativos. Há ainda muitas barreiras no acesso a cuidados de reabilitação. De toda a espécie. Existe uma enorme assimetria geográfica nesta área assistencial. É uma situação profundamente injusta. Gera uma desigualdade inaceitável à luz dos nossos princípios éticos e até constitucionais. No caso particular dos doentes mais jovens a situação não difere. Apenas que a idade favorece um melhor prognóstico e quando assim é obviamente que em termos absolutos e sociais se perde ainda mais funcionalidade.

JM | Aquando do prémio nacional de saúde de 2019 o professor afirmou: A reabilitação, não é uma esmola, mas um direito. Se preciso for durante toda a vida. Quais são as batalhas da sociedade no que diz respeito à reabilitação dos sobreviventes?

JCL | A frase em questão traduz uma verdade e uma convicção. Por tal motivo tornou-se já emblemática. Sobretudo para os doentes, que melhor do que ninguém a compreendem. Ora bem: tem existido uma grande melhoria dos cuidados de reabilitação em Portugal, verificando-se por exemplo que todas as UAVC apresentam equipas de reabilitação multidisciplinares, coordenadas por MFR, embora ainda não completas. Temos verificado que existe um esforço para melhoria da resposta pós-UAVC. São necessárias mais camas hospitalares de internamento em MFR. Os serviços de MFR carecem de ser amplificados tanto em recursos físicos como humanos. Só assim poderá haver melhor resposta e uma interligação mais próxima com os centros de saúde. Após alta hospitalar, temos de melhorar a rede de referenciação de MFR, incluindo os Hospitais especializados de Reabilitação e as Unidades de Cuidados Continuados. Vem a propósito referir que o governo emitiu um decreto de lei que visa propor melhorias nos cuidados de reabilitação do sobrevivente de AVC. Os médicos de MFR, enquanto coordenadores destas equipas, já felicitaram e demonstraram o interesse em discutir em sede própria estas propostas. 

JM | Qual a sua opinião sobre a criação de uma consulta do sobrevivente do AVC?

JCL | Esta pergunta é, ou seria, um tema para uma tarde de conversa. Desde logo porque representa o reconhecimento da mudança de um paradigma trágico para uma nova situação que, de resto, importa preservar e melhorar: o AVC não tem que ser uma fatalidade!

Os grandes avanços na melhoria dos fármacos e dos modelos assistenciais - cuidados primários, serviços pré-hospitalares e hospitalares - têm permitido que os doentes vivam mais tempo e com maior qualidade de vida, morrendo menos nas situações agudas.

A medicina atual permite que se viva mais tempo e isso inclui os sobreviventes, os muitos sobreviventes de muitas patologias e quadros onde antes a sentença parecia inevitável.

Mas isso releva para duas questões: a primeira, a da importância da prevenção e o papel fundamental dos médicos de família e de uma educação para a saúde que deveria ser a plataforma transversal de investimento do SNS; a segunda, a da importância do acompanhamento - chame-se consulta de sobreviventes ou outra coisa qualquer - que assegure a monitorização das sequelas, o esclarecimento informado, a sua reabilitação e a segurança destes doentes perante o seu próprio envelhecimento.

E que possa evitar, também o que vimos neste cenário de SARS-CoV-2: o cancelamento de consultas e exames, o atraso nos diagnósticos por falta de consultas presenciais, o prejuízo nos rastreios e o adiamento e perdas de consultas de follow-up em muitas doenças e no AVC em particular.

Diria enfim que, todos nós, nos defendemos encarniçadamente da hipótese de um evento ou uma perda indesejável.   

Mas é preciso maior esforço, articulação e coordenação de cuidados de saúde para "sermos felizes".

JM | Como funciona a comunicação entre os diversos cuidados que fazem gestão destes doentes, nomeadamente com os CSP e MGF? Considera ser necessário haver formação especializada deste grupo de profissionais?

JCL | Do modo como funcionam dão conta os resultados obtidos com o tratamento da fase aguda das vítimas de AVC. Não é hoje concebível este tratamento ser administrado de outra forma que não a multidisciplinaridade.

A frequência das UAVC por médicos de MGF parece-me da maior importância pois se consciencializariam, duma maneira prática, das vantagens de uma tomada de atitude rápida e vêm as vantagens de considerar o AVC uma emergência e de como tal é tratado.

Além disso aos Médicos de MGF caberá fazer o acompanhamento pós fase aguda tomando as medidas que se revelem adequadas para evitar a recidiva – prevenção secundária.

Porventura nem sempre assim acontecerá, mas a sensibilidade e disponibilidade devem existir.

A SPAVC ao longo do ano realiza ações de formação diversas que mais não são do que por à disposição dos interessados atitudes que com base em evidência científica, devem ser tomadas nas prevenções primária e secundária e na fase aguda.

  

Elaborado com a colaboração de: Ana Alves, João Sargento Freitas, José Manuel Calheiros, Pedro Cantista, Rui Cernadas e Vítor Tedim Cruz.

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.