Rui Plácido: “Em Medicina, todos os saberes se cruzam e cada especialidade leva mais longe o seu conhecimento na abordagem ao doente”
DATA
26/04/2022 17:09:28
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Jornal Médico
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Rui Plácido: “Em Medicina, todos os saberes se cruzam e cada especialidade leva mais longe o seu conhecimento na abordagem ao doente”

A plataforma Cross talks, criada pelo Grupo de Estudo de Hipertensão Pulmonar (GEHP), conta com o apoio de Rui Plácido, especialista em Cardiologia e a principal alavanca desta iniciativa, que visa cruzar conhecimento entre cada especialidade. A iniciativa dinamizará 4 sessões focadas na hipertensão pulmonar arterial (HPA) e patologias que se desenvolvem num indivíduo em simultâneo.

Hepatologia, infeciologia e Reumatologia são as especialidades que se cruzam com a Cardiologia na gestão desta doença. O conhecimento e colaboração interespecialidades é essencial.

Em entrevista ao Jornal Médico, Rui Plácido explica que os especialistas convidados destacarão temas como “a hipertensão pulmonar associada a agentes infeciosos; HAP associada a cardiopatia congénita; HAP com envolvimento venoso/capilar e, por fim, os novos horizontes desta patologia”.

 

Jornal Médico (JM) | A plataforma Cross talks disponibilizará quatro sessões focadas na associação entre a hipertensão arterial pulmonar (HAP) e outras comorbidades. Qual o principal objetivo desta iniciativa?

Rui Plácido (RP) | Em Medicina, todos os saberes se cruzam e cada especialidade leva mais longe o seu conhecimento na abordagem ao doente com uma troca mútua e exploratória do que nos dizem os dados científicos e a experiência da prática clínica. Ao longo do mês de maio, a plataforma Cross talks é o ponto de encontro de conversas cruzadas focadas nos seguintes temas: hipertensão pulmonar (HP) associada a agentes infeciosos; HAP associada a cardiopatia congénita; HAP com envolvimento venoso/capilar e, por fim, os novos horizontes desta patologia. Para concretizar este nosso projeto contamos com o contributo de reconhecidos especialistas nacionais e estrangeiros da Cardiologia, Infeciologia, Hepatologia e Reumatologia.

 

JM | A dificuldade no diagnóstico e na avaliação dos sintomas é um dos motivos pelos quais se deve reforçar a pertinência da investigação na HP?

RP | Os sintomas decorrentes da presença de HP são inespecíficos e facilmente confundíveis com outras doenças. Esta é uma das principais razões para o diagnóstico frequentemente tardio de doentes referenciados aos centros de tratamento. Os sintomas são causados, sobretudo, pela limitação no aumento do débito cardíaco durante o esforço físico e pela presença de disfunção ventricular direita, a salientar: dispneia, cansaço, dor torácica, pré-síncope, síncope e tosse.

O diagnóstico baseia-se, inicialmente, na realização ecocardiograma transtorácico, sendo confirmado através da realização de um cateterismo direito, que consiste na medição direta das pressões da artéria pulmonar através de um cateter.

O diagnóstico precoce promove uma terapêutica mais atempada e uma consequente melhoria da qualidade de vida com redução da morbimortalidade associada. Por outro lado, importa reforçar que os doentes com HAP devem ser sempre referenciados e avaliados em centros de tratamento de HP, credenciados e discutidos em equipas multidisciplinares, que incluam médicos diferenciados em HP e em outras especialidades médicas – Reumatologia, Hepatologia, Infecciologia e Imagiologia.

Estas interações são cruciais e importa reforçar que são o racional da realização das Cross talks em HAP. A tremenda complexidade inerente aos processos fisiopatológicos, que estão na base da HAP, e a multiplicidade de doenças que podem estar na sua origem, obrigam a uma coordenação e interação constante entre o especialista de HP e o especialista na possível doença associada.
Pretende-se que as Cross talks em HAP reflitam a dinâmica essencial de interação que deve existir entre as várias especialidades, pelo que se destina a todos aqueles com interesse na área.

 

JM | Para os jovens cardiologistas, por que devem ter a HP como uma possível área de interesse?  

RP | A HP é uma condição hemodinâmica frequentemente subdiagnosticada, não presente nos processos comuns de diagnóstico e não considerada nas intenções de tratamento. O grupo 1 da classificação clínica – HAP – consiste numa vasculopatia obliterativa das pequenas artérias pulmonares – e inclui as formas idiopática, hereditária, associada a fármacos/toxinas ou a outras doenças, a salientar doenças do tecido conectivo, cardiopatias congénitas, doenças infecciosas, hipertensão portal, entre outras.

Felizmente, nos anos mais recentes, fruto da considerável evolução no conhecimento da sua patogénese e dos mecanismos básicos da lesão vascular pulmonar, assistiu-se a um interesse crescente da comunidade científica em torno desta entidade. Tais factos têm vindo a ser materializados em progressos na sua caracterização clínica, nas estratégias de diagnóstico e no desenvolvimento de terapêuticas efetivas, sobretudo na última década, convergindo para modificar favoravelmente o prognóstico reservado a que os doentes estavam condenados.

Esta é, sem dúvida, uma área de crescente interesse, que se encontra em constante evolução, particularmente, em termos de diagnóstico, estratificação de risco e estratégias terapêuticas farmacológicas. Por outro lado, o tratamento destes doentes é muito gratificante pelo impacto significativo que tem em termos de morbilidade e mortalidade. É também uma área de excelência para a investigação básica, clínica e translacional.

Recorde-se que a primeira de quatro sessões acontece no dia 6 de maio, entre as 18h00 e as 19h00, e pode ser acompanhada em direto através da plataforma. Os conteúdos disponíveis são educacionais e dirigidos, exclusivamente, para os profissionais de saúde. A inscrição é gratuita e pode ser feita aqui.

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
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O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.