Manuel Carrageta: a vacinação contra o herpes zoster tem eficácia superior a 90% a partir dos 50 anos, independentemente da idade
DATA
27/05/2022 08:53:49
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Jornal Médico
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Manuel Carrageta: a vacinação contra o herpes zoster tem eficácia superior a 90% a partir dos 50 anos, independentemente da idade

Recentemente o especialista de Cardiologia e presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, Manuel Carrageta tomou a decisão, após conversa com o seu médico assistente, de se vacinar contra o herpes zoster. A primeira vacina recombinante com adjuvante, já disponível em Portugal com uma posolgia de duas doses, está indicada para adultos com idade igual ou superior a 50 anos e, é também uma proteção contra a nevralgia pós-herpética (NPH), a complicação mais comum do herpes zoster. O Jornal Médico conversou com o especialista sobre a relevância da vacinação mesmo na idade adulta, para superar o declínio natural da imunidade.

Jornal Médico (JM) |Na sua opinião qual é a importância da vacinação ao longo da vida?

Manuel Carrageta (MC) | A vacinação é fundamental e, na Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG), nós consideramos que a vacinação das pessoas idosas é tão importante como a das crianças. Com o avançar da idade, o nosso sistema imunitário enfraquece e dá-se um fenómeno chamado, imunossenescência ou seja, o sistema imunitário - que nos ajuda a combater infeções e doenças - vai perdendo a sua capacidade, ao longo do tempo, e as pessoas ficam mais suscetíveis às infeções e às suas complicações. Nesse sentido, a vacinação é muito importante, mas, muitas vezes, as vacinas nas pessoas idosas não produzem o resultado que pretendíamos. No entanto, as vacinas fazem parte daquilo que intitulamos de prevenção global e longevidade em saúde.

As pessoas ao serem vacinadas também reduzem os gastos em recursos de saúde. Do ponto de vista económico, a vacinação tem um efeito positivo, pois verifica-se uma diferença ao nível de custos em hospitalizações e terapêuticas, por exemplo nas infeções como a gripe, ou pneumonia. O internamento é sempre uma despesa maior, que pode ser evitada através da vacinação. Para nós, médicos, o mais importante é reduzir o sofrimento e as complicações futuras. A recuperação total de um doente – mantendo o doente não incapacitado – é o objetivo. Para tal, a vacinação é um passo fundamental, tanto na prevenção, como na promoção da saúde. É através das vacinas que também estimulamos o sistema imunitários das pessoas idosas.

 

JM | Porque decidiu vacinar-se contra o herpes zoster com esta nova vacina recombinante com adjuvante, não viva?

MC | Esta é uma vacina que tem a vantagem de ser apoiada por estudos, que mostram que é extremamente eficaz, a percentagem de eficácia é superior a 90%, mesmo nos doentes acima dos 50 anos. A tendência geral das vacinas é serem eficazes aos 30, 40 ou 50 anos. Depois dessa idade, a probabilidade de eficácia começa a baixar. O sistema imunitário de uma pessoa idosa não responde tão bem, nem produz anticorpos suficientes, reduzindo a proteção associada à vacinação.

No caso da vacina do herpes zoster, a mesma é bem tolerada pelas pessoas idosas. O herpes zoster atinge 1/3 da população e o risco de vir a desenvolver a doença é muito elevado. A idade é outro fator que influencia, pois existe maior risco de ter a manifestação de herpes zoster e de ter complicações. Uma complicação terrível é a nevralgia pós-herpética, que provoca uma dor neuropática, excruciante, que reduz extremamente a qualidade de vida do doente. Esta condição é também bastante resistente às terapêuticas disponíveis. É muito difícil controlar a dor causada pela nevralgia pós-herpética, e não existe uma terapêutica que seja verdadeiramente eficaz.

As complicações podem também ser oftalmológicas, causando, em casos muito graves, cegueira. Esta nova vacina ajuda-nos a proteger de uma maneira, muito eficaz, não só do herpes zoster, como também das suas complicações.

 

JM |Considera que o programa nacional de vacinação ainda tem espaço de melhoria para dar resposta ao crescente envelhecimento da população portuguesa? E deve integrar as recomendações para vacinação contra a zona?

MC | Penso que estamos num bom caminho. A seu tempo estão a ser introduzidas inovações no programa nacional de vacinação. A Sociedade Portuguesa de Geriatria e o Gerontologia (SPGG) produziu um consenso sobre as vacinas que devem ser administradas às pessoas idosas, nas quais se destacam a vacina de dose reforçada contra a gripe. As pessoas com idade mais avançada e as que tenham doenças imunossupressoras são as principais vítimas fatais da gripe. A outra vacina recomendada é a dirigida ao herpes zoster, que se trata de uma inovação. Temos que seguir o exemplo dos outros países mais desenvolvidos, que já introduziram esta vacina do herpes zoster no programa nacional de vacinas. O benefício da vacina da gripe com dose reforçada já se fará sentir no próximo outono. Este é um passo na evolução, dado pelas autoridades competentes, no sentido de melhorar a saúde da população. Para além do consenso da SPGG, outras sociedades de geriatria internacionais, que tenho conhecimento, recomendam a vacinação de todas as pessoas com mais de 50 anos para o herpes zoster.

 

JM |Quando falamos de vacinação no adulto, concorda que não se trata apenas de prevenir doenças, mas também de preservar a qualidade de vida das pessoas mais velhas? 

MC | Sim.  No caso concreto do herpes zoster as complicações não devem ser ignoradas, pois a nevralgia pós-herpética é uma condição grave, tal como os problemas oftalmológicos. Há ainda outro problema associado a estas doenças, que diz respeito ao aumento de fenómenos de coagulação, tromboembólicos, devidos à inflamação causada por esta doença.

As pessoas com herpes zoster também têm um maior risco de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Um AVC pode comprometer em muito a qualidade de vida de uma pessoa, devido às suas sequelas motoras e cognitivas associadas. Nestes casos, as vacinas asseguram um estado saudável, extremamente importante para a prevenção de doenças, e aumento da imunidade.

 

JM |O decréscimo da imunidade é mesmo uma inevitabilidade que chega com a idade? O que podemos fazer para “retardar” este fenómeno?

MC |Além das vacinas, sempre apropriadas à idade, é preciso ter um estilo de vida saudável. A alimentação é um dos três pilares fundamentais. Lembro que a alimentação mediterrânea é classificada pelos norte-americanos como a dieta mais saudável existente. A preponderância de vegetais, peixe, muito pouca carne vermelha e fruta da época – ameixas, damascos, maçãs, etc – bem como utilizar o azeite como gordura para cozinhar, oferece-nos antioxidantes e nutrientes essenciais.

O outro pilar é a atividade física regular. O sedentarismo “envelhece” o sistema imunitário, por isso é preciso que o exercício seja regular, nem que seja apenas uma marcha de meia hora por dia. O tabagismo também é determinante. As pessoas que fumam estão oito anos mais envelhecidas na sua idade biológica, em relação à sua idade cronológica. No entanto, a cessação tabágica permite desacelerar este processo. Por último, o consumo de álcool deve ser moderado.

Seguindo estes princípios, temos um estilo de vida mais saudável, que é fundamental para que se viva mais e, com mais saúde, com um sistema imunitário que reage mais robustamente às infeções.

 

JM | Que papel tem o médico de família no aconselhamento da população adulta sobre as vacinas disponíveis para prevenir as mais variadas doenças infeciosas?

MC |O médico de família é a peça fundamental do sistema de saúde, pois é o profissional que está em contacto direto com a população para a prevenção e o diagnóstico das patologias. Exemplo disso é o sucesso da redução dos casos de AVC. Esta diminuição deve-se ao controlo da pressão arterial, na maioria dos casos da responsabilidade do médico de família. Também na vacinação, o médico de família é essencial. Se não houver uma palavra deste profissional a aconselhar os seus utentes, não será possível obter bons resultados.

 

JM | Considera que esta nova vacina para prevenir o herpes zoster responde a uma necessidade não atendida? 

MC | É muito evidente que sim. Em primeiro lugar porque pode ser inoculada a qualquer adulto, mesmo às pessoas imunocomprometidas e imunossuprimidas, que são grupos de risco do herpes zoster e de complicações associadas, para os quais até agora não dispúnhamos de vacina.

A vacina contra o herpes zoster atingiu 90% de eficácia, mesmo em pessoas com mais de 50 anos, independentemente da idade. É preciso recordar que a nevralgia pós-herpética ocorre em cerca de 30% das pessoas com mais de 80 anos que sofrem de herpes zoster.

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Editorial | Jornal Médico
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