Rui Tato Marinho: A caminho da eliminação da hepatite C em Portugal?
DATA
31/05/2022 14:48:38
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Jornal Médico
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Rui Tato Marinho: A caminho da eliminação da hepatite C em Portugal?

Este foi o título da palestra de Rui Tato Marinho, diretor do Plano Nacional para as Hepatites Virais, que, durante a mesa redonda “Hepatites víricas” enquadrada nas 13.as Jornadas de Atualização em Doenças Infeciosas do Hospital Curry Cabral (CHULC), abordou os objetivos assim como o trabalho desenvolvido no âmbito desse programa, que pela primeira vez integra um dos 12 projetos prioritários a nível nacional.

O também diretor do Serviço de Gastrenterologia e Hepatologia do Hospital de Santa Maria (CHULN) e Diretor do Centro de Medicina Paliativa, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), começou por referir que na sua perspetiva “é possível eliminar a hepatite C em Portugal”, na medida em que é possível eliminar a Hepatite C em termos individuais e de uma forma brutal com 97% de eficácia”, afirmou, acrescentando que “apesar de ser um monstro complexo, ano após ano e com a colaboração de todos os stakeholders será possível eliminar a Hepatite C”.

Com vista à eliminação da hepatite C, a Organização Mundial de Saúde (OMS) elaborou documentos com “excelentes propostas estratégicas” que agora “têm de ser operacionais – o que por vezes é o mais difícil”. “Reduzir o número de mortes por hepatite viral em 65% e reduzir o número de novos casos de infeção por hepatite B e C crónica em 90% são os grandes objetivos a atingir para a eliminação”, afirmou Rui Tato Marinho acrescentando que “estas metas implicam – e esta é uma prioridade – ter dados consistentes, o que nem sempre se consegue”.

“É uma honra muito grande estar à frente no Programa Nacional para a Hepatite C”

Agradecendo a Graça Freitas (Direção-Geral da Saúde, DGS), Vanessa Gouveia (DGS), Lacerda Sales (Secretário de Estado) e a Joana Bettencourt (DGS), respetivamente “pelo convite e superior apoio técnico e humano”, o especialista em Hepatologia afirmou que “é uma honra muito grande estar à frente neste programa, que faz parte dos 12 Programas Prioritários de Saúde da DGS”, expressando igualmente “uma felicidade muito grande em ter uma equipe motivada”, na qual fazem parte profissionais de saúde de diferentes áreas. Além dos jovens gastrenterologias e hepatologistas que integram a equipe, Rui Tato Marinho sublinhou a importância de ter colegas da Medicina Geral e Familiar e também da Saúde Pública com ligação ao European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), referindo que “são uma mais-valia para nos dar uma visão mais completa daquela que temos enquanto gastrenterologistas e hepatologistas, assim como ajudar a desconstruir algumas ideias fixas e a perceber o mundo onde estamos inseridos”.

“Pela primeira vez as hepatites virais estão entre os 12 programas prioritários nacionais, e isso dá-nos a oportunidade de fazer mais pelos nossos doentes e pelas doenças do fígado”

Partilhando o secretariado da DGS com o Programa Nacional para a Tuberculose e o Programa Nacional contra o VIH/SIDA, o Programa Nacional das Hepatites integra pela primeira vez um programa prioritário. Consciente de que esta “é uma tarefa difícil” e sabendo que “temos que “competir” recursos com outros 11 programas”, Rui Tato Marinho afirmou que já teve reuniões “com metade dos responsáveis dos programas para aprender os mecanismos de funcionamento da DGS e da Política de Saúde”. Durante a sua exposição, relevou a colaboração dos “doentes científicos”, nomeadamente de Luís Mendão (GAT) e de Daniel Simões (OMS), ambos membros do Conselho Científico do programa, referindo que “além de um profundo conhecimento sobre hepatite têm uma grande capacidade de desenvolver estratégias e têm sido um apoio fantástico”. Aproveitando a oportunidade, homenageou Emília Rodrigues (ELPA) assim como Zé Pedro (Xutos&Pontapés), “dois Amigos que, se tivessem vivido, estariam muito contentes por me ver aqui e que sempre apoiaram muito esta causa e os próprios doentes”, partilhou.

Plano Nacional para a Hepatite C: o que tem sido feito?

Como partilhou o diretor do Plano Nacional para a Hepatite C, a equipe tem tido reuniões periódicas semanais, “com uma participação muito grande e independentemente de outras reuniões que se possam fazer”, nas quais “com objetivos comuns e ouvindo várias opiniões debatemos, propomos e revemos documentos”. O preletor afirmou ainda que já entrou em contacto com o grupo de Farmácia, Infarmed, e com responsáveis dos DICADS - Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências dependentes das ARS), entre muitas outras entidades e salientou ser “uma mais-valia poder conhecer as perspetivas destas e de outras áreas”, pelo que “estamos abertos a reunir com todas as entidades interessadas”.

Do trabalho desenvolvido até ao momento inclui-se o plano estratégico do Programa Nacional das Hepatites – um documento que, segundo o palestrante, “tem pouco mais de meia dúzia de páginas, sabemos o que queremos e está contextualizado e, neste momento está nas instâncias superiores para ser posteriormente divulgado”.

Desde o início, já foram levadas a cabo 106 reuniões de network e 13 apresentações a nível nacional e internacional. Neste âmbito, o especialista destacou a reunião com o INFARMED, que decorreu com “uma postura de abertura perante um tema quente que é a revisão do Portal da Hepatite C – um portal que tem mais de 10 anos e necessita de atualização em relação ao circuito de aprovação da medicação, que é muito complexo”.

Destacam-se também reuniões com o Plano Nacional de Saúde, Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF), Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), Liga Portuguesa Contra o Cancro, com Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM) e Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD), assim como com a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) e as Fast-track cities. “Em todas elas o fígado assume um papel fundamental, na medida em que a doença hepática é multidisciplinar e, além de causa de morte, as hepatites virais são uma doença de alto risco oncológico, embora normalmente não seja vista como tal”, afirmou o especialista frisando que “a doença hepática ocupa o 4º lugar no ranking de morte precoce em Portugal (morte ≤75 anos)”. Isto se se somarem as mortes por cirrose hepática e carcinoma hepatocelular.

Na perspetiva do especialista que também possui Competência de Adictologia da Ordem dos Médicos, as reuniões virtuais não chegam: “estar com as pessoas e ouvi-las é extremamente importante”. Para o efeito, o trabalho tem envolvido visitas ao terreno, tanto ao Ministério da Saúde, gabinete da DGS e entidades médicas, bem como a associações de intervenção comunitária (GAT, CRESCER, Associação Positivo, AJPAS, AHSeAS, Liga Portuguesa contra a SIDA, Fundação Portuguesa “A Comunidade Contra a SIDA, Ares do Pinhal).

“Todos nós temos percentagens muito elevadas para tentar convencer da importância deste órgão que é único – o fígado”

A nível internacional, Rui Tato Marinho mencionou a vontade de “unir esforços com outras entidades” em prol das hepatites virais.  O preletor sublinhou a colaboração com o ECDC e o trabalho que tem sido realizado na obtenção de dados. “Para nós, ter dados é uma riqueza muito grande e, nesse sentido, temos trabalhado com o ECDC através dos focal points e dos operational contact points, que estão a dar mais importância às hepatites”. Referiu ainda o trabalho desenvolvido em colaboração com outras entidades tais como Polaris, Global Hepatitis elimination e, tendo as associações de doentes uma importância estratégica muito relevante, destacou a colaboração com a European Liver Patient Association (ELPA), da qual o especialista integra o Advisory Board. Há ainda a realçar reuniões com a direção da European Association for the Study of the Liver (EASL) e com a OMS, onde “surgiu a oportunidade de partilhar dados portugueses bastantes fortes numa das últimas reuniões a nível europeu”, assim como reuniões com outros países como Espanha, Croácia, Austrália e Egito, “países com quem pretendemos aprender”, afirmou.

“Não vejam as hepatites apenas como letras: trata-se de pessoas com cancros que morrem jovens”

No que respeita a comunicação, esta equipe está empenhada em desenvolver materiais informativos. Para já conta com a elaboração de seis infografias, “queremos fazer mais” afirmou o palestrante.

Quanto à mensagem, Rui Tato Marinho sublinhou que pretende transmitir que as hepatites não são apenas letras A,B,C,D,E: “trata-se de pessoas com cancros que morrem jovens e têm cirrose”. Além disso, para o diretor importa “pugnar por perceberem que estas são entidades com risco elevado de cancro, em particular a hepatite B e C, são agentes oncológicos descritos pela OMS”. “É muito importante não desvalorizar a hepatite C pois podemos eliminar o vírus e a pessoa vir a morrer de um carcinoma hepatocelular”, alertou.

Por outro lado, no que respeita o Plano Nacional de Saúde, o especialista defende a necessidade de uma intervenção precoce. Como explicou, “há que pensar ativamente no fígado e progressivamente colocar as análises enzimáticas numa avaliação de saúde no seu global, de modo a identificar doentes com alterações nos níveis de ALT ou AST– quanto maior a alteração, maior é o risco de morte – e, portanto, poder intervir precocemente na prevenção e dar melhor saúde àquela pessoa, assim como no diagnóstico de doenças genéticas a elas associadas e com tratamentos que salvam vidas”, argumentou Rui Tato Marinho.

Importa ainda defender a entrada das hepatites no mundo dos Cuidados Paliativos, com o intuito de “dar conforto estas pessoas, e à sua família, quando não há nada a fazer. E muitas vezes não há nada a fazer em termos de sobrevivência”,

Dando como exemplo da gravidade da doença hepática, o risco de morte por doença hepática na rotura de varizes esofágicas, que atinge os 25% o que implica investimento na sua prevenção e tratamento.

Rui Tato Marinho fez ainda menção às questões sociais que representam impacto na vida das pessoas que vivem com hepatite C. Questões muito complexas sem esquecer que muitos cancros surgem com o envelhecimento da população, e as hepatites B e C estão presentes quando se fala de cancro”, salientando-se também que “a doença hepática ocupa o 4º lugar no ranking de morte precoce em Portugal (morte ≤75 anos).

“Há quem reconheça Portugal como tendo uma excelente abordagem à problemática das hepatites virais”

É também objetivo desta equipa transmitir internacionalmente o bom trabalho que tem sido desenvolvido em Portugal. Referindo um dos pontos de especial satisfação, o preletor afirmou que “Portugal e a Roménia foram os únicos países que reportaram ao ECDC dados sobre o número de testes de hepatite B e C realizados nos últimos 2 anos” e, “apesar de fazermos um milhão de testes de hepatite B e C por ano em Portugal, um dos objetivos é aumentar”, declarou.

Além disso, pretende transmitir que “temos estudos epidemiológicos, temos profissionais de saúde qualificados e equipas multidisciplinares”, sublinhando “o modo de estar restaurativo das estruturas de saúde.  Adicionalmente, “temos cerca de 30 aparelhos para elastografia, e há países que têm muito pouco – temos a vacinação universal para a hepatite B, que tem funcionado muito bem, temos sangue seguro, temos tratamento gratuito para a hepatite C e B, temos um excelente programa de transplante hepático”, enumerou o diretor do Plano Nacional para as Hepatites virais acrescentando que “apesar disso queremos melhorar”.

Sublinhando a sua crença na eliminação da hepatite C em Portugal, Rui Tato Marinho afirmou que “os dados dos ensaios clínicos da indústria mostram-nos uma eficácia de 97%, o número de casos tem vindo a diminuir ao longo dos últimos anos e penso que foi praticamente eliminada na hemodiálise.

Em suma, Rui Tato Marinho reiterou a necessidade de “dar mais importância aos dados, rever o Portal da Hepatite C, e melhorar o circuito do tratamento  da hepatite C, fazer mais testes, aumentar a literacia nas doenças do fígado insistindo na sua prevenção e em estilos de vida saudável. Terminou frisando que “somos muitos, estamos disponíveis e com a colaboração de todos acho que vai ser possível daqui a um ano dizer que estamos cada vez mais perto de domar este monstro que é a hepatite”.

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Editorial | Jornal Médico
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