O médico de MGF "irá gerir a primeira abordagem terapêutica" da bexiga hiperativa e da incontinência urinária
DATA
01/06/2022 09:32:26
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Jornal Médico
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O médico de MGF "irá gerir a primeira abordagem terapêutica" da bexiga hiperativa e da incontinência urinária

Um estudo desenvolvido pela Unidade de Uroginecologia do Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Medicina da Reprodução do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, cujas conclusões foram conhecidas em 2020, demonstrou que a prevalência de perdas de urina em mulheres portuguesas foi 35,1%, enquanto a média europeia se situa entre os 18% e os 42%. Das 2226 mulheres inquiridas neste estudo, 14,6% afirmou que a Incontinência Urinária (IU) interfere com cinco ou mais atividades do seu quotidiano. Nesse sentido, leia a entrevista a Teresa Abreu, médica de Medicina Geral e Familiar e medical manager na Astellas Farma, para a área de Urologia.

Jornal Médico (JM) | Quais são os principais sinais da Bexiga Hiperativa?
Teresa Abreu (TA) | A bexiga hiperativa (BH) é uma síndrome caracterizada por urgência miccional, geralmente acompanhada de frequência miccional aumentada e noctúria, com ou sem incontinência urinária (IU) de urgência e na ausência de infeção do trato urinário ou de outra patologia subjacente.
Embora não esteja associada a um aumento da mortalidade, tem um profundo impacto no bem-estar e na qualidade de vida dos doentes, que têm muitas vezes diagnósticos concomitantes de depressão ou ansiedade, acompanhados de dificuldades no contexto laboral e isolamento social.
 
JM | O número de partos pode ser um indicador deste problema?
TA | É de consenso generalizado que o primeiro passo na abordagem destes doentes inclui a colheita de uma história clínica minuciosa, onde se incluem, entre outros, os antecedentes ginecológicos e obstétricos, no caso particular das mulheres.
Neste capítulo, um número crescente de partos constitui um fator de risco para IU, bem como e prolapso dos órgãos pélvicos. No entanto, a IU está descrita em nulíparas (podendo atingir uma prevalência de 32% entre os 55 e os 64 anos.
Quando comparadas com mulheres submetidas a cesariana (que têm uma prevalência de IU idêntica a nulíparas, quando ajustada a idade), as mulheres com parto vaginal apresentam um maior risco de IU de esforço. A idade materna no primeiro parto e o peso do recém-nascido também foram implicados como fatores de risco obstétrico para IU, embora não modificáveis.
A gravidez por si só também predispõe para IU, verificando-se um aumento da sua prevalência ao longo dos diferentes trimestres. Contudo, a prevenção primária através de exercícios de treino do pavimento pélvico durante a gravidez mostrou reduzir em 62% a probabilidade de vir a ter IU no final da gravidez e em 29% de a experienciar 3 a 6 meses após o parto.
 
JM | Qual o impacto que o envelhecimento tem no sistema urinário?
TA | Sabemos que a prevalência de BH aumenta com a idade, prevendo-se um aumento da sua expressão nos próximos anos, acompanhando o envelhecimento das populações.
De facto, as alterações fisiológicas associadas ao envelhecimento, como sejam as alterações do tónus muscular ou a diminuição da capacidade vesical, favorecem o desenvolvimento de uma BH, principalmente na presença de fatores precipitantes. Contudo, a BH não deve ser encarada como parte inevitável do envelhecimento, merecendo por isso avaliação e tratamento adequados.
 
JM | Quando é que a perda de urina involuntária é normal e quando passa a ser considerada “incontinência”?
TA | O termo incontinência urinária, definido pela International Continence Society (ICS), refere-se à perda involuntária de urina. A IU pode existir isoladamente ou associar-se a outros sintomas do tracto urinário inferior. De acordo com a terminologia estabelecida pela ICS e pela International Urogynecological Association (IUGA), a IU é categorizada em subtipos, conforme as circunstâncias em que ocorre, nomeadamente: de esforço, de urgência ou mista; postural, contínua, funcional, enurese, entre outras.
 
JM | O facto de qualquer supermercado apresentar pensos por forma a simplificar o dia a dia de quem sofre de perdas de urina, banaliza este problema?
TA | O tabu e a vergonha continuam a ser grandes barreiras à procura de ajuda por estes(as) doentes. Por esse motivo, o acesso fácil a pensos/fraldas ou meios de contenção é importante para quem tenha episódios de incontinência urinária que não respondam totalmente à terapêutica disponível (ou para quem não esteja indicada). Aliás, é também nesse sentido que apontam as recomendações mais recentes da European Urology Society (EAU), de 2021.
 
JM | Qual o tratamento não invasivo a que se se pode recorrer e qual a taxa de sucesso? Existe algum tipo de ginástica ou de exercícios que possam ajudar a fortalecer os músculos?
TA | Existe um largo espetro de opções terapêuticas e a seleção de uma em particular depende da gravidade dos sintomas e do impacto que têm no dia-a-dia do(a) doente.
A primeira abordagem é habitualmente não invasiva e inclui adequações no estilo de vida (visando a limitação de agentes irritativos para a bexiga), o treino vesical, técnicas de supressão da urgência e exercícios do pavimento pélvico.
A terapia muscular do pavimento pélvico (TMPP), originalmente descrita por Kegel em 1948 para a incontinência urinária de esforço, também mostrou reduzir os episódios de urge-incontinência. O seu sucesso depende da adesão a um programa de exercício regular e a realização da técnica corretamente, que envolve exercícios concebidos para melhorar a função da musculatura do pavimento pélvico e do esfíncter uretral. Apesar da maioria dos estudos serem efetuados em doentes com incontinência de esforço e mista, uma meta-análise Cochrane concluiu que a TMPP é uma terapia de 1ª linha válida na presença de incontinência urinária.
As intervenções comportamentais devem fazer parte de toda e qualquer estratégia terapêutica.
Dos três grandes grupos de opções terapêuticas disponíveis (comportamental, farmacológica e cirúrgica), uma combinação dos dois primeiros permite obter resultados em cerca de 80% dos doentes.
 
JM | Quando deve um Médico de Medicina Geral e Familiar encaminhar o doente para um médico urologista?
TA | O médico assistente do doente, habitualmente o especialista em Medicina Geral e Familiar, fará a avaliação inicial, onde se inclui a colheita da história clínica (podendo incluir, por exemplo, um diário miccional e a aplicação de escalas ou questionários de avaliação de sintomas e impacto na qualidade de vida), bem como o exame físico detalhado. Para chegar ao diagnóstico, poderá ter que recorrer a exames complementares que permitam excluir outros diagnósticos potenciais. Além disso, irá gerir a primeira abordagem terapêutica, começando pelas intervenções comportamentais e introduzindo fármacos, se indicados.
A necessidade de recorrer a meios complementares de diagnóstico ou terapêutica subsequentes, bem como a existência de sinais de alarme, podem requerer a intervenção de um médico especialista em Urologia ou Uroginecologia, devendo para isso o doente ser referenciado.
 
JM | Em que situações se avança para tratamento cirúrgico e qual o sucesso do mesmo?
TA | O tratamento cirúrgico da IU de esforço tem evoluído ao longo das últimas décadas no sentido de abordagens minimamente invasivas. Opta-se por esta alternativa quando a abordagem conservadora e a terapêutica farmacológica não têm resultados suficientemente satisfatórios, pelo que está reservado a uma pequena percentagem dos doentes.
A seleção da cirurgia a realizar (bem como o seu sucesso) depende do tipo de IU, das características do(a) doente e da experiência do cirurgião.
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Editorial | Jornal Médico
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