Fátima Faustino: “Poderá ser possível atingir a meta da erradicação do cancro do colo do útero em 2030”
DATA
20/06/2022 10:43:36
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Jornal Médico
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Fátima Faustino: “Poderá ser possível atingir a meta da erradicação do cancro do colo do útero em 2030”

Num balanço sobre a saúde da mulher portuguesa, Fátima Faustino salienta que “Portugal passou de uma situação de ter os piores indicadores da Europa para uma das melhores do mundo em termos de saúde materno-infantil”. De acordo com a coordenadora da Unidade de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Lusíadas Lisboa, apesar de “haver ainda um caminho a percorrer” em áreas como a reposição hormonal na menopausa ou a prevenção da osteoporose e dos cancros colorretal, do endométrio e do ovário, “tem sido atribuída uma maior importância ao diagnóstico e tratamento das patologias ginecológicas da mulher em Portugal”. Leia a entrevista na íntegra. 

Jornal Médico (JM) | Em Portugal, a evolução da saúde materna e infantil e dos seus indicadores foi estrondosa. Como está a Saúde da Mulher passados quase 43 anos da fundação do Serviço Nacional de Saúde?

Fátima Faustino (FF) | De acordo com dados da Direção-Geral da Saúde (DGS), em Portugal, em 1970, 63% dos partos eram não hospitalares; muitas mulheres passavam dias em trabalho de parto, no domicílio, sem recurso a qualquer analgesia ou assistência médica, com elevadas taxas de mortalidade e morbilidade materna e/ou fetal. Nessa altura, a mortalidade materna era de 73,4/100.000 nascimentos vivos e a mortalidade perinatal de 38,9/1.000 nascimentos. Ao longo dos anos, as condições hospitalares, o acesso aos cuidados de saúde e a humanização dos mesmos melhoraram significativamente, apesar das dificuldades inerentes aos recursos humanos e melhoria de instalações em alguns hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). A título de exemplo, no ano 2000 os partos fora do hospital passaram para 0,3%, a taxa de mortalidade materna para 2,5/100.000 e a mortalidade perinatal para 6,2/1.000. A percentagem de partos não hospitalares teve um mínimo de 0,1% em 2010. Na última década, de 2010 a 2019, a percentagem de partos fora do hospital foi de 0,7%, a taxa de mortalidade materna de 7,15/1.000 e de mortalidade perinatal de 3,9/1.000. Já nos anos de 2017 e 2018, por exemplo, a mortalidade materna fora do hospital foi 25 vezes superior à hospitalar. Comparando estes dados com os de outros países podemos verificar que Portugal passou de uma situação de ter os piores indicadores da Europa para uma das melhores do mundo, em Saúde materno-infantil. Gostaria ainda de salientar que apesar de algum “ruído” e opiniões divergentes em relação em relação à humanização do parto, recuso-me a aceitar o termo “violência obstétrica” e continuo a acreditar que todos os profissionais de saúde que trabalham nesta área, seja no SNS ou ao nível privado, tudo fazem para melhorar o bem-estar materno e a saúde do recém-nascido.

JM | Como olha atualmente para o panorama da saúde ginecológica da mulher?

FF | Penso que as mulheres estão mais atentas às suas queixas e que a aceitação de determinados “mitos” já não acontece com a mesma facilidade. Atualmente, existe um amplo acesso à informação divulgada através da internet e, quer esta seja boa ou má, a verdade é que tem a vantagem de levantar dúvidas, levando depois as mulheres a consultar um profissional de saúde. O enfermeiro tem um enorme papel na sua orientação, já o médico tem a função vital de diagnosticar, esclarecer e providenciar o tratamento.

JM | Considera que de uma forma geral tem sido atribuída uma maior importância ao diagnóstico e tratamento das patologias ginecológicas da mulher em Portugal?

FF | De uma forma geral, penso que sim, que tem sido atribuída uma maior importância ao diagnóstico e tratamento das patologias ginecológicas da mulher em Portugal, com a salvaguarda das limitações inerentes aos recursos humanos em alguns hospitais do SNS. Na minha opinião, o acesso limitado ao curso de Medicina durante vários anos traduz-se atualmente por escassez de profissionais em determinadas áreas, agravado pelo elevado número de médicos que se encontra em idade de reforma. Desta forma, por muito que se queira dar resposta, esta nem sempre é possível no tempo desejado.

JM | Qual o papel do médico de família no diagnóstico e encaminhamento/seguimento e tratamento das doenças do foro ginecológico da mulher?

FF | Penso que o médico de família, devido ao seu contacto com a população em geral, pode intervir de forma privilegiada a vários níveis na prevenção primária e na prevenção secundária das doenças ginecológicas, tendo um papel fundamental na orientação das principais patologias para os serviços hospitalares de referência ou para centros especializados.

JM | Quais são na sua opinião, as áreas da saúde ginecológica da mulher que têm sofrido uma evolução mais positiva e quais as que têm sido mais negligenciadas e que precisam de ser impulsionadas?

FF | Sem dúvida que tem havido uma evolução muito positiva na área da Medicina Materno-fetal, que se reflete nos indicadores já referidos, apesar do elevado número de mulheres que devido a instabilidade socioprofissional e familiar adiam a primeira gravidez para idades mais tardias, com o decorrente aumento de patologias como diabetes gestacional, pré-eclampsia, parto pré-termo, restrições do crescimento fetal e complicações pós-parto. Também a Medicina Reprodutiva, pela mesma razão, é confrontada com desafios crescentes e superados. Já na área da Ginecologia, a implementação do rastreio do cancro do colo do útero, a generalização de tratamentos eficazes e a adesão da população à vacinação contra o HPV levam-nos a pensar ser possível atingir a meta da erradicação do cancro do colo do útero em 2030. De salientar ainda que a vacina contra o HPV está incluída no Programa Nacional de Vacinação (PNV) para as raparigas de 10 anos, mas desde outubro de 2020, que os rapazes nascidos a partir de 2009 também podem fazer a vacina gratuitamente no âmbito do PNV. Adicionalmente, o rastreio e tratamento do cancro da mama é outra área em constante desenvolvimento, quer no diagnóstico, quer na terapêutica, e têm sido igualmente amplamente discutidas as patologias benignas, como os miomas uterinos e a endometriose, na incessante procura de novas terapêuticas médicas que possam adiar ou evitar a cirurgia. Penso que talvez seja necessário dar mais atenção às patologias das faixas etárias mais avançadas, cujo bem-estar é essencial atendendo ao aumento da longevidade. Nesse contexto, considero que o tratamento de reposição hormonal na menopausa, a prevenção da osteoporose, a uroginecologia, bem como a prevenção do cancro colorretal, do endométrio e do ovário, são áreas que necessitam ser impulsionadas para chegarem a toda a população feminina.

JM | Como se encontram atualmente os rastreios ginecológicos?

FF | Como já salientado, os rastreios do cancro da mama e do colo do útero estão em franca evolução. Já em relação ao rastreio do cancro do endométrio e do ovário, infelizmente não dispomos de uma prevenção primária eficaz como no cancro do colo do Cancro do colo do útero: Prevenção primária e vacinação alargada ao sexo masculino contra o HPV. Cancro do ovário: Inibidores de PARP, uma forma de quimioterapia oral, atualmente utilizados nos tumores que apresentam mutações dos genes BRCA1 e BRCA2, mas que se pensa poderem vir a ser utilizados em todos os tipos de cancro do ovário. Miomas uterinos: Nova molécula com relugolix, estradiol e noretisterona para tratamento dos sintomas moderados ou graves, nomeadamente a hemorragia uterina anormal. Endometriose: Muita investigação no desenvolvimento de novas moléculas terapêuticas, nomeadamente no grupo dos antagonistas do GnRH e dos inibidores da aromatase e também na utilização de moléculas antigas como a metformina. Contraceção (pílula): Nova pílula com progestagénio, a drospirenona, sem estrogénio e mais recentemente a associação de um estrogénio bioidêntico, o estetrol e a drospirenona. Inovações nas áreas… útero (vacinação) e o rastreio pelo exame ginecológico e ecografia transvaginal não se revela eficaz em mulheres assintomáticas, para redução da mortalidade. No entanto, realço que cabe ao ginecologista aproveitar a chamada consulta de rotina anual para despistar eventuais fatores de risco e valorizar sintomas como a hemorragia uterina anormal, peri ou pós-menopausa. No caso do cancro do ovário ainda se revela mais difícil por se tratar de um tumor muito pobre em sintomatologia e de diagnóstico, em muitos casos, tardio.

JM | Quais as mais recentes evoluções diagnósticas e terapêuticas no campo das doenças da saúde ginecológica da mulher?

FF | Especificamente no cancro ginecológico destaco o diagnóstico precoce, que tem tido inovações no campo da genética e na aplicação de métodos de inteligência artificial. Já no que se refere ao tratamento, saliento o papel da imunoterapia, usada como complemento de outras terapêuticas ou como primeira linha, resultando numa ativação do sistema imunitário de forma a lutar especificamente contra as células tumorais, reduzindo assim o dano dos tecidos sãos, com menos efeitos secundários debilitantes. Deixo ainda um destaque para as terapêuticas dirigidas a alvos moleculares, o facto de termos radiofrequência menos agressiva que a radioterapia convencional e cirurgias menos invasivas, quer utilizando a laparoscopia 3D, quer a robótica e até a inteligência artificial.

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Editorial | Jornal Médico
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