Pedro Xavier: “É preocupante e sério o aumento da idade  em que as mulheres procuram ajuda para  engravidar”
DATA
27/06/2022 10:35:58
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Jornal Médico
Pedro Xavier: “É preocupante e sério o aumento da idade em que as mulheres procuram ajuda para engravidar”

Há 30-40 anos as causas da infertilidade na mulher eram sobretudo relacionadas com problemas anatómicos do útero e das trompas uterinas. Atualmente, alerta Pedro Xavier, coordenador da Unidade de Medicina da Reprodução do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de São João, “há uma significativamente maior incidência de infertilidade associada à insuficiência ovárica, associada à idade”.

Jornal Médico (JM) | Considera que as mulheres portuguesas têm cada vez mais consciência da sua saúde reprodutiva?


Pedro Xavier | Sim, claramente sim, embora aquém daquilo que seria ideal. Ou seja, a literacia em saúde reprodutiva não está ainda nos níveis que desejaríamos, mas nota-se, sem dúvida, uma grande evolução, nos últimos 5-10 anos, no conhecimento das mulheres sobre essa matéria.


JM | Qual a percentagem de casais inférteis atualmente em Portugal? A prevalência tem aumentado?


PX | Um estudo feito em Portugal há alguns anos traçou o retrato da prevalência da infertilidade em cerca de 10-12%. Essa prevalência tem aumentado ao longo dos anos, mas não de forma muito significativa, e acontece sobretudo devido à maior consciência das mulheres e dos beneficiários em geral de que há soluções para a sua condição de infertilidade. O que é realmente preocupante e sério é o aumento da idade em que as mulheres procuram ajuda para conseguirem engravidar.


JM | Quais são as principais causas de infertilidade entre as mulheres portuguesas? Estas têm mudado ao longo do tempo?


PX | Há 30-40 anos as causas da infertilidade na mulher eram sobretudo relacionadas com problemas anatómicos do útero e das trompas uterinas, nomeadamente a obstrução das trompas uterinas ou doenças do próprio útero. Os problemas ovulatórios eram também muito prevalentes, ou seja, mulheres que tinham dificuldade em engravidar porque não tinham ovulações regulares. Com o tempo, tem-se notado uma menor prevalência desses problemas, e uma significativamente maior incidência de infertilidade associada à insuficiência ovárica. Ou seja, uma reserva de óvulos menor muito associada à idade. Infelizmente, existe uma percentagem muito grande de mulheres que nos procuram por dificuldade em engravidar quando muito provavelmente 5 ou 10 anos antes não teriam quaisquer problemas.


JM | Qual o principal ou principais sinais de alerta que devem levar a procurar ajuda médica?


PX | A mulher que está a tentar engravidar e não consegue, e que tem ciclos menstruais irregulares e com uma variação muito grande nos intervalos entre os respetivos períodos, é um padrão que sugere um problema de funcionamento dos ovários. Como tal, este é, desde logo, um sinal importante que a deve levar a falar com o seu médico. As dores fortes durante o período menstrual são também um problema associado à infertilidade. A conjugação desses dois fatores, muitas dores e dificuldade em engravidar, aumenta muito a probabilidade de a mulher vir a ser diagnosticada com endometriose, que, como se sabe, está muito associada à infertilidade.


JM | Como deverá o médico de família aconselhar a mulher que o procura com problemas de fertilidade. Qual é o seu papel?


PX | O médico de família tem um papel importantíssimo nesse aconselhamento, porque numa primeira instância, muitas vezes, é o primeiro a ser abordado para esta questão da dificuldade em engravidar. Nesse caso, há, desde logo, uma variável que o médico deve ter em atenção, que é a idade da mulher. Se o casal diz na consulta que está a tentar engravidar há um ano/ano e meio e se a mulher tiver mais de 35 anos, o médico não deve nunca desvalorizar aquela queixa e dizer que “se calhar é uma questão de tempo, não se preocupe, deve ser ansiedade, continue a tentar”. Isto porque, como sabemos, à medida que a idade vai passando, a probabilidade de a mulher vir a ter dificuldades acrescidas é maior, mesmo com tratamentos de fertilidade para resolver o seu problema. Por isso, essas mulheres devem ser rapidamente referenciadas para consultas de apoio à fertilidade. Outra competência do médico de família é, nos casos em que lhe chega, por exemplo, uma mulher de 30-31 anos, que está há 3-4-5 meses a tentar engravidar, passar exatamente a mensagem contrária, de alguma tranquilidade, e dizer-lhe tranquilamente que não se deve preocupar, pois a fertilidade tem caprichos, tem muitas variáveis que têm de estar alinhadas para que ocorra uma gravidez. Ou seja, esse aspeto de tranquilização das mulheres mais jovens e que estão há pouco tempo a tentar engravidar também é importante porque lhes tira pressão.


JM | Os tratamentos contra a infertilidade apresentam complicações para além da gravidez múltipla?


PX | A principal complicação dos tratamentos de fertilidade é a síndrome de hiperestimulação dos ovários, embora seja rara. Trata-se de um quadro clínico que acontece quando há uma estimulação exponencial dos ovários, que foge um pouco ao controlo daquilo que seria o objetivo de uma estimulação para uma fertilização in vitro ou uma inseminação, e a mulher produz muito mais óvulos e muito mais hormonas do que o desejável. Nesses casos, pode resultar num desequilíbrio grande da harmonia, quer hormonal, quer do sistema cardiovascular, e obrigar mesmo a internamento hospitalar. Felizmente que esta situação, relativamente frequente há 20 anos, é cada vez mais rara. A incidência, que era de cerca de 5% por todos os tratamentos de fertilidade, está atualmente em valores inferiores a 0,5% de todos os casos de tratamentos de fertilidade. Houve, de facto, uma evolução muito grande e, hoje, conseguimos ter muitos indicadores preditivos desse quadro clínico, o que nos possibilita a paragem do processo e a adoção de estratégias como congelar os embriões e não fazer o tratamento num continuum, com a transferência dos embriões para o útero da mulher no mês seguinte apenas, por exemplo, dando tempo à mulher para recuperar. Depois, embora raríssimas, podem existir as complicações inerentes aos procedimentos mais invasivos, como é o cado da colheita dos óvulos e a respetiva sedação, no caso da fertilização in vitro.  Apesar de em teoria poder haver uma hemorragia, uma infeção no momento da colheita, é muito raro acontecer. Este é, de facto, um procedimento bastante seguro, sendo que este tipo de complicações é inferior a 1/1000 procedimentos.

JM | As mulheres portuguesas estão despertas ou conhecem a possibilidade da preservação da fertilidade?


PX |
As mulheres portuguesas conhecem pouco a possibilidade de preservação da fertilidade e há muito ainda a fazer para que a informação lhes chegue. A esse propósito, a Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução deu recentemente o apoio científico a uma campanha, chamada “Quando estiveres pronta”, que serviu precisamente para alertar as mulheres para o compromisso da fertilidade com a idade, e para a possibilidade de estas poderem fazer uma preservação da fertilidade, congelando os seus ovócitos numa idade em que a qualidade dos mesmos ainda lhe permita ter uma boa expetativa de sucesso quando os vier a utilizar. O ideal seria congelar os ovócitos antes dos 35 anos, mas não é muito comum que isso aconteça, porque a mulher quando pensa nisso é precisamente quando a idade já está a pesar um pouco. Infelizmente, é muito comum na nossa consulta de infertilidade, termos mulheres com 40, 42, 44 anos que não fazem ideia nenhuma de que a preservação da fertilidade teria sido possível fazer-se numa idade mais jovem.

JM | O que considera que ainda precisa de ser feito para que esta informação chegue mais às mulheres portuguesas?


PX |
Penso que há duas vertentes muito importantes para que isso aconteça. Uma delas é a vertente mais clínica, pois o interlocutor ideal para alertar estas mulheres para a questão da possibilidade de preservação da fertilidade seria, mais uma vez, o médico de família. Este tem um papel importantíssimo nesse alerta, porque lida muitas vezes com mulheres na faixa dos 33-35 anos, que estão muito longe ainda de pensar em querer ter filhos, ou se pensam, não conseguem ver esse projeto concretizado a curto prazo porque ou não têm um projeto parental, ou porque não podem e a vida não lhes permite. Depois, também o ginecologista tem um papel muito importante e deve perguntar à mulher, nas sua consultas anuais, o que esta está a pensar fazer em termos de ter filhos. A verdade é que muitas mulheres não pensam em estratégias de preservação de fertilidade porque estão convencidas que com maior ou menor dificuldade e com as técnicas existentes hoje em dia conseguirão ter filhos, mas depois percebem que, infelizmente, isso não é verdade. A segunda vertente, mais social, passa pela divulgação e aposta em mais campanhas de informação dirigidas à população, contribuindo para uma maior literacia da mulher e do casal.


JM | Quais as principais iniciativas presentes e futuras da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução?


PX | Para além de toda a componente científica, temos tido também uma preocupação social muito grande. No meu mandato já apoiámos duas campanhas, a que referi ligada à preservação da fertilidade, e outra relacionada com a questão da doação de ovócitos, alertando as pessoas para esta possibilidade e apelando à sua solidariedade. Depois, temos tido uma preocupação muito grande em fazer chegar os problemas da acessibilidade aos tratamentos de fertilidade, nomeadamente no Serviço Nacional de Saúde, à Tutela e à Comissão Parlamentar de Saúde. Nas reuniões que tivemos com o secretário de estado adjunto e da saúde, manifestamos a nossa preocupação com um problema crónico no nosso país, que são as longas listas de espera para acesso a tratamentos de procriação medicamente assistida. Apesar de tudo, considero que tem havido uma certa consciência de um problema que é de todos, da nossa sociedade, que está a envelhecer massivamente sem que nada seja feito, e que tem havido algumas iniciativas que nos fazem ter uma luzinha de esperança de que a área da procriação medicamente assistida possa um dia merecer uma atenção maior. Estivemos também representados num grupo de trabalho, constituído o ano passado precisamente para formular um documento que apresentou um conjunto de propostas de pessoas da área da medicina da reprodução. O documento foi entregue à Tutela e estamos com esperança de que esse dossier possa finalmente merecer a atenção dos governantes e que pelo menos algumas das propostas sejam atendidas.

Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?
Editorial | Denise Cunha Velho
Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?

Sou do tempo em que, na Zona Centro, não se conhecia a grelha de avaliação curricular, do exame final da especialidade. Cada Interno fazia o melhor que sabia e podia, com os conselhos dos seus orientadores e de internos de anos anteriores. Tive a sorte de ter uma orientadora muito dinâmica e que me deu espaço para desenvolver projectos e actividades que me mantiveram motivada, mas o verdadeiro foco sempre foi o de aprender a comunicar o melhor possível com as pessoas que nos procuram e a abordar correctamente os seus problemas. Se me perguntarem se gostaria de ter sabido melhor o que se esperava que fizesse durante os meus três anos de especialidade, responderei afirmativamente, contudo acho que temos vindo a caminhar para o outro extremo.