Vitória Cunha: HTA continua a ser a segunda causa de morte materna
DATA
04/07/2022 11:32:03
AUTOR
Jornal Médico
Vitória Cunha: HTA continua a ser a segunda causa de morte materna

“Cerca de 20% das mulheres que engravidam têm hipertensão arterial (HTA) estabelecida, uma situação que complica 15% dessas mesmas gravidezes”, alerta Vitória Cunha, secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Hipertensão. Em entrevista ao Jornal Médico, a especialista lembra que “a HTA continua a ser a segunda causa de morte materna e a ser responsável por cerca de um quarto dos internamentos na gravidez”.

Jornal Médico (JM) | A hipertensão arterial (HTA) continua a ser pandémica e a gravidez não é momento de exceção. As mulheres portuguesas quando pensam engravidar preocupam-se em medir a sua tensão arterial?


Vitória Cunha (VC) |
No acompanhamento da mulher grávia, quer o médico de família, quer o obstetra, realizam a medição da pressão arterial como parte da avaliação de rotina logo desde o início do seguimento da gravidez. Contudo, penso que a grande maioria das grávidas não está sensibilizada para esse facto. Ou seja, a medição da pressão arterial não é a sua principal preocupação, e muitas mulheres nem têm a verdadeira noção do impacto que esta medição tem ou pode ter, focando muito mais a atenção nas análises, no peso, e no bem-estar direto do bebé.


JM | Qual a percentagem de mulheres em idade fértil com HTA e qual a percentagem de gravidezes complicadas por esta patologia?


VC | Em Portugal não existem muitos dados relativamente recentes, mas sendo um país desenvolvido temo-nos colocado ao nível dos demais e as estatísticas que encontramos são mais globais. Sabe-se que a HTA complica cerca de 15% das gravidezes, sendo que cerca de 20% destas mulheres já sofriam de HTA prévia. A incidência de complicações hipertensivas por gravidez subestima, ainda assim, o número de mulheres afetadas por estas condições em idade fértil. A HTA continua a ser a segunda causa de morte materna e a ser responsável por cerca de um quarto dos internamentos na gravidez.


JM | Apesar de conhecidos os riscos, a HTA é uma das intercorrências clínicas mais frequentes na gravidez. Quais os riscos que acarreta para a saúde da mãe e do bebé?


VC | No que respeita às complicações imediatas para a mãe, estas podem ser cardiovasculares – com risco de enfarte agudo do miocárdio, edema agudo do pulmão, acidente vascular cerebral e cardiomiopatia peri-parto – ou obstétricas propriamente dias, como no caso do descolamento da placenta e hemorragia pós-parto. Para o bebé, as complicações podem acontecer na fase de feto, com restrição de crescimento intrauterino, morte intrauterina ou perinatal, ou prematuridade; ou na fase neonatal, com paralisia cerebral, enterocolite necrotizante e retinopatia da prematuridade. Existem igualmente complicações futuras, quer para a mãe quer para o bebé, nomeadamente com maior risco de HTA e de eventos cardio e cerebrovasculares, que ocorrem mais precocemente nas mulheres com patologia hipertensiva da gravidez, quando comparando com mulheres da mesma idade sem HTA ou complicações decorrentes da mesma na gravidez.

 

JM | Qual o papel do médico de família na deteção de HTA na mulher que quer engravidar?


VC | O médico de família é, sem dúvida, a primeira porta para este diagnóstico. O rastreio deve ser feito em particular nas mulheres com história familiar relevante, ou com complicações em gravidezes prévias, mas também nas mulheres com fatores de risco cardiovascular. A grande questão é que a maioria dos casos de pré-eclâmpsia ocorre em nulíparas saudáveis sem fatores de risco cardiovasculares óbvios, tornando a prevenção mais difícil na mulher jovem, em especial se não tiver seguimento em consulta de planeamento familiar no seu centro de saúde, por exemplo. Assim que houver o diagnóstico de HTA na gravidez, o médico de família deve fazer um seguimento mais apertado e referenciar para consulta especializada.

JM | E no caso das mulheres que já têm HTA antes de engravidar. Estas devem ser seguidas em consulta especializada?


VC | Não é que no centro de saúde não seja possível realizar o seguimento regular necessário, mas a mulher hipertensa grávida é uma mulher de risco e a consulta especializada hospitalar permite, por exemplo, o acesso à ecografia e à avaliação laboratorial mais organizados e facilitados/rotinados. Por isso, sim, o ideal é que sejam seguidas em consulta especializada.


JM | Quais os tipos de HTA que existem na grávida e quais as situações em que o cuidado médico deve ser redobrado e iniciada uma vigilância ativa?


VC | Quando o diagnóstico é feito antes da gravidez ou nas primeiras 20 semanas de gestação, esta é denominada de HTA pré-existente ou HTA crónica. Quando o diagnóstico é só feito após as 20 semanas de gestação, numa mulher com pressão arterial prévia normal, então designa-se de HTA gestacional. Qualquer uma destas situações pode ser complicada ou evoluir para pré-eclâmpsia. A pré-eclâmpsia acontece quando a HTA na grávida se faz acompanhar por pelo menos uma outra alteração ao nível da proteinúria, insuficiência renal, trombocitopenia, compromisso da função hepática, cefaleia ou alterações visuais (de novo, sem diagnóstico alternativo) ou edema agudo do pulmão. Quando a pressão arterial se encontra acima dos 160mmHg de sistólica e/ ou 110mmHg de diastólica, e este quadro se acompanha de dor epigástrica ou nos quadrantes direitos do abdómen, persistente e refratária à terapêutica, trata-se já de uma pré-eclâmpsia grave. Quando se complica com convulsões de novo, sem outra causa aparente, estamos perante uma eclâmpsia. Há ainda a síndrome de HELLP - hemólise, elevação das enzimas hepáticas e trombocitopenia -, que em cerca de 15% dos casos não tem HTA ou proteinúria associadas, e, em muitos casos, se acompanha de dor nos quadrantes direitos do abdómen com náuseas e vómitos. É evidente que em todas estas situações o cuidado médico deve ser redobrado, acompanhado de uma vigilância ativa.


JM | O que melhorou no âmbito do diagnóstico e tratamento da HTA na gravidez e o que ainda falta fazer ou melhorar?


VC | Penso que ao longo dos anos a sensibilização para o diagnóstico tem melhorado, bem como os rastreios e o acesso aos cuidados de saúde primários. Relativamente ao tratamento não se registou uma grande evolução, visto que os medicamentos disponíveis são essencialmente os mesmos nos últimos anos, tendo sido apenas abandonado o uso da hidralazina, por exemplo. Para melhorar o panorama desta patologia na gravidez, considero, essencialmente, que é necessário melhorar e apostar mais no rastreio, bem como melhorar a formação médica ao nível da abordagem destas situações (diagnóstico e tratamento).

Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?
Editorial | Denise Cunha Velho
Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?

Sou do tempo em que, na Zona Centro, não se conhecia a grelha de avaliação curricular, do exame final da especialidade. Cada Interno fazia o melhor que sabia e podia, com os conselhos dos seus orientadores e de internos de anos anteriores. Tive a sorte de ter uma orientadora muito dinâmica e que me deu espaço para desenvolver projectos e actividades que me mantiveram motivada, mas o verdadeiro foco sempre foi o de aprender a comunicar o melhor possível com as pessoas que nos procuram e a abordar correctamente os seus problemas. Se me perguntarem se gostaria de ter sabido melhor o que se esperava que fizesse durante os meus três anos de especialidade, responderei afirmativamente, contudo acho que temos vindo a caminhar para o outro extremo.