Fátima Palma: “Não existem ainda métodos contracetivos ideais”
DATA
05/07/2022 14:37:52
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Jornal Médico
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Fátima Palma: “Não existem ainda métodos contracetivos ideais”

Em entrevista ao Jornal Médico, Fátima Palma salienta que “o médico de família tem uma função importantíssima no empoderamento das mulheres e na sua sensibilização para uma escolha informada dos métodos contracetivos disponíveis”. A presidente da Sociedade Portuguesa de Contraceção (SPC) considera ainda que “temos muitos métodos de contraceção eficazes e seguros, mas ainda poucas opções ao nível da contraceção não hormonal”, desafiando a indústria farmacêutica a providenciar “mais alternativas nesta área”.

Jornal Médico (JM) | Ainda há mulheres que não procuram aconselhamento médico na altura de escolher o método contracetivo?


Fátima Palma (FP) | Penso que essa é uma situação cada vez é menos frequente, até porque há uma divulgação muito grande dos métodos contracetivos e da contraceção e um enorme empoderamento por parte das mulheres, o que faz com que estas queiram estar informadas na altura de fazer escolhas e que procurem o médico para esse efeito. Há, no entanto, um grupo de mulheres, que são as adolescentes, em que a não procura de aconselhamento médico acontece com mais frequência. Sabemos que ainda existem muitas adolescentes que usam o método que a amiga usa porque têm alguma vergonha ou receio em procurar os cuidados de saúde. Mas, de resto, vamos encontrando cada vez menos estas situações. Aliás, um estudo da SPC, realizado em 2015 em parceria com a Sociedade Portuguesa de Ginecologia, revelou que as fontes de informação sobre contraceção são predominantemente a internet para as mulheres mais jovens e os amigos e, para as mulheres mais velhas, os profissionais de saúde, mas, independentemente disso, quem aconselha o método de contraceção é maioritariamente o médico.

JM | Considera que as portuguesas estão bem informadas sobre os métodos de contraceção disponíveis e sobre qual o melhor para o seu caso?

FP | Sim, penso que as portuguesas estão informadas sobre os métodos contracetivos, mas não tenho a certeza de que estejam bem informadas.

JM | Qual o papel do médico de família nesse aconselhamento?

FP | O médico de família tem um papel crucial e sabemos, aliás, que estes profissionais são com quem as mulheres mais falam de contraceção. Além disso, em Portugal, felizmente, como sabemos, existem consultas de planeamento ao nível dos cuidados de saúde primários (CSP) e é também nos CSP que os métodos de contraceção estão disponíveis e de forma gratuita. Portanto, o médico de família tem uma função importantíssima no empoderamento das mulheres e na sua sensibilização para uma escolha informada dos métodos contracetivos disponíveis, de forma que possam utilizar o método escolhido de forma adequada e, desta forma, aumentar a adesão ao mesmo.

JM | De acordo com o estudo “NEST-C – Novidades Epidemiológicas Sobre Tendências em Contraceção”, divulgado em setembro de 2021, e que teve a orientação científica da SPC, a pílula contracetiva é o método mais usado pelas mulheres portuguesas (70%), seguida pelo dispositivo intrauterino. Porque é que a pílula continua a ser tão popular e o dispositivo intrauterino está associado a mulheres com mais idade?

FP | A pílula sempre foi o método mais utilizado pelas mulheres portuguesas. Desde que são feitos inquéritos que se percebeu que as portuguesas gostam muito da pílula e são muito boas utilizadoras da pílula. Alias, nós somos o país do mundo que mais utiliza a pílula e penso que isso acontece porque é um método que esteve sempre disponível nos centros de saúde de forma gratuita. É evidente que os dispositivos intrauterinos também estão disponíveis, mas acontece que os primeiros dispositivos que surgiram eram de cobre e tiveram muitos mitos e receios associados à sua utilização, considerando muitas mulheres que estes eram um corpo estranho. Esta é uma das principais razões por que as portuguesas continuam a preferir a pílula e o dispositivo é utilizado por aquelas mulheres mais velhas, que já não querem engravidar, e que querem outra segurança, outra eficácia e, principalmente, não estarem dependentes da utilização de um método diário.

JM | O NEST-C indica que há uma maior consciencialização do risco tromboembólico da pílula. Essa preocupação é recente ou já existia antes da pandemia Covid-19?

FP | Há muito poucos estudos que avaliam os riscos dos métodos contracetivos e essa foi precisamente uma das características inovadoras desse inquérito, o NEST-C, pois além de perguntarmos qual o método contracetivo que mais utilizavam, também perguntamos se achavam que existiam alguns riscos associados à toma da pílula. E, na verdade, essa foi uma preocupação demonstrada pelas mulheres portuguesas, penso que relacionada exatamente com a divulgação por parte da comunicação social dos eventos tromboembólicos associados a algumas vacinas contra a Covid-19 e a comparação feita com o risco tromboembólico da pílula. A consciência deste risco existe principalmente
entre as mulheres dos países do Norte da Europa. De qualquer forma, e embora seja um risco muito raro, neste momento, as mulheres portuguesas também o valorizam.

JM | O mesmo estudo revela também novas preocupações das mulheres em relação à sua contraceção, sobretudo do ponto de vista do seu impacto no ecossistema. Neste âmbito, verificou-se que mais de metade das mulheres (61%) irá provavelmente pedir ao seu médico para prescrever uma pílula com um menor efeito nos ecossistemas naturais. Como comenta esse resultado?

FP | Percebemos que os metabolitos que provêm das pílulas progestativas podem provocar alterações nos peixes fêmeas de alguns sistemas fluviais dos rios e oceanos. De facto, atualmente, as pessoas estão muito atentas e despertas para a importância da manutenção dos nossos ecossistemas, da manutenção da saúde do planeta Terra. E, realmente, como resposta a essa necessidade, surgiu recentemente uma nova pílula no mercado, com um composto livre desses metabolitos, uma pílula mais green. Penso que será muito atrativa para a maioria das mulheres que tem esta consciência ambiental.

JM | Quais os receios/mitos mais frequentemente associados aos vários métodos de contraceção?


FP |
Em relação à pílula, atualmente, o risco tromboembólico é o que mais receiam. Já o grande mito está relacionado com medo desta engordar e também que afete a sua fertilidade. Mais recentemente, existe o receio relacionado com o facto de estarem a utilizar hormonas e pensarem que isso pode ser maléfico para o seu organismo. E é neste sentido que temos de contrabalançar, apostar no aumento da informação e da sua divulgação, pois na realidade, como se sabe, o risco tromboembólico é muito raro, afetando cinco em cada 10 mil mulheres. É, aliás, um risco muito inferior aquele que acontece numa gravidez - e nós não aconselhamos as mulheres a não engravidar - e também cerca de vinte vezes inferior ao risco que uma mulher tem de ter um fenómeno tromboembólico após ter o seu bebé. De uma forma geral, a pílula, nomeadamente a contraceção hormonal e contraceção hormonal combinada, tem alguns riscos (embora muito poucos), mas tem igualmente muitos benefícios que é importante lembrar, nomeadamente a sua ação protetora e diminuição do risco do cancro do ovário, do cancro do endométrio ou do cancro colorretal. Ou seja, as mulheres que tomam a pílula têm menos mortalidade associada a estes cancros, uma informação importante mas que não é veiculada no dia-a-dia. Sabe-se, inclusive que, a nível mundial, um terço das mulheres que utilizam a pílula não é com efeito de evitar uma gravidez, mas sim pelos benefícios extra na pele, no controlo do pelo, do ciclo, para controlar todas estas manifestações da sua parte hormonal. Já em relação aos dispositivos intrauterinos, existe muito o receio associado ao “corpo estranho” e o mito de achar que uma mulher que nunca teve filhos não pode colocar o dispositivo. A verdade é que hoje em dia existem dispositivos de tamanhos diferentes, com características diferentes, e que inclusive têm outros benefícios, nomeadamente porque controlam a hemorragia menstrual, diminuindo as situações de anemia, e melhorando a qualidade de vida.

JM | Quais as mais recentes evoluções terapêuticas no campo da contraceção feminina?

FP | Apesar de ter havido uma evolução estrondosa no campo da contraceção, não existem ainda métodos contracetivos ideais. O que temos agora recente, em termos de evolução terapêutica, é um contracetivo oral combinado, com estrogénio e progesterona, em que o estrogénio apresenta algumas caraterísticas diferentes, nomeadamente o facto de estar isento dos tais produtos residuais que vão contaminar mares e rios, e, por outro lado, não atuar na mama ao contrário dos outros estrogénios. Nos últimos anos, temos igualmente alguns dispositivos que libertam hormonas, que são mais pequenos, sendo mais adequados, por exemplo, para mulheres que nunca tiveram filhos. Além disso, atualmente são mais fáceis de colocar, uma vez que a sua cânula de inserção é mais pequena. De qualquer forma, penso que neste momento temos muitos métodos de contraceção eficazes e seguros, mas ainda poucas opções ao nível da contraceção não hormonal. Por isso considero que tem de haver, por parte da indústria farmacêutica, uma maior investigação no sentido de conseguir providenciar mais alternativas nesta área. Esperemos que sim.

JM | Quais as principais iniciativas presentes e futuras da Sociedade Portuguesa de Contraceção?

FP | O nosso alvo é divulgar informação sobre saúde sexual e reprodutiva junto da comunidade científica, através da realização de formações, reuniões científicas ou publicações de linhas de orientação em temas específicos, como o pós-parto ou decisão de interrupção de gravidez. Mas, ultimamente, e de forma a providenciar informação clara, correta e adequada à população, decidimos, para além de toda as ações programadas para a comunidade científica, criar uma plataforma com informação e podcasts sobre estes temas também para a sociedade civil. Além disso, estamos também agora a iniciar a nossa presença nas redes sociais, porque sabemos que são atualmente uma fonte de informação muito importante para as mulheres.

 

 

Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?
Editorial | Denise Cunha Velho
Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?

Sou do tempo em que, na Zona Centro, não se conhecia a grelha de avaliação curricular, do exame final da especialidade. Cada Interno fazia o melhor que sabia e podia, com os conselhos dos seus orientadores e de internos de anos anteriores. Tive a sorte de ter uma orientadora muito dinâmica e que me deu espaço para desenvolver projectos e actividades que me mantiveram motivada, mas o verdadeiro foco sempre foi o de aprender a comunicar o melhor possível com as pessoas que nos procuram e a abordar correctamente os seus problemas. Se me perguntarem se gostaria de ter sabido melhor o que se esperava que fizesse durante os meus três anos de especialidade, responderei afirmativamente, contudo acho que temos vindo a caminhar para o outro extremo.