Teresa Tomé: “ThinkTank – Inspirar à Mudança” alerta para as infeções causadas pelo vírus sincicial respiratório
DATA
18/07/2022 09:13:51
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Jornal Médico
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Teresa Tomé: “ThinkTank – Inspirar à Mudança” alerta para as infeções causadas pelo vírus sincicial respiratório

As bronquiolites e pneumonias são algumas das infeções respiratórias particularmente comuns em crianças, sendo a maioria destas infeções causadas pelo vírus sincicial respiratório (RSV). Com graves implicações na saúde, “a infeção respiratória do trato inferior, é uma das principais causas de morbilidade nas crianças nos primeiros 5 anos de vida”, refere Teresa Tomé, neonatalogista, ex-coordenadora da neonatologia do Centro Hospitalar Lisboa Central e um dos membros da iniciativa “ThinkTank – inspirar à mudança”. Leia a entrevista na íntegra.  

Jornal Médico (JM) | O “RSV ThinkTank – Inspirar à Mudança” afirma-se como um “projeto de investigação multidisciplinar que pretende contribuir de forma decisiva e construtiva para aprofundar o grau de conhecimento da realidade associada ao RSV (vírus sincicial respiratório)”, em Portugal. A primeira sessão Think Tank realizou-se no dia 26 de maio. Que balanço faz dessa sessão de trabalhos e quais as principais ideias em cima da mesa?

Teresa Tomé (TT) | Considero que a sessão foi bastante positiva, pois, juntou na mesma mesa de discussão técnicos de vários setores: pneumologia pediátrica,   economia da saúde e saúde pública. Médicos que lidam diretamente com o problema e com a clínica, e que já fizeram algumas reflexões sobre este assunto em alguns estudos de ordem epidemiológica, ou de investigação clínica. Juntou, dentro da área da saúde, pessoas relacionadas com a rede de vigilância nacional do Instituto Ricardo Jorge, e com a codificação, isto é, com a classificação destas doenças em termos de registos clínicos, e ainda teve a particularidade de juntar uma associação representante de pais, que são quem “sofre” o maior impacto psicossocial e os custos indiretos das infeções das crianças, nos primeiros anos de vida, com multiplicidade de internamentos, com absentismo escolar, etc. Foi um painel bastante alargado que produziu alguma reflexão sobre este assunto e vai continuar.

JM | A nível nacional, que lacunas identificam na gestão da infeção por RSV e que medidas poderiam preparar o país para uma mudança no paradigma, no sentido de otimizar a prevenção e a abordagem aos doentes com RSV?

TT | A infeção respiratória do trato inferior, é uma das principais causas de morbilidade nas crianças nos primeiros 5 anos de vida, em particular no primeiro ano. 

Num estudo realizado recentemente, analisando a situação em Portugal e Espanha, constatou-se que, em Portugal, encontraram-se 26.062 casos de hospitalização potencialmente devidas por RSV, em 3 épocas de análise 2015-2018, de setembro a junho, nestes a média estimada de hospitalizações por infeção por RSV,  foi de 51,3 /1000 no 1º ano e de 13 /1000 no 2º ano. A duração média da hospitalização foi de 5,7 dias. Em 1,4% das crianças houve necessidade de suporte respiratório invasivo e em 5,8% de suporte não invasivo.

Assim, é evidente que a infeção está associada a uma maior hospitalização e maior consumo de recursos. 

JM | Em particular, como vê a articulação de cuidados prestados às crianças que sofrem de bronquiolites e pneumonias, em Portugal?

TT | Tendo em conta que o RSV tem uma prevalência sazonal, há uma grande acumulação de casos no período do outono/inverno o que dificulta uma resposta célere nos serviços, até porque não lidamos apenas com esta patologia. 

Há outras patologias concomitantes que aumentam a procura dos serviços de urgência e, nalguns casos, como referimos, a necessidade de internamento, o que pode levar à sobrecarga e dificuldades de gerir o acesso. 

JM | Qual o impacto da infeção por RSV – sintomas e consequências para a saúde – especificamente no doente pediátrico?

TT | Isto é um aspeto que se discute. Nós não fazemos diagnóstico etiológico, não vamos saber exatamente qual a causa da infeção respiratória porque não se faz a todas as crianças a deteção do RSV no serviço de urgência. Não se faz a todos um painel de testagem  para identificar o vírus em causa. Em geral, faz-se esse painel de testagem quando as crianças são internadas. Neste sentido, a infeção por RSV pode estar muito subestimada. No estudo que foi feito até se pode ter procurado fazer uma correlação, entre aquilo que é classificado na codificação das doenças e a presumível infeção de RSV. Nem todas as crianças são diagnosticadas, isso é verdade. Há, de facto, essa lacuna. O impacto que tem, é um impacto a curto prazo. Há situações mais graves que exigem fazer oxigénio, em raros casos, ventilação não invasiva, ou invasiva com a consequência de morbilidade, muitas vezes com internamento, algumas vezes não. A longo prazo também sabemos que uma infeção por RSV, pode ter algumas consequências sobretudo nas populações particularmente vulneráveis. Pode haver alguma lesão pulmonar que condiciona maior suscetibilidade de infeção e maior prevalência de sibilância, o que pode ser um equivalente da asma. Não podemos só pensar a curto prazo, temos de medir e avaliar a médio e longo prazo as possíveis consequências.

JM | Além do impacto e potencial gravidade para a saúde das crianças, é também motivo de preocupação o impacto do RSV nos pais e cuidadores (absentismo laboral) e na sociedade? Nos picos de infeção, que peso tem o RSV nos Serviços de Saúde?

TT | Nos períodos de infeção pode haver um overbooking nos serviços de saúde, e, de facto, tem havido períodos em que isso vem muito para a comunicação social, como a diminuição de camas para o internamento porque, de facto, ocorrem num período de tempo curto. Os serviços chegam a estar com uma grande parte da capacidade esgotada por este tipo de patologia. Estes últimos anos que vivemos foram um pouco atípicos. Curiosamente, aqui e noutros países da zona mediterrânica verificou-se uma grande diminuição de infeções por RSV e o SARS-CoV-2 veio ocupar o lugar do RSV em muitos locais, e, portanto, diminuiu muito a sua prevalência. Já se tem vindo a verificar que não foi exatamente assim, visto que já tivemos RSV numa altura do ano em que não era usual ter. 

Neste período pandémico provocado pela COVID-19, assistiu-se a uma diminuição do vírus sincicial respiratório que, posteriormente, começou a ocorrer fora do período habitual, sobretudo, nas populações mais vulneráveis. Uma das coisas que nós dispomos e temos feito, em determinadas populações, foi utilizado um anticorpo monoclonal,  uma vez que outras medidas preventivas ainda estão em investigação. Esta estratégia é apenas aplicável a uma população muito específica, por exemplo, em prematuros ou crianças com doença crónica, cardíaca ou pulmonar. Também há uma certa polémica acerca da idade gestacional a partir da qual é lícito fazê-lo, porque o anticorpo monoclonal que nós dispomos até agora exige administrações repetidas de pelo menos 5 a 6 doses e tem um custo demasiado elevado, o que torna inviável fazer uma profilaxia universal para todas as crianças. 

Neste momento, a grande novidade que se pode antever a um curto prazo é podermos dispor de um anticorpo monoclonal que se possa usar de forma bastante generalizada, e ao que parece, os estudos mostram com uma grande eficácia, maior facilidade de utilização e com custos mais reduzidos. Acho que vai haver uma nova forma de encarar o assunto.

JM | O que dizem os dados epidemiológicos em Portugal sobre o RSV?

TT | Houve um estudo que demonstrou exatamente esta prevalência que nós sabemos que é a principal causa de infeção respiratória baixa nas crianças com menos de 2 anos de hospitalização por patologia respiratória, em Portugal. Entre nós, acaba por ser sobreponível àquilo que se conhece da realidade a nível geral. Não temos grandes diferenças. É a causa mais importante de doença respiratória e de morbilidade nas crianças, associa-se a doença respiratória grave, a hospitalização e mortalidade e tem um grande impacto económico. Portanto, antes dos 2 anos, manifestamente é a principal causa de infeção respiratória. Depois, tem uma coisa interessante que acaba por agravar um pouco esta problemática. Em algumas infeções víricas que conhecemos, ter a infeção confere imunidade, as pessoas ficam mais ou menos protegidas da reinfeção, e, com o  RSV isso não acontece, pode, e é até frequente, existir  reinfeção.

JM | O risco de coinfecção é motivo para reforçar a necessidade das medidas higiénicas de prevenção? Qual a mensagem adequada a passar aos pais e que instruções/medidas comportamentais/higiénicas devem ser transmitidas pelos profissionais de saúde?

TT | Nós devemos reforçar as medidas de precaução básicas sobretudo em período de maior prevalência, nestes tempos que começam de outubro a março. As medidas são as que se tornaram generalizadas na população e que percebemos que tiveram impacto. Higiene das mãos, do ambiente, uso de máscara, pessoas que estão doentes devem evitar contactos. Nas populações de risco há um problema delicado que tem a ver com a exposição ao infantário. Os bebés que têm irmãos com idade de infantário estão particularmente expostos. Normalmente, aconselhamos que se um prematuro vai ter alta, durante um período de pico sazonal, o ideal seria não ir para um infantário imediatamente. Muitas vezes ainda estão na licença de maternidade das mães. Pode haver um certo desfasamento da licença de maternidade de acabar em outubro e depois tem logo de ir para o infantário em período de pico sazonal, onde a exposição é muito maior porque vai coabitar com muitas crianças abaixo dos 2 anos que são potenciais expostos a este tipo de infeções e potenciais transmissores. É um problema socioeconómico e laboral. Muitas vezes, as pessoas não podem faltar, têm de pôr as crianças no infantário. É uma coisa que se tem de gerir.

JM | Em suma, por que razões devem os profissionais de saúde, os gestores em Saúde e políticos estar atentos aos pontos de discussão da iniciativa “RSV ThinkTank – Inspirar à Mudança”?

TT | Considero que serão discutidos argumentos bastante válidos e de extrema importância a nível nacional quer do ponto de vista clínico económico, quer do ponto de vista psicossocial. As infeções respiratórias por RSV são um tema de Saúde Pública preocupante, com elevado impacto nas famílias e na sociedade e de acordo com a OMS todos os países devem organizar-se e começar a delinear um plano estratégico futuro de prevenção contra esta patologia. Teremos que, em conjunto, e de uma forma multidisciplinar, encontrar a melhor estratégia para fazer face ao impacto económico nomeadamente ao  absentismo laboral, e aos custos em saúde pela elevada taxa de   hospitalizações, e pela necessidade de atender à assistência médica em potenciais reinfeções ou morbilidade condicionada pela infeção sincicial. O RSV tem um impacto significativo do ponto de vista direto e indireto. Do ponto de vista psicossocial, não menos importante, aumenta, de facto, a probabilidade das crianças ficarem doentes e necessitarem de uma maior prestação de cuidados médicos e familiares. Porém, evitarem a sua socialização na escola e serem inseridos no hospital, acaba por não ser ideal para as crianças nos primeiros dois anos. Há que estar atento ao desenvolvimento de novas medidas preventivas mais eficazes e efetivas e que possam ser utilizadas futuramente como medidas de prevenção contra o RSV, para todas as crianças.  

 

MAT-PT-2200706 – 1.0 – 07/2022

Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?
Editorial | Denise Cunha Velho
Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?

Sou do tempo em que, na Zona Centro, não se conhecia a grelha de avaliação curricular, do exame final da especialidade. Cada Interno fazia o melhor que sabia e podia, com os conselhos dos seus orientadores e de internos de anos anteriores. Tive a sorte de ter uma orientadora muito dinâmica e que me deu espaço para desenvolver projectos e actividades que me mantiveram motivada, mas o verdadeiro foco sempre foi o de aprender a comunicar o melhor possível com as pessoas que nos procuram e a abordar correctamente os seus problemas. Se me perguntarem se gostaria de ter sabido melhor o que se esperava que fizesse durante os meus três anos de especialidade, responderei afirmativamente, contudo acho que temos vindo a caminhar para o outro extremo.