Teresa Herdeiro: “A comunicação é um fator crucial para os médicos transmitirem a importância de alteração de atitudes e comportamentos aos seus doentes”
DATA
05/09/2022 10:41:55
AUTOR
Jornal Médico
Teresa Herdeiro: “A comunicação é um fator crucial para os médicos transmitirem a importância de alteração de atitudes e comportamentos aos seus doentes”

A propósito da elevada adesão da população portuguesa à vacinação contra a COVID-19, um estudo a cargo de investigadores da Univrsidade de Aveiro (UA), identificou uma correlação entre a preocupação quanto à segurança e eficácia das vacinas e o ceticismo em relação à vacinação contra a COVID- 19, transversal aos três grupos estudados, incluindo profissionais de saúde. “Quando este estudo foi realizado, a vacinação tinha sido iniciada há cerca de três meses, a informação era escassa e a preocupação por parte dos participantes era elevada, quer entre os profissionais de saúde, quer entre os professores e os idosos”, refere Teresa Herdeiro, professora no Departamento de Ciências Médicas e Investigadora do Instituto de Biomedicina – iBiMed, na Universidade de Aveiro, e coordenadora deste estudo. Leia a entrevista na integra.

Jornal Médico (JM) | Como surgiu a oportunidade para coordenar este estudo? E qual a motivação para o mesmo?

Teresa Herdeiro (TH) | A oportunidade para coordenar este estudo surgiu de um concurso publicado pela fundação la Caixa “Call from the Social Observatory of ”la Caixa” to support survey-based research projects on the social impact of COVID-19”, em 2020. A equipa de investigação que coordeno no iBiMED, em colaboração com investigadores de outras instituições nacionais (Instituto Politécnico da Guarda e Centro Hospitalar Universitário do Porto) e internacionais (Universidade de Santiago de Compostela) com quem trabalhamos há vários anos, considerou pertinente submeter este projeto. O concurso pareceu-nos muito interessante por se focar numa área de enorme relevância na atualidade, com impacto ímpar na saúde comunitária e na vida de cada pessoa. Além disso, a ausência de evidência sobre o tema em estudo tornava este projeto ainda mais desafiante. A nossa equipa de investigação tem já uma vasta experiência, com inúmeros artigos científicos publicados sobre a avaliação de atitudes, conhecimentos e perceções nos profissionais de saúde e na população em relação a vários temas de enorme relevância na saúde pública, pelo que, este foi para nós mais um interessante projeto sobretudo pela atualidade do mesmo. A motivação é sempre a mesma, contribuir com mais e melhor conhecimento, para que este possa ser utilizado em benefício da comunidade.

JM | Na sua opinião, como tem sido conciliar o exercício de uma profissão baseada na evidência científica perante a hesitação vacinal?

TH | Esta é uma questão muito interessante, porque parecendo simples é muito complexa. Além da evidência científica, existe de facto um mundo de outras variáveis que tem peso na decisão de cada um de nós. Penso que o mais importante é que cada um tenha informação rigorosa, clara, objetiva, atual e baseada na evidência científica para decidir. No entanto, como é o caso da COVID-19, a evidência científica disponível era escassa e, também por esse motivo, muitas vezes precisamos de algum suporte na tomada de decisão, que se pode obter através das autoridades de saúde, dos profissionais de saúde, entre outros ou seja, daqueles em quem de alguma forma confiamos. A comunicação social, assim como a informação divulgada pelas redes sociais, tem também aqui um papel muito importante, pelo que é fundamental a preocupação no rigor da informação que é divulgada.

JM | Segundo o seu estudo, “a hesitação perante as vacinas estava principalmente relacionada com a incerteza sobre a sua eficácia e possíveis efeitos adversos, principalmente entre professores e profissionais de saúde (cerca de 50%)”. Qual a importância destes achados para a saúde pública do nosso país e o que refletem? Nomeadamente ao que diz respeito às respostas dos próprios profissionais de saúde.

TH | Em relação a esta questão, é importante termos em conta que se iniciou no final de dezembro de 2020 a administração das primeiras vacinas contra a COVID-19 em Portugal, e que este estudo foi realizado entre 21 de abril e 10 de maio de 2021. A recolha de dados decorreu numa fase muito precoce do processo de vacinação em que existiam ainda muitas dúvidas por parte da população sobre eventuais efeitos adversos da vacina. Essas dúvidas, partilhadas pelos profissionais de saúde e pela população em geral, emergiram, não apenas, mas também, da referência constante ao tempo (porque curto) que demorou o processo de desenvolvimento e aprovação comparativamente com outros medicamentos, associado à utilização de uma nova tecnologia farmacêutica no desenvolvimento e produção de vacinas. Estes resultados ajudam a refletir sobre a importância de trazer para o público informação objetiva e credível, sem especulação de forma que as pessoas compreendam o objetivo e a importância das medidas que são tomadas em saúde pública, principalmente em situações de emergência, para proteger a saúde das populações. Possivelmente neste momento as respostas seriam diferentes.

JM | Que comparação é possível fazer entre o ceticismo e a hesitação vacinal registados em Portugal com panorama verificado em outros países?

TH | Em relação a Portugal o balanço da cobertura vacinal em geral e da vacinação contra a COVID-19 é muito positivo, sendo no último caso de 95%, muito acima dos valores alcançados pelos restantes países europeus. Apesar deste resultado não permitir concluir sobre o panorama global da hesitação vacinal, é um surrogado útil para perceber que as dúvidas que a sociedade portuguesa evidenciava não afetaram substancialmente a sua adesão à campanha de vacinação.

JM | Do ponto de vista de quem faz ciência, que tipo intervenções poderiam ser implementadas para reduzir o ceticismo e hesitação vacinal na população, incluindo nos profissionais de saúde?

TH | Penso que o rigor, a objetividade, a clareza na informação transmitida à população deve ser sempre o objetivo principal das intervenções na comunidade. Normalmente, através de mensagens simples e claras que são transmitidas por indivíduos/instituições consideradas credíveis pela comunidade. Neste caso da pandemia por COVID-19, apesar do esforço que foi feito pelas autoridades de saúde, o conhecimento, a informação disponível, foram sendo construídos ao longo do tempo, porque a própria evidência científica estava em atualização (e até reformulação) quase “diariamente”, sobretudo na fase inicial, daí que não tenha sido fácil por vezes a comunicação com a população.

JM | “Mais de 75% dos participantes consideraram as autoridades competentes como uma fonte de informação fiável relativamente à vacinação contra a COVID-19”. Perante utentes/doentes hesitantes, como podem os médicos de família proceder na consulta para afastar a hesitação vacinal?

TH | Penso que é uma informação importante para as autoridades de saúde competentes e que vem reforçar a relevância que tem a informação que transmitem à população e a preocupação que devem ter na forma de comunicar a sua mensagem. Os resultados mostraram que os participantes no estudo que confiavam na informação disponibilizada pelas autoridades de saúde eram menos hesitantes em relação à vacinação. A comunicação é um fator crucial para os médicos transmitirem a importância de alteração de atitudes e comportamentos aos seus doentes, e o mesmo se aplica à questão da profilaxia de doenças através da vacinação.

JM | Este estudo terá algum seguimento dentro dos projetos da UA? E em que outros projetos na área da farmacoepidemiologia, farmacovigilância e saúde pública está atualmente envolvida ou gostariam de realizar?

TH | Este projeto foi realizado com um grande esforço, mas também com elevada motivação, pela equipa de investigação, porque além de a verba atribuída ser pequena, não tinha verba para contratação de recursos humanos. No entanto, foi um projeto que teve uma elevada disseminação, quer na publicação de artigos de opinião, quer de artigos indexados (3), assim como através de várias comunicações em congressos, provavelmente também pela atualidade do tema. Este estudo está a ter seguimento em outros projetos que estamos a desenvolver com um grupo de investigação da faculdade de Medicina da Universidade de Santiago de Compostela que também colaborou neste estudo. Além deste projeto, colaboro atualmente em vários outros projetos na área da Farmacoepidemiologia e da Farmacovigilância, tal como projetos financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), Instituto de Salud Carlos III (FIS), European Cooperation in Science and Technology (COST action) e com sociedades cientificas como a International Society for Pharmacoepidemiology (ISPE), sempre com o objetivo final de contribuir para a melhoria dos cuidados em saúde que são prestados à população.

Gostaria de continuar a trabalhar na área da Saúde Pública, como tenho feito nos últimos 20 anos, sobretudo na área da Farmacoepidemiologia e  Farmacovigilância, sendo que continuarei a trabalhar na Farmacovigilância nos próximos anos quer a nível nacional, através das inúmeras formações que coordeno, dos vários trabalhos de mestrado e doutoramento que oriento, quer dando o meu contributo a nível internacional, tendo sido nomeada como um dos seis peritos pela Comissão Europeia como membro do Comité de Avaliação do Risco em Farmacovigilância (PRAC) da Agência Europeia do Medicamento em 2021 e este ano como membro da Camara Técnica de Farmacovigilância da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Brasil.

 

 

O estudo, realizado entre 21 de abril e 10 de maio de 2021, incluiu um questionário online a 1.062 professores (educação pré-escolar, ensinos básico, secundário e superior) e a 890 profissionais de saúde (médicos, farmacêuticos, enfermeiros e dentistas), bem como um questionário por entrevista telefónica assistida por computador a 602 idosos não institucionalizados.

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
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É quase esquizofrénico no mesmo mês em que se discute a carência de Médicos de Família no SNS empurrar, por decreto, os doentes que recorrem aos Serviços de Urgência (SU) hospitalares para os Centros de Saúde. A resolução do problema das urgências em Portugal passa necessariamente pelo repensar do sistema, do acesso e de formas inteligentes e eficientes de garantir os cuidados na medida e tempo de quem deles necessita. Os Cuidados de Saúde Primários têm aqui, naturalmente, um papel fundamental.