Rui Araújo: Viva esperança numa terapêutica modificadora
DATA
19/09/2022 09:59:05
AUTOR
Jornal Médico
Rui Araújo: Viva esperança numa terapêutica modificadora

O vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN) tem o mestrado em Medicina pela Universidade do Porto. Desde 2018 é assistente hospitalar de Neurologia – em consultas de doenças neurodegenerativas – no Centro Hospitalar Universitário de São João, e assistente na unidade curricular de Doenças Neurológicas na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

O internato em Neurologia, no Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, constituiu a primeira etapa de um percurso dedicado especialmente às doenças neurodegenerativas. Ao convite do Prof. Bastiaan Bloem, diretor do Center of Expertise in Parkinson’s Disease & Movement Disorders da Radboud University Medical Center, em Nijmegen, nos Países Baixos, para a realização de um estágio observacional, Rui Araújo respondeu afirmativamente, seguindo-se o doutoramento, que concluiu em 2022.

Jornal Médico (JM) | Que retrato se revela, no País e no mundo, quando falamos genericamente de demências e, especificamente, das principais patologias que entram nesta equação?

Rui Araújo (RA) | O que ressalta, numa primeira leitura, é o número crescente de pessoas com demência. Em segundo lugar, também em claro sentido ascendente, destacaria o número de pessoas com queixas cognitivas que recorre aos Cuidados de Saúde Primários, a dificuldade inerente ao diagnóstico diferencial de perturbações cognitivas e a identificação de indivíduos que justificam referenciação hospitalar. Por último, devo assinalar a atenção que a comunidade científica vem dedicando às demências, com inovações importantes em termos diagnósticos e possibilidades terapêuticas. Continuamos a acreditar que, num futuro não muito longínquo, poderemos dispor de fármacos inovadores para o tratamento das demências, em particular a Doença de Alzheimer.

JM | Como avalia a evolução das políticas públicas, em Portugal, na resposta às inúmeras questões que emergem das demências, envolvendo áreas da maior pertinência como o apoio à investigação?

RA | Neste aspeto, eu creio que os problemas, quer no âmbito da SPN quer na sociedade civil, encontram-se já identificados. Teremos de garantir que o acesso dos doentes aos cuidados de saúde é eficiente, universal e equitativo. Além disso, importa que o diagnóstico diferencial seja exato e a triagem eficiente. No âmbito hospitalar, teremos de ser capazes de absorver um número crescente de doentes. As necessidades no que diz respeito ao número de neurologistas aumentam a cada ano, porque o número de doentes elegíveis para tratamento aumenta também. O AVC agudo, que felizmente dispõe de cada vez mais tratamentos e opções para um universo de doentes cada vez maior, é um bom exemplo da necessidade crescente de neurologistas nos serviços de saúde. As pessoas encontram-se igualmente mais informadas, sendo mais exigentes em relação à sua própria saúde, procurando com frequência opinião de neurologistas. Este movimento é visível em diferentes geografias, com surpresas, por exemplo, vindas de África, onde as preocupações se começam a voltar para as doenças neurodegenerativas de acordo com que é reportado por colegas africanos em congressos médicos e científicos.

JM | Dos estudos, dos casos clínicos, dos artigos científicos mais atuais, no quadro concreto das demências, que trabalhos considera merecedores de destaque em razão das respetivas conclusões?

RA | Antes de mais, convirá precisar que as diferenças que separam os diversos países têm mais a ver com a natureza específica dos respetivos sistemas de saúde. De caminho, voltaria ao tema da investigação para reiterar que ela está agora muito centrada no diagnóstico precoce, com a doença de Alzheimer a destacar-se das restantes demências por ser uma patologia hoje melhor caracterizada do ponto de vista biológico – a partir de alguns exames, como a tomografia de positrões [PET] ou análises do líquido cefalorraquidiano [LCR], pode ser possível identificar biomarcadores da Doença de Alzheimer.

Em paralelo, a indústria continua a investir no desenvolvimento de fármacos que nos permitam, finalmente, modificar essa trajetória. Este verbo [modificar] não está aqui por acaso, uma vez que as melhores expectativas estão voltadas para o surgimento de um primeiro fármaco modificador das demências. Da pluralidade de estudos e artigos científicos publicados, saliento um trabalho divulgado em 2020 pela revista The Lancet [Livingston G, Huntley J, Sommerlad A, Ames D, Ballard C, Banerjee S, et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of The Lancet Commission].

Trata-se de uma ccoletânea, uma revisão de fatores de risco modificáveis. É o caso da escolaridade: quanto mais alta for e mais ativo o indivíduo se mantiver, mais protegido, à partida, estará de vir a desenvolver demência. Considerando, aqui também, a conjugação com o fator etário, importa olhar para a questão numa lógica de saúde pública e de política de saúde. E se observamos longitudinalmente o ciclo da vida, será conveniente saber quando e onde é que se deve atuar, centrando desde logo as atenções nas faixas etárias mais novas, junto de quem fará todo o sentido apostar em maior escolaridade, ou incentivar a prática desportiva, enquanto nas faixas etárias mais eleva[1]das a prioridade aponta para programas de rastreio ligados à hipertensão, à diabetes, ou ao défice de audição, todos eles fatores de risco potencialmente modificáveis.

JM | Desde a referenciação para a consulta de doenças neurodegenerativas, até à abordagem terapêutica e ao seguimento de quem vive e convive com a demência, que leitura faz do modo como tem evoluído a articulação entre a Medicina Geral e Familiar e a Neurologia?

RA | Esse diálogo tem evoluído. Há uma grande vontade tanto da nossa parte, em termos hospitalares, como dos colegas de Medicina Geral e Familiar em nos reunirmos e aprofundarmos o essencial destas questões. É justo recordar que existem alguns projetos interessantes, entretanto suspensos por força da pandemia, mas os contactos que já tivemos previamente fazem supor que a disponibilidade para agilizar a comunicação entre as duas especialidades existe e, mais do que isso, são notórias as condições para trabalhar mais e melhor com esse propósito.

JM | Na esfera das vossas competências institucionais, que iniciativas têm traduzido a missão da SPN junto da comunidade médica e científica, dos doentes e cuidadores (formais e informais) e da população em geral?

RA | Ao assumirmos este mandato, procurámos que o site da SPN não fosse um espaço hermético, só para os seus membros, só para os neurologistas. E assim surgiu um ícone, designado Espaço Cida[1]dão, envolvendo a colaboração de vários colegas na preparação de conteúdos clínicos – breves, simples e acessíveis –, respondendo, assim, a um pedido frequente dos doentes: o acesso fácil a uma fonte fidedigna de informação, uma vez que as consultas são curtas e as pessoas, naturalmente por isso, levam para casa algumas dúvidas que gostariam de ver clarificadas. Por outro lado, em parceria com a indústria, lançámos, igualmente no site, a rubrica Sinopse, acessível via Zoom, que nos permitiu, durante o período mais crítico da pandemia, ter neurologistas a falar sobre coisas tão simples como o que é uma vertigem, como se manifesta, o porquê de uma tontura… Além disso e na mesma linha, a própria SPN, mais uma vez com o apoio da indústria, dinamizou um curso de atualização de biomarcadores que, principalmente dirigido aos nossos sócios, também se posicionou como janela de oportunidade formativa para outras especialidades.

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve

É quase esquizofrénico no mesmo mês em que se discute a carência de Médicos de Família no SNS empurrar, por decreto, os doentes que recorrem aos Serviços de Urgência (SU) hospitalares para os Centros de Saúde. A resolução do problema das urgências em Portugal passa necessariamente pelo repensar do sistema, do acesso e de formas inteligentes e eficientes de garantir os cuidados na medida e tempo de quem deles necessita. Os Cuidados de Saúde Primários têm aqui, naturalmente, um papel fundamental.