“O investimento na inovação não é incompatível com a reorganização dos cuidados de saúde”
DATA
28/09/2022 15:29:57
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Jornal Médico
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“O investimento na inovação não é incompatível com a reorganização dos cuidados de saúde”

Por iniciativa da “World Heart Federation”, a 29 de setembro é assinalado o Dia Mundial do Coração. O presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Lino Gonçalves, acedeu ao convite do Jornal Médico para passar em revista o panorama das doenças cardiovasculares.

Se, por um lado, há uma melhoria no controlo dos fatores de risco e alguma mudança positiva de atitude, por outro, o panorama não deixa de ser preocupante. Como expressa o cardiologista, “a mortalidade cardiovascular em Portugal entrou numa fase de ‘planalto’ depois de estar a descer durante várias décadas”. A respeito da articulação entre as especialidades hospitalares e os Cuidados de Saúde Primários, Lino Gonçalves advoga a promoção de reuniões de trabalho entre os vários clínicos com o fim de “definir os critérios de referenciação e os planos de cuidados para as várias patologias cardiovasculares adaptando esses critérios e planos de cuidados às necessidades locais/regionais”.

Jornal Médico (JM) | Na sua perspetiva, porque é que faz sentido existir um Dia Mundial do Coração e que mensagens devem ser passadas, em especial, nesta efeméride?

Lino Gonçalves (LG) | A comemoração do Dia Mundial do Coração, acontece todos os anos, no dia 29 de setembro, e tem como objetivo principal chamar a atenção da população portuguesa (e mundial) para a necessidade da prevenção das doenças cardiovasculares, as quais constituem a principal causa de morte, não só em Portugal, mas também em todas as restantes Sociedades Ocidentais.

  

JM | A ciência está sempre em evolução e a Medicina Cardiovascular tem vindo a beneficiar disso. Nos últimos anos, qual foi o avanço nesta área que mais o marcou ou que considera ser realmente impactante?

LG | Os avanços da ciência permitiram, a partir do meio do século XX, desenvolver novas formas de diagnóstico e terapêutica das doenças cardiovasculares e isso associou-se a uma extraordinária redução da mortalidade cardiovascular. No entanto, tem-se observado que nos últimos anos essa redução da mortalidade cardiovascular estagnou, entrando numa fase de planalto. Os motivos para esta situação não são claros e têm sido alvo de grande discussão dentro da comunidade científica e a nível dos profissionais de saúde. É, pois, importante que retomemos a tendência decrescente da mortalidade cardiovascular que se observava anteriormente, mas isso só se consegue com novos avanços científicos. Múltiplos avanços foram marcantes nas últimas décadas. Na área cardiovascular, a título de exemplo, o extraordinário desenvolvimento da intervenção coronária e estrutural tem permitido resolver muitas situações que a cirurgia cardíaca não conseguia resolver, ou que a cirurgia cardíaca conseguia resolver, mas com um risco muito elevado para o doente. A nível da arritmologia, as técnicas invasivas também sofreram avanços extraordinários, no diagnóstico, mas principalmente na terapêutica destas situações. Também se têm observado desenvolvimentos muito significativos a nível farmacológico no tratamento da insuficiência cardíaca, da dislipidemia, da hipertensão pulmonar arterial, das miocardiopatias, entre muitos outros.

JM | E o que é que podemos antecipar para o futuro da Medicina Cardiovascular? Espera-se que seja risonho e com novos avanços? Ou será uma fase de organizar cuidados e ganhar experiência com as várias armas atualmente disponíveis? 

LG | Com base nas lições que aprendemos no passado (e a que anteriormente aludi), o futuro da Medicina Cardiovascular vai depender do nível de investimento que se fizer na investigação, na inovação e no desenvolvimento de novas ferramentas diagnósticas e terapêuticas. Existe a preocupação de que esse investimento futuro possa ser reduzido o que seria muito problemático para a continuação do combate às doenças cardiovasculares, que constituem a nossa principal causa de mortalidade. É preciso, no entanto, referir que o investimento na inovação não é incompatível com a reorganização dos cuidados de saúde já existentes de forma a torná-los mais acessíveis, mais eficazes e mais eficientes. Os dois processos deverão necessariamente decorrer em paralelo.

JM | Relativamente às doenças cardiovasculares em Portugal, qual é o nosso panorama? Existem dados epidemiológicos atuais?

LG | Sim, no recente Congresso Europeu de Cardiologia, que decorreu em Barcelona, no final de agosto de 2022, foi publicado um conjunto de estatísticas europeias das doenças cardiovasculares. Neste documento podemos encontrar alguns dados interessantes, como por exemplo a informação de que a prevalência de doença cardiovascular em Portugal, é de 4871 casos por cada 100 000 habitantes e de que a prevalência de hipertensão arterial em Portugal é atualmente de 24,4%. Comparado com os outros Países europeus a realidade é interessante, mas pode sempre melhorar.

JM | Entre as várias doenças cardiovasculares que mais atingem os portugueses, qual é para si a mais subdiagnosticada e porquê? 

LG | Sem dúvida alguma que a doença cardiovascular mais subdiagnosticada em Portugal é a hipertensão arterial. O principal motivo para essa situação deve-se ao facto de a doença ser muito frequentemente assintomática, ou ainda, estar associada a sintomas pouco específicos que não chamam a atenção dos doentes. Além disso, o facto de a população não avaliar de uma forma periódica e sistemática a sua pressão arterial, ao longo da sua vida, também contribui para o desconhecimento da doença e para a dificuldade do seu diagnóstico. 

JM | E em termos de fatores de risco cardiovascular, na sua opinião, qual é o mais desvalorizado pelos portugueses e porquê?

LG | Em termos daqueles que são considerados os principais fatores de risco cardiovasculares “clássicos” (hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes e tabagismo), talvez o mais desvalorizado seja o colesterol elevado. Não existe uma noção clara por parte da população da necessidade do controlo deste importante fator de risco. Além disso, os doentes de uma forma geral não conhecem os valores que são normais e existe uma cultura generalizada de que o colesterol está “mais ou menos”. Esta cultura do “mais ou menos” não faz sentido nenhum porque existem alvos muito específicos que têm de ser atingidos e depois mantidos controlados para o resto da vida. A grande mensagem que as pessoas têm que compreender é: cada dia que passa em que o colesterol está elevado ele está a depositar-se silenciosamente nas suas artérias, o que vai levar a um agravamento da sua aterosclerose. Infelizmente, quando a doença aterosclerótica se manifesta, já é tarde demais e habitualmente manifesta-se através de complicações cardiovasculares muito graves.

JM | Sente que a aposta na literacia em saúde deveria ser maior, particularmente neste campo das doenças cardiovasculares, pelo peso que as mesmas representam em Portugal? Ou a tal desvalorização por parte das pessoas prende-se com o facto de serem patologias com progressão silenciosa?

LG | O aumento da literacia em saúde cardiovascular é fundamental, mas temos de ter consciência que à partida é um processo muito difícil. Em primeiro lugar, é preciso comunicar com a população numa linguagem eficaz que seja percetível por todos os seus membros, por mais heterogéneos que eles sejam. É igualmente necessário que ocorra a transmissão repetida da mensagem, utilizando várias formas de comunicação para que seja interiorizada. É importante salientar que o esforço tem necessariamente de ser contínuo pois todos os anos temos uma nova geração de membros da população que não estão informados, pelo que o esforço terá de ser obrigatoriamente continuado no tempo. A desvalorização prende-se com o conceito de que as doenças cardiovasculares são doenças dos idosos. Isso é parcialmente verdade, mas o problema é que muito frequentemente também podem atingir a população mais jovem. Estima-se que em Portugal, cerca de um terço das mortes súbitas que acontecem abaixo dos 40 anos sejam de causa cardíaca aterosclerótica. É motivo para nós refletirmos…

JM | “Muito há ainda por fazer, para se continuar a reduzir o impacto da doença cardiovascular em Portugal”. É desta forma que termina a mensagem assinada por si, na qualidade de presidente da SPC, e que pode ser consultada no site oficial da Sociedade. Que “muito” é esse que falta concretizar e quais os desafios inerentes? 

LG | Os dados científicos que têm sido recolhidos ao longo dos anos mostram-nos que o controlo dos fatores de risco cardiovasculares de alguma forma tem melhorado, mas está ainda muito longe de ser perfeito, até porque a mortalidade cardiovascular em Portugal entrou numa fase de “planalto” depois de estar a descer durante várias décadas. Verificamos que existem ainda muitas pessoas a fumar e encontramos uma franja significativa da população que apresenta valores de colesterol elevados e de hipertensão arterial não controlada. Finalmente, encontramos muitos doentes diabéticos que não estão objetivamente com valores de glicemia dentro do que seria desejável. Por isso, muito ainda temos para fazer de forma a chegar a estes doentes e ajudá-los a controlar os seus fatores de risco. Se o conseguirmos, poderemos reduzir ainda mais a prevalência e a mortalidade da doença cardiovascular em Portugal. 

É igualmente importante termos consciência de que existe ainda espaço para melhorar o acesso e o tratamento das doenças que têm impacto na mortalidade cardiovascular. A título de exemplo, é fundamental que seja criada com brevidade uma sala de hemodinâmica, na Covilhã, com possibilidade de fazer angioplastia primária em doentes com enfarte agudo do miocárdio, 24h por dia, sete dias por semana, para assim assegurar que todo o território nacional (incluindo a Cova da Beira) tem acesso a esta terapêutica em tempo útil, conforme a recomendação da Sociedade Europeia de Cardiologia.

JM | De que forma avalia o papel dos especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) a nível da referenciação e do seguimento de doentes com patologias cardiovasculares?

LG | O papel dos colegas especialistas em MGF é absolutamente fundamental em qualquer sistema de saúde, são eles que estão mais próximos da população e que melhor do que ninguém podem detetar e iniciar o tratamento precoce das doenças cardiovasculares dos doentes portugueses. A referenciação de qualidade para os serviços hospitalares de Cardiologia é igualmente fundamental, não se pode deixar de enviar um doente que precisa de cuidados cardiovasculares diferenciados, mas também não se devem enviar doentes que não tenham necessidade, pois eles vão acabar por ocupar vagas que poderiam ser utilizadas por outros doentes mais graves. O diálogo e o estabelecimento em conjunto pelas duas especialidades de protocolos de referenciação nesta área são fundamentais. Finalmente, após a alta hospitalar, deverá ser estabelecido por consenso um plano de cuidados conjunto entre as duas especialidades que permita o seguimento e o tratamento mais adequado dos doentes de acordo com a melhor evidência científica. 

JM | Quais considera serem os principais aspetos a melhorar na relação e articulação entre as especialidades hospitalares (neste caso, Cardiologia e Medicina Interna) e a MGF ou os Cuidados de Saúde Primários? O que é que deveria ser solucionado a curto prazo? 

LG | Na minha opinião, deverão ser promovidas reuniões de trabalhos entre os colegas de todas as especialidades para definir os critérios de referenciação e os planos de cuidados para as várias patologias cardiovasculares adaptando esses critérios e planos de cuidados às necessidades locais/regionais. Além disso, é fundamental que se realizem ações de formação com um componente fortemente interativo em que os colegas especialistas de MGF identifiquem quais os temas que gostariam de ver discutidos durante essas ações de formação. Seria também muito interessante desenvolver trabalhos de investigação colaborativos entre estas especialidades, mas para isso é preciso que haja “tempo protegido” e o apoio estrutural, humano, físico, formativo e financeiro para estes projetos, de forma a permitir que esta investigação tenha a qualidade necessária para ser competitiva internacionalmente.

JM | Neste âmbito do dia que se assinala e das doenças cardiovasculares, que mensagens gostaria de deixar aos especialistas em MGF? 

LG | A principal mensagem é de esperança no futuro. Já demonstrámos nas últimas décadas que somos capazes de em conjunto reduzir a mortalidade cardiovascular e tenho a convicção de que apesar de neste momento atravessamos uma fase de alguma estagnação na redução desta mortalidade, temos recursos humanos altamente diferenciados, com uma enorme capacidade de trabalho, disponíveis para progredir em direção ao futuro, assegurando aos nossos doentes, os melhores cuidados cardiovasculares.

 

Este artigo é da exclusiva iniciativa e responsabilidade do Jornal Médico

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.

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