João Malva: O consórcio CHAngeing foca-se na prevenção das doenças cerebrovasculares e promoção de hábitos saudáveis, pois “têm um impacto imenso na saúde”
DATA
06/10/2022 09:05:07
AUTOR
Jornal Médico
João Malva: O consórcio CHAngeing foca-se na prevenção das doenças cerebrovasculares e promoção de hábitos saudáveis, pois “têm um impacto imenso na saúde”

A Universidade de Coimbra (UC) lidera um consórcio europeu constituído para promover a investigação na área do envelhecimento ativo e saudável, com foco na prevenção e reabilitação de doenças cerebrovasculares. Intitulado de “CHAngeing - Connected Hubs in Ageing: Healthy Living to Protect Cerebrovascular Function”, este consórcio vem, portanto, juntar-se a outros projetos na área do envelhecimento que têm contado com a colaboração científica da Universidade de Coimbra, como o Centro Europeu de Referência para o Envelhecimento Ativo e Saudável Ageing@Coimbra, o laboratório colaborativo CoLab4Ageing ou o Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento (MIA-Portugal). O Jornal Médico esteve à conversa com João Malva, coordenador do consórcio e investigador da Universidade de Coimbra. Leia a entrevista na integra.

Jornal Médico (JM) | Qual o objetivo primordial deste consórcio europeu?

João Malva | Este consórcio foi criado para responder a uma chamada da Comissão Europeia, no âmbito do Horizonte Europa e do programa Widening. Esta é uma chamada que pretende identificar redes de excelência em países da região Widening, que são países periféricos da europa que não têm os índices de desenvolvimento científico e tecnológico do centro da europa. O principal intuito é o de capacitar as instituições destes países menos competitivos a melhorar o seu desempenho em ciência e inovação.

Em resposta a essa chamada, em Coimbra, temos já um histórico bem consolidado na investigação e na intervenção em envelhecimento, tendo em conta as alterações demográficas e o envelhecimento da população. Assim, coordenamos desde 2013 o Ageing@Coimbra que é uma rede na região centro, que procura contribuir para resolver os problemas associados ao envelhecimento das populações na região e como parte de europa. Este consórcio, esta rede, é já ela própria uma rede inovadora, que junta parceiros que vêm de diferentes áreas de intervenção: as universidades focadas na investigação e ensino avançado, no território nos municípios e outros agentes do território como a sociedade civil; autoridades de saúde e autoridades regionais como a CCDRC; autoridades do setor social, mas também as empresas e os agentes de inovação.

É desta fertilização cruzada de diferentes áreas de conhecimento e ação que o Ageing@Coimbra foi criando a sua estrutura, muito inspirada na Comissão Europeia para responder aos desafios do envelhecimento com que nos vamos deparar e que têm uma magnitude muito relevante para o indivíduo, família e também para o Estado. É neste contexto que o Ageing@Coimbra Coimbra foi crescendo e criando o seu contexto, resultando da resposta à chamada europeia dos Excellence Hubs.

O Ageing@Coimbra Coimbra foi o elemento inspirador da resposta porque é uma rede regional que se liga a outras redes europeias similares, e funciona como um local de encontro de entidades e indivíduos processando a informação que resulta nesse encontro. Desenvolve e implementa em larga escala soluções inovadoras que são necessárias na sociedade, com foco particular na saúde. O Ageing@Coimbra tem outras redes similares com que colabora, uma das quais a rede de parceiros na ilha de Creta, na Grécia, e à volta desses parceiros, nós imaginamos que seria interessante criar um projeto que juntasse estas duas redes de excelência focados no envelhecimento, além do nosso, a FORTH que é a Fundação para a Ciência e Tecnologia em Creta.

Outro aspeto muito diferenciador entre a colaboração destes dois centros de referência tem a ver com o envelhecimento, ambas têm o envelhecimento como pedra de toque e juntamos a este contexto o nosso interesse em criar soluções inovadores, não só para soluções terapêuticas relacionadas com o envelhecimento, mas sobretudo para promoção de estilos saudáveis e prevenção de doença. Aí, foi fácil chegar à conclusão, até pelo nosso histórico, que um tópico particularmente eficiente tem a ver com a dieta mediterrânica, os seus benefícios, a sua cultura e o seu contexto (o alimento, o contexto social, ecológico, económico).

JM | Como vai funcionar esta coordenação de cientistas e autoridades regionais e de saúde em Portugal e na Grécia?

João Malva | O consórcio é de redes que estão estabelecidas e já têm a sua articulação, sendo hubs de excelência. Aquilo que queremos, de momento, é beneficiar do valor acrescentado de cada um deles e do que os diferencia, podendo trazer valor acrescentado para esta resposta a que nos propomos. Vamos buscar o melhor a cada um dos hubs para que o produto final tenha mais impacto.

A coordenação vai ser feita pelos líderes destes hubs que já têm uma estrutura de gestão, nomeadamente o de Coimbra reúne regularmente o seu grupo de coordenação. A investigação e intervenção em saúde, em envelhecimento, não apareceu com a Ageing@Coimbra. Há múltiplos anos de trabalho com diversas pessoas. O que o Ageing@Coimbra conseguiu fazer de uma maneira inovadora, foi agregar esse histórico e colocar as pessoas a conversar umas com as outras.

Tem-se demonstrado porque desde logo a CCDRC entendeu todos os contextos como uma estratégia muito importante para o envelhecimento. É parte ativa do consórcio Ageing@Coimbra e é elemento do grupo de coordenação. Criou um prémio anual que distingue as boas práticas inovadoras para resposta ao envelhecimento.

É um prémio que cria um contexto muito importante sobre conhecimento. Faz isto anualmente e está em marcha a quinta edição do concurso. De volta deste agregar de competências, conseguimos criar projetos muito diferenciadores que se tornaram muito importantes na Europa, nomeadamente, o “Projeto Teaming” para a criação do Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento, ainda em construção.

É um projeto financiado pela Comissão Europeia com 15 milhões de euros, mas que no global ascende a cerca de 45 milhões de euros, é o resultado do Ageing@Coimbra. Não existiria o projeto do Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento se não tivesse sido criado e alinhado no contexto do Ageing@Coimbra. Faz parte de uma estratégia de alinhar as competências sobre o envelhecimento, dar-lhes coerência, identificar áreas estratégicas onde é necessário intervir. Este projeto não resulta do nada, resulta de uma estratégia que tem vindo a ser implementada há quase 10 anos e que tem trazido estes ativos.

JM | Refere que ao longo de quatro anos, o consórcio “vai contribuir para criar evidência científica para os benefícios de estilos de vida saudável associados à dieta mediterrânica para promover a saúde e prevenir doenças cerebrovasculares”. De que forma é isso possível?

João Malva | Focámos na prevenção das doenças cerebrovasculares porque têm um impacto imenso na saúde, com o impacto económico que tem, o impacto individual e nas famílias que têm as sequelas das patologias cerebrovasculares e sistémicas. Portanto, o nosso projeto foi desenvolvido do ponto de vista do conceito científico com esta matriz: criar um contexto de investigação e de intervenção da sociedade, que alerte os cidadãos para o interesse em promover estilos de vida saudáveis inspirados na cultura da dieta mediterrânica, para assim evitar eventos cerebrovasculares.

Na verdade, são duas redes com dezenas de parceiros em cada centro, nomeadamente, o da região de Coimbra que tem cerca de 90 parceiros e que cruzam a hélice quadrupla com o conhecimento em investigação, a saúde, a intervenção social, as autoridades. Para o consórcio, estas entidades são muito robustas.

As propostas implicam criar evidência para os benefícios da dieta mediterrânica enquanto inspiradores de estilo de vida saudável e tem a ver com a socialização, a atividade física, a natureza dos alimentos, a relação ecológica com os produtos de proximidade. Criar um contexto de investigação nos mecanismos protetores das células relacionados com as doenças cerebrovasculares e como é que os estilos de vida saudáveis, associados à dieta mediterrânica podem interferir positivamente nesses mecanismos protetores.

Criar um contexto de ensino avançado de alunos de doutoramento que possam partilhar centros de investigação entre o centro de Portugal e Creta e programas de treino avançado de doutoramento e se associa a outro programa que temos em curso que é rede europeia em doutoramento e envelhecimento e que somos nós que coordenamos. Através destas plataformas, incentivamos os alunos a terem mobilidade internacional e contactarem com outras realidades de investigação e inovação.

Não é só uma proposta de transferência de valor, é um contexto de inovação que assenta em conhecimento científico muito avançado, que suporta o treino de novos profissionais de ciência e cuidados de saúde, mas também, a transferência desse valor para a sociedade através do mercado e melhores cuidados de saúde.

Neste pacote de atividades, também temos o work package, o outro pacote e programa, que tem a ver com o desenvolvimento de um veículo instrumentalizado com tecnologias, que vai ser implementado na região centro, mas também em Creta e é um veículo que tem um tool kit e um contexto de instrumentos de avaliação e tecnologias, com que o cidadão pode interagir e verificar se os estilos de vida que vai adotando estão adequados. Este instrumento de avaliação naturalmente, na matriz do projeto, tem a ver com a cultura mediterrânica.

À volta da dieta e da cultura mediterrânica vamos desenvolver este instrumento de avaliação, que depois é oferecido aos cidadãos para que possam ser sensibilizados para a temática, mas também recebam algum feedback ou relatório com recomendações: o que é preciso corrigir e melhorar, ou se por outro lado, têm um estilo de vida adequado à sua condição.

Esse veículo, que na verdade é uma unidade móvel de prevenção da doença e de promoção da saúde, vai fazer um trajeto e um roadshow no centro de Portugal e fará o mesmo na ilha de Creta. Obviamente vamos colher resultados e vamos comparar sempre com estas perspetivas da dieta mediterrânica. Outro elemento deste projeto tem a ver a com a comunicação e literacia de saúde associada. É muito importante sensibilizarmos os cidadãos para a promoção de estilos de vida saudáveis porque é melhor maneira de combater a doença a montante, evitando que ela apareça e progrida.

Essa é uma daquelas respostas inovadoras que seguramente é necessária na europa para responder aos desafios relacionados com envelhecimento. O envelhecimento é inevitável, mesmo com a sorte de poder envelhecer, mas a doença é em muitos casos evitável. O que é fundamental é promover uma vida longa e livre de doença. Daí que a adoção, desde tenra idade, de estilos de vida saudáveis e a prevenção da doença seja tão importante e é precisamente aí que o nosso projeto CHAngeing quer chegar.

JM | Uma das principais áreas de atuação é a “implementação de um projeto piloto para disseminação de literacia em saúde e sensibilização de cidadãos em torno dos benefícios de estilos de vida saudáveis e da dieta mediterrânica na prevenção da doença cerebrovascular”. Em que consistirá este projeto piloto e de que forma vai ser distribuído este orçamento?

João Malva | Desde logo, vamos ter que criar ou reforçar a evidência de que o contexto da dieta mediterrânica é um contexto de cultura, mas cria um contexto benéfico em termos de sistemas celulares, um contexto protetor e vantajoso. Do ponto de vista da investigação, temos um caminho a percorrer e que nos é muito caro.

O núcleo deste projeto tem um contexto que tem a ver com a proteção da energética celular e da função das mitocôndrias associadas a vários elementos da dieta mediterrânica, nomeadamente a alguns dos próprios constituintes dos alimentos, mas também do contexto do exercício físico, ou do contexto da socialização no que tem a ver com o combate à depressão, etc. Focando novamente a nível celular, a mitocôndria e a energética das células é um aspeto muito relevante no envelhecimento, e nós queremos criar mais evidência a este nível. Também outro aspeto particularmente importante tem a ver com a senescência celular, o combate ao envelhecimento celular a partir da senescência.

Sabemos que o contexto inflamatório associado à senescência está também associado às células senescentes e ao cocktail inflamatório criado pelo ambiente da senescência. Portanto, queremos compreender melhor como é que a dieta mediterrânica pode favorecer as células, evitando o envelhecimento patológico. É claro que este contexto vai ajudar a criar inovação para as outras propostas associados ao projeto, particularmente, a identificação de compostos associados à dieta mediterrânica que podem ser inovadores e inspirar desenvolvimento de novos fármacos ou para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas baseadas em constituintes ativos da dieta mediterrânica presentes nos alimentos.

O financiamento serve em parte para apoiar este esforço de investigação, que é na essência muito fundamental, mas sempre com esta perspetiva da translação, porque nós não queremos que esta investigação fique na bancada do laboratório, queremos fazer uma investigação com perspetiva de translação para o ambiente da saúde, sobretudo, no que tem a ver com a reabilitação de pacientes que sofrerem acidentes cerebrovasculares.

Há aqui um contexto de reabilitação cerebrovascular que vai ser importante no piloto do Work Package 6, que é mesmo um work package que tem o contexto do veículo automóvel que vamos desenvolver em literacia em saúde. Temos dois ramos: reabilitação cerebrovascular e literacia em saúde para prevenção. Como eu dizia, este esforço e investigação vai alimentar esse work package de intervenção em saúde e literacia, mas também vai alimentar o work package 4 e 5, que tem a ver com a inovação. É à volta da dieta mediterrânica e da investigação que vamos tentar encontrar compostos, mas também processos que inspirem os inovadores a criar novos serviços com valor acrescentados para o mercado e para a transferência do mundo das empresas, mas também dos serviços e no que diz respeito aos serviços em saúde.

Parte do financiamento vai ajudar no treino avançado de estudantes, mas também de inovadores. O contexto da colaboração entre os Excellence Hub implica um contexto de formação avançada de doutoramento, mas também da formação de empresários e inovadores que possam partilhar experiências entre o centro de Portugal e Creta no financiamento de programas avançados de doutoramento, no apoio à mobilidade de estudantes, no apoio à organização de eventos colaborativos entre Creta e o centro de Portugal. Não queremos desligar a investigação da inovação, não queremos, também, desligar o contexto do conhecimento do próprio empreendedorismo, é preciso alinhar bem este contexto com os alunos de doutoramento e os jovens inovadores, talvez o elemento charneira que permite fazer estas pontes entre o laboratório e a sociedade.

JM | O que considera faltar em Portugal, e no resto da europa, para que seja possível uma “longevidade com qualidade de vida”?

João Malva | Não estamos condenados a envelhecer com doença. A biologia e a fisiologia humana são compatíveis com a saúde. Deve ser possível envelhecer em saúde plena. Sabemos que muitas das doenças que retiram qualidade de vida às pessoas, nos anos mais avançados, têm a ver com doenças evitáveis e resultam de adoção de estilos de vida errados.

Para isso, é fundamental a literacia em saúde e a educação desde tenra idade, para os benefícios de fazer as coisas certas no dia a dia. Na verdade, um dia quando envelhecermos, vamos ser o produto das escolhas que fomos fazendo ao longo dos anos. É por aí, que nós temos de trabalhar. Temos de pensar que nós não conseguiremos sistema de apoio social e saúde sustentáveis se continuarmos só a focar na resposta à doença.

Temos de pensar muito mais em sociedade do que em hospitais. É evidente que temos de lidar com os hospitais e temos de capacitá-los para uma resposta eficiente. Para respondermos aos desafios da sociedade do futuro, temos de pensar muito mais na saúde primária, na prevenção e menos nos hospitais. Chegar aos últimos dias da nossa vida pode mudar para melhor. Os hospitais são uma necessidade e evidentemente vamos ser objetivos, mesmo que tenhamos uma sociedade de pessoas educadas para estilos de vida saudáveis, vai haver sempre doença de muita natureza: traumática, metabólica, crónica. A essência do problema é que o perfil do idoso, hoje em dia, é um perfil muito carregado de doença, mas que era evitável em grande escala.  

O trabalho do consórcio vai centrar-se em sete principais áreas de atuação: 1) na criação de sinergias entre e dentro dos dois polos; 2) na promoção de um projeto conjunto para identificar mecanismos celulares e moleculares, bem como alvos terapêuticos para a prevenção e tratamento de doenças cerebrovasculares; 3) na formação avançada, inovação e empreendedorismo de uma nova geração de cientistas e profissionais; 4) na aceleração da inovação e do desenvolvimento de produtos e serviços para o mercado associado à dieta mediterrânica e a estilos de vida saudáveis; 5) na implementação de um projeto piloto para disseminação de literacia em saúde e sensibilização de cidadãos em torno dos benefícios de estilos de vida saudáveis e da dieta mediterrânica na prevenção da doença cerebrovascular; 6) na implementação de um demonstrador de desenvolvimento e aplicação de tecnologias inovadoras para melhorar o tratamento das patologias cerebrovasculares e sua reabilitação; 7) na comunicação e disseminação de informação sobre o projeto para criar impacto na sociedade e nos decisores para promover a saúde ao longo de toda a vida.

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.

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