Alexandra Teixeira: “A articulação dos CSP com a área  de Oncologia é fundamental para uma prestação de cuidados de excelência”
DATA
06/10/2022 15:49:49
AUTOR
Jornal Médico
Alexandra Teixeira: “A articulação dos CSP com a área de Oncologia é fundamental para uma prestação de cuidados de excelência”

Alexandra Teixeira, assistente hospitalar de Oncologia Médica no Hospital Senhora da Oliveira, em Guimarães, coordena atualmente o Grupo de Trabalho de Sobreviventes de Cancro da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), criado em 2019. Em conversa com o Jornal Médico, a propósito da FOLLOW UP Doenças Oncológicas e Cuidados de Saúde Primários, a especialista revela que, “nos últimos anos, assistiu-se a um aumento crescente do número de sobreviventes de cancro”, o que motivou a criação de um Grupo de Trabalho com as características daquele que coordena. Sublinha ainda o papel das guidelines sobre sobreviventes de cancro, um projeto ainda em curso, que permitirá “uniformizar as normas de seguimento [dos sobreviventes de cancro] não só a nível hospitalar, mas também na transferência de cuidados para os CSP”. Leia a entrevista na integra. 

Jornal Médico (JM) | Há dados sobre o número de sobreviventes de cancro em Portugal? Em 2016, a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) estimava cerca de 350 mil casos de sobreviventes de doença oncológica no nosso país, reforçando que a taxa de mortalidade, nos cinco anos após o diagnóstico, seria de cerca de 50 %. Estes números mantêm-se atuais?


Alexandra Teixeira (AT) |
Nos últimos anos tem-se assistido a um aumento crescente do número de sobreviventes de cancro, que é influenciado não só pelo incremento de novos casos diagnosticados, bem como pela disponibilidade de terapêuticas mais eficazes. Não há dados reais publicados sobre o número de sobreviventes existentes. Em 2017, o número estimado pela LPPC era de meio milhão de sobreviventes. Segundo os dados recentemente publicados do Registo Oncológico Nacional (RON), relativos a 2018, foram diagnosticados em Portugal (excluindo a Região Autónoma dos Açores) cerca de 50 151 novos casos de cancro, com 27 174 mortes por cancro. As estimativas, relativas a 2020 e de acordo com os dados do Observatório Global de Cancro (Globocan), relatam 60 467 novos casos de cancro e 30 168 morte.

JM | Em 2021, o Grupo de Trabalho de Sobreviventes de Cancro organizou o 1.º curso, destinado a médicos de Oncologia Médica e Medicina Geral e Familiar. É um projeto de continuidade?


AT |
Com a recente reestruturação dos Grupos de Trabalho pela atual direção da Sociedade Portuguesa de Oncologia, neste momento o nosso principal foco é conhecer todo o trabalho já realizado e dar continuidade ao mesmo. Certamente que o Curso de Sobreviventes de Cancro, realizado no ano passado, será um projeto a replicar, dado considerarmos que a partilha entre Oncologistas e Médicos de Medicina Geral e Familial é fulcral nesta matéria. Contudo, este projeto não tem ainda uma data definida.

JM | Um dos tópicos deste curso foi a “Comunicação entre Oncologistas e a Medicina Geral e Familiar”. Que necessidades é que o Grupo identificou até ao momento para facilitar a comunicação entre os serviços hospitalares e os Cuidados de Saúde Primários (CSP) relativamente ao seguimento dos sobreviventes de doença oncológica (SDO)?

AT | Com o número crescente de doentes oncológicos em seguimento nos serviços de Oncologia, é crucial a transferência do seguimento de doentes mantidos em vigilância ao fim de alguns anos (podem ser 5, 10 anos dependendo do contexto oncológico), sendo imprescindível a comunicação com os Cuidados de Saúde Primários. Desta forma é importante a definição de possíveis normas de seguimento, bem como estratégias de orientação de possíveis toxicidades decorrentes de tratamentos oncológicos a longo prazo. Todo este trabalho já foi pensado e redigido pelos membros anteriores do Grupo de Sobreviventes, faltando a sua validação final e a sua publicação/promoção.

JM | Em Portugal, qual o modelo de seguimento dos sobreviventes de doença oncológica que vigora atualmente?

AT | O contacto com colegas de diferentes serviços hospitalares e diferentes realidades é demonstrativo de que não há de facto um modelo predefinido. Há instituições em que ao final de cinco anos, após o diagnóstico e sem evidência de recidiva de doença oncológica, os doentes são encaminhados para seguimento por parte dos CSP. Há também serviços em que o seguimento é mantido por um período mais alargado. A nossa perspetiva como grupo será padronizar este período de vigilância e definir normas de seguimento futuro, baseadas nas diretrizes da DGS [Direção-Geral da Saúde] e guidelines europeias e internacionais.

JM | Na perspetiva do Grupo de Trabalho, como deveria funcionar a articulação entre os serviços hospitalares e os CSP relativamente ao seguimento dos SDO?

AT | O objetivo da articulação é criar uma continuidade de cuidados prestados ao doente. E, por isso, por um lado permitir que o doente seja mantido sob vigilância adequada em termos de timing e exames a realizar, mas também criar um canal estreito de comunicação por parte dos colegas de MGF para esclarecimento de dúvidas ou, se for necessária, a reavaliação do doente.

JM | O seguimento dos SDO nos CSP permitiria aliviar a carga existente e a pressão que é exercida sobre os serviços de Oncologia a nível hospitalar, tendo em conta o aumento significativo de SDO?

AT | Sim. O aumento de número de novos casos e número de sobreviventes tem pressionado os serviços de Oncologia, com uma carga assistencial acrescida. Dessa forma a possibilidade de parte desse seguimento ser realizado nos CSP, com uma orientação prévia, poderia ser uma alternativa no alívio dessa pressão.


JM | O grupo de trabalho da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) “Sobreviventes do Cancro” preparou guidelines sobre a abordagem dos sobreviventes de cancro, um documento que foi apresentado no 18.º Congresso Nacional de Oncologia. Qual o objetivo deste documento e que tópicos estão incluídos?

AT | Em primeiro lugar gostaria de realçar o contributo de colegas – como o Dr. Carlos Sottomayor, o Dr. Diogo Branco, a Dr.ª Fernanda Estevinho – no trabalho desenvolvido na dinâmica do grupo. O objetivo do novo Grupo de Trabalho, onde se mantêm elementos como Dr.ª Ana Martins e a Prof.ª Cláudia Vieira, é dar continuidade aos projetos já iniciados. Dessa forma, as guidelines desenvolvidas prendem-se não só com a articulação com os CSP, com normas de vigilância do doente oncológico, mas também com temáticas como toxicidades tardias (dor crónica, linfedema, cardiotoxicidade, segundas neoplasias, toxicidade pulmonar ou neurológica) ou o impacto da doença na vida pessoal e profissional do doente.

JM | Quais as mais-valias destas guidelines de seguimento dos SDO para os CSP? Permitirá maior uniformização de cuidados e facilitará uma maior proximidade entre a Medicina Geral e Familiar e a Oncologia?

AT | Tal como já referido anteriormente, a criação de normas de seguimento permitirá criar uniformidade não só a nível hospitalar, mas também na transferência de cuidados para os CSP. Possibilitará também uma via de comunicação mais estreita e mais fácil entre o médico assistente hospitalar e o médico assistente de MGF, para orientação de possíveis recidivas, segundos tumores primários e toxicidades tardias decorrentes dos tratamentos antineoplásicos realizados ou outras situações que necessitem de partilha de opinião.

JM | No questionário “Desafios no seguimento de sobreviventes de cancro em Cuidados de Saúde Primários” é mencionado “o papel fulcral da MGF na prevenção, no diagnóstico, e no seguimento da pessoa com cancro e dos seus familiares, durante o tratamento ativo e após o término do período de vigilância na unidade de oncologia”. Tendo em conta a proximidade da MGF aos doentes e aos respetivos familiares, considera que são um dos maiores aliados dos oncologistas médicos ao longo de toda a jornada dos doentes oncológicos?

AT | A articulação dos CSP com a área de Oncologia é fundamental para a uma prestação de cuidados de excelência. Desde logo na prevenção, com a enfatização de boas medidas higieno-dietéticas e a aplicação adequada de rastreios, no diagnóstico com uma referenciação atempada e no seguimento do doente oncológico, quer durante o tratamento ativo com a orientação de intercorrências manejáveis no ambulatório, quer na fase posterior de vigilância. Muitos doentes, pelas suas comorbilidades e/ou pela distância ao hospital, têm maior proximidade com o seu médico de família, do que com os especialistas hospitalares. Assim sendo, e considerando que a multidisciplinariedade é a base da Oncologia, também a MGF deve ser aliada na prestação de cuidados ao doente oncológico.

 

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Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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