Miguel Abreu defende "modelo de abordagem integrada" entre os Cuidados de Saúde Primários e os hospitalares, na área oncológica
DATA
10/10/2022 10:07:44
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Jornal Médico
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Miguel Abreu defende "modelo de abordagem integrada" entre os Cuidados de Saúde Primários e os hospitalares, na área oncológica

O presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) tenciona estreitar os laços com a Medicina Geral e Familiar (MGF), uma especialidade que, nas suas palavras, tem sido a principal aliada no rastreio e na deteção precoce do cancro e também no seguimento dos sobreviventes de doença oncológica (SDO). Miguel Abreu, oncologista no IPO do Porto, defende, por isso, a implementação de “um modelo de abordagem integrada” entre os Cuidados de Saúde Primários e os hospitalares, que, através da criação de “canais de comunicação facilitadores”, possibilite a gestão dos doentes oncológicos numa lógica de proximidade.

Jornal Médico (JM) | Qual o ponto de situação dos cuidados de saúde oncológicos em Portugal, numa altura em que se fala em sucessivas crises na área da Saúde?

Miguel Abreu (MA) | Desde há vários anos, que vivemos com uma suborçamentação crónica do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Se pensarmos que toda a evolução tecnológica na saúde, que ocorreu também na área da Oncologia, tendeu para uma maior necessidade de profissionais altamente especializados e de mais recursos físicos e materiais, percebemos facilmente que não vivemos um bom momento. Nesta época pós-pandemia COVID-19, todas estas fragilidades tornaram-se ainda mais visíveis e vieram chamar à atenção da opinião pública para os vários problemas que enfrentamos.

JM | Já foi possível apurar o impacto da pandemia relativamente aos cuidados de saúde oncológicos?

MA | Durante a pandemia, percebemos que os doentes oncológicos tiveram mais dificuldades de acesso aos cuidados de saúde. Em termos hospitalares, a área porventura mais afetada foi a Cirurgia, em que assistimos ao adiamento de vários procedimentos. Nos tratamentos sistémicos, orais ou realizados em Hospital de Dia, e nos de Radioterapia, penso que a maioria dos serviços fez um esforço para manter o funcionamento quase normal, compreendendo-se, desde cedo, a importância da manutenção destes tratamentos. Foi um período em que se agravou o sofrimento dos doentes, restringindo-se, por exemplo, os acompanhantes durante a consulta e no internamento. As suas fragilidades aumentaram grandemente.

A inacessibilidade aos CSP (Cuidados de Saúde Primários) foi agravada pelo facto de os médicos terem sido alocados à gestão da pandemia e também pelos receios dos próprios doentes. A oportunidade de identificação dos cancros em fases mais precoces também não foi conseguida, uma vez que os programas de rastreio oncológico foram suspensos. Com a retoma progressiva das atividades, os serviços de saúde sofrem agora uma pressão elevada, com um aumento do número de doentes com doenças em fase mais avançada. Os hospitais têm feito um esforço organizativo para, por exemplo, tentar resolver a lista de espera cirúrgica, mas o real impacto em termos de mortalidade da pandemia no doente oncológico só será aferido numa fase posterior, depois de decorridos mais anos.

JM | Sente que de alguma forma a prestação de cuidados oncológicos foi “beliscada” pelas dificuldades que o Serviço Nacional de Saúde tem enfrentado?

MA | Durante toda a fase pandémica, não tenho qualquer dúvida disso e, na fase atual, já pós-COVID-19, os serviços continuam com o mesmo número de profissionais para um volume ainda maior de doentes. É necessário aproveitar toda esta situação de crise, em que várias fragilidades do SNS foram identificadas, para refletir sobre como pretendemos reorganizar todo um sistema que já deu provas, em vários momentos, de necessitar de uma reestruturação.

JM | Uma articulação mais estreita com os Cuidados de Saúde Primários facilitaria a gestão e o acompanhamento dos doentes oncológicos fora do contexto hospitalar?

MA | A articulação entre os cuidados hospitalares e os CSP é fundamental e deve ser estimulada. Não nos podemos esquecer que a Medicina Geral e Familiar (MGF) tem um papel relevante em várias etapas da jornada do doente oncológico. Temos de reconhecer, desde logo, o valor que têm os médicos especialistas em MGF e perceber que todo o SNS de[1]veria estar assente nos CSP, como “porta de entrada” no sistema, à luz de outros modelos europeus. Além do diagnóstico oportunista das doenças oncológicas e referenciação para os cuidados hospitalares, a MGF recebe a informação do rastreio de base populacional, que permite abordagem destas doenças numa fase mais precoce. É por isso que um dos pilares de ação do Programa Europeu de Luta Contra o Cancro, plasmado no Programa Nacional Português, é exatamente a aposta na prevenção e deteção precoces, como maior probabilidade de sucesso na luta contra estas doenças, à custa de um menor consumo de recursos. Também na gestão dos doentes oncológicos em tratamento os CSP poderão e deverão ser parceiros dos colegas hospitalares. Assim, o que se propõe é um modelo de abordagem integrada dos doentes [oncológicos], com a criação de canais facilitadores da comunicação entre ambos os níveis de cuidados – hospitalares e CSP, para que se possa partilhar a informação e, acima de tudo, a responsabilidade na gestão dos cuidados. Desta interação só poderá resultar benefícios para os doentes, uma vez que o SNS tem um claro défice de profissionais. Assim, uma estrutura em rede potenciaria os recursos existentes e tornaria o sistema mais eficiente.

JM | Refere que esta articulação entre os cuidados hospitalares e CSP deveria ser mais estimulada. Não é a realidade atual?

MA | Infelizmente não é a realidade atual do país, existindo, também nesta matéria, uma grande heterogeneidade. O ideal seria que, em cada área de cuidados, que poderia coincidir ou não com a área geográfica, existissem canais entres as várias Unidades de Saúde Familiares (USF) e as estruturas hospitalares que lhe dão apoio. Com as plataformas digitais, todo este processo está facilitado pelo que dependemos apenas de vontade da tutela para que estes modelos existam e sejam implementados. Com este apoio poderiam, por exemplo, poupar-se várias consultas hospitalares (e não falo apenas na área da Oncologia), já que todos os intervenientes no cuidado dos doentes estabeleceriam, de forma imediata, um plano de orientação. Atualmente, grande parte desta articulação continua a ter por base o bom relacionamento entre os colegas das várias especialidades que, não raras vezes, comunicam de forma pessoal para tentar ajudar um doente. Temos a função de sensibilizar os decisores políticos para as mais-valias de ter um sistema comunicante, para que o doente se sinta completamente integrado nele e não compartimentado entre CSP ou o hospital.

JM | Além da deteção precoce, rastreio e referenciação de cancro, a MGF já faz o seguimento dos sobreviventes de doença oncológica?

MA | Sim, desde há vários anos. Brevemente, uma em cada duas pessoas terá um diagnóstico de cancro, portanto, será fácil perceber que as estruturas hospitalares não terão capacidade para seguir todos os doentes, inclusive os sobreviventes que são, felizmente, cada vez em maior número. Por isso temos de nos organizar. Dependendo das instituições, há uma transferência de cuidados dos doentes para os CSP, habitualmente após cinco anos do diagnóstico de cancro e na ausência de recidiva. Torna-se fundamental estabelecer protocolos de seguimento destes doentes, para partilhar junto dos colegas de MGF, como auxílio de manutenção das melhores práticas clínicas, mantendo, desejavelmente, um elo de ligação com a estrutura hospitalar em caso de surgir alguma questão pertinente. Até ao final do ano, a SPO irá publicar um conjunto de orientações elaboradas por um grupo de trabalho específico de sobreviventes.

JM | A deteção precoce e a evolução terapêutica têm contribuído para uma mudança do panorama das doenças oncológicas, verificando-se que o número de sobreviventes de doença oncológica (SDO) é cada vez maior. Em Portugal, há registo do número anual de SDO?

MA | Não temos dados portugueses de sobreviventes de cancro. Felizmente, há sobreviventes em todos os tipos de cancro e todos reconhecemos que é progressivamente maior o número de indivíduos que conseguimos curar. A sobrevivência depende, em larga medida, do estádio de deteção da doença. Quanto mais precocemente for documentada a doença, maiores as probabilidades de cura, ao contrário do que acontece com os cancros diagnosticadas em fases avançadas. Não obstante, ao longo dos anos temos tido, felizmente, avanços importantes no conhecimento destas doenças, o que permitiu um desenvolvimento acelerado de um arsenal terapêutico que é incomparável ao que existia há 20 anos.

JM | Este aumento do número de casos de SDO também acarreta mais desafios…

MA | Obviamente. Desde logo, porque estes indivíduos deverão ser seguidos de forma personalizada, promovendo estilos de vida saudáveis, identificando precocemente recidivas das suas doenças e segundos tumores. Também não deve[1]mos esquecer que a abordagem multimodal destes indivíduos não deve descurar a componente social. Mesmo com as melhorias nos tratamentos destes doentes e, apesar de curados, poderão viver com sequelas permanentes da sua doença ou dos seus tratamentos. É preciso garantir estruturas de apoio na sociedade, assegurando-se a reinserção profissional e promovendo apoios de retaguarda para que os sobreviventes possam ter uma vida normal, possibilitando, por exemplo, a aquisição de próteses para membros que foram amputados. O apoio psicológico e emocional também deverá ser oferecido para que o medo das recidivas da doença e de uma nova situação fraturante e de sofrimento não impossibilite uma vida feliz.

JM | A SPO tem dedicado bastante atenção aos SDO, tendo inclusivamente criado um grupo de trabalho de Sobreviventes do Cancro. Quais os propósitos deste grupo de trabalho, que é atualmente coordenado por Alexandra Teixeira?

MA | Há vários anos, a SPO sentiu necessidade de formar vários grupos de trabalho especializados em áreas que considerou relevantes. Este conceito evoluiu para um total de nove grupos, já com esta nova direção. No caso dos sobreviventes, percebemos que havia particularidades que deviam ser consideradas, nomeadamente o seguimento a longo prazo, o risco de recidiva ou de segundas neoplasias, as toxicidades a longo prazo, algumas das quais são perenes, e que limitam, inclusivamente, a realização de algumas tarefas da vida diária. São, por isso, vários os desafios desta população que justificam a existência deste grupo de trabalho, mantendo a SPO a sua responsabilidade nesta área e exercendo a sua influência perante a sociedade civil e os governantes na defesa dos melhores inte[1]resses destes indivíduos.

JM | Quanto à articulação entre os serviços hospitalares e os Cuidados de Saúde Primários, o que é que, na sua perspetiva, deveria ser feito para melhorar a prestação de cuidados aos doentes oncológicos e aos sobreviventes de cancro?

MA | Deveríamos criar uma rede de cuidados descentralizados para, acima de tudo, garantir bons cuidados de proximidade a todos os indivíduos e, de forma transversal, abranger todas as regiões do país.

JM | Qual o papel da SPO neste contexto de seguimento partilhado dos doentes oncológicos?

MA | A SPO, como sociedade científica, pode e deve fazer recomendações e propostas, inclusivamente à tutela, defendendo estratégias baseadas na melhor evidência científica e ancoradas na experiência do mundo real. É esta representação da Oncologia do país, no seu sentido mais multidisciplinar, traduzida na reunião dos mais de 800 sócios e os conhecimentos técnico-científica de excelência que caracterizam e são a mais-valia da SPO.

JM | Que orientações e estratégias são essas?

MA | Não deve haver uma receita única e, como já indiquei antes, os projetos vencedores serão aqueles que se consigam adaptar às realidades regionais. Por exemplo, em alguns casos poderá funcionar a estratégia de teleconferências, em que é estabelecido um dia fixo por semana para que os médicos dos hospitais possam discutir os casos com os médicos da MGF. Há, por isso, necessidade de criar os protocolos de atuação que mais se adequam às partes intervenientes, podendo definir-se alguns modelos possíveis. Compete à SPO fomentar esta discussão, transmitindo as suas potencialidades e mais-valias para o doente e para o próprio SNS, junto da tutela e da sociedade civil e demonstrando a sua disponibilidade como parceira para fazer parte de projetos que traduzam valor em saúde.

JM | Não existindo para já protocolos estabelecidos, como é que têm funcionado os canais de comunicação “informais” entre os CSP e os serviços hospitalares?

MA | Para além dos já referidos contactos pessoais entre profissionais de saúde o que, apenas traduz uma grande vontade de ajudar o doente que nos solicitou ajuda, existem alguns casos, poucos, em que os Hospitais conseguiram estabelecer estes protocolos com os CSP da sua área geográfica.

JM | A SPO pretende neste novo mandato estreitar a relação com a MGF, apostando, por exemplo, numa formação dirigida a estes profissionais de saúde?

MA | As ações de formação da SPO são abrangentes e acessíveis aos médicos da MGF que estejam interessados em frequentá-las. A SPO tem uma relação de total abertura com outras Sociedades Médicas, incluindo a APMGF, para colaborarmos a vários níveis, nomeadamente na área da formação. Ninguém pode saber tudo e não podemos depositar nos profissionais de MGF a obrigação de fazerem tudo. Estes colegas têm de ser ajudados e têm de sentir que há uma rede que os apoia quando precisam. Quando há uma dúvida não há como ter um canal para comunicar mais facilmente com as outras especialidades. Mas, para isso, era necessário criar estruturas facilitadores como por exemplo, um sistema informático que fosse comum e, por isso, compatível em todo o SNS. Seriam estes pequenos passos que trariam alento a um sistema que precisa rapidamente de ser ajudado.

Esta entrevista encontra-se incluída na edição 134 do Jornal Médico, no âmbito da rubrica FOLLOW UP Doenças Oncológicas e Cuidados de Saúde Primários.

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.

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