Susana Sousa Almeida: “Um doente bem-adaptado e informado tem menores probabilidades de sofrimento emocional, maior satisfação com os cuidados médicos e melhores resultados clínicos globais”
DATA
13/10/2022 16:06:26
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Jornal Médico
Susana Sousa Almeida: “Um doente bem-adaptado e informado tem menores probabilidades de sofrimento emocional, maior satisfação com os cuidados médicos e melhores resultados clínicos globais”

O acompanhamento dos doentes com cancro não se resume à componente física, razão pela qual a intervenção da Psico-Oncologia é crucial ao longo das várias etapas da doença oncológica. Segundo esclareceu Susana Sousa Almeida, que é assistente hospitalar graduada de Psiquiatria no Serviço de Psiquiatria do IPO do Porto, 1/5 a 1/4 dos doentes com cancro terão um sofrimento emocional elevado (distress), que requer a referenciação à Psiquiatria oncológica para um diagnóstico e tratamento específicos. Este é um dos temas do “FOLLOW UP Doenças Oncológicas e Cuidados de Saúde Primários” da edição 134 do Jornal Médico.

Jornal Médico (JM) | Dados do GLOBOCAN de 2019 indicavam que, no ano anterior, tinham sido diagnosticados em Portugal quase 60 mil novos casos de cancro. No entanto, os números também sugerem que há um aumento significativo de sobreviventes de cancro, o que, por outro lado, implica novos desafios na abordagem destes doentes. Quais são os maiores desafios já identificados na abordagem psico-oncológica dos doentes e sobreviventes de cancro e dos respetivos familiares?

Susana Sousa Almeida (SSA) | Os melhores tratamentos trouxeram uma melhoria do prognóstico e consequente aumento da sobrevivência. A Psico-Oncologia tem como objetivos a facilitação do processo de adaptação à doença oncológica, ao seu impacto e, neste novo paradigma, de melhoria da qualidade de vida. Um processo bem-sucedido pode significar uma nova perspetiva após um acontecimento traumático. Ou seja, após o embate com uma doença grave – e através de um acompanhamento adequado – poderá haver uma melhor compreensão do que nos dá sentido existencial, tornando-nos mais capazes de fazer escolhas significativas no dia-a-dia.

O medo da recaída, a prevenção ou a gestão da ansiedade decorrente, além da vivência em doença prolongada com perda de autonomia, são outras consequências destas circunstâncias que importa considerar. Importantes são também as perturbações do humor em doentes com perdas relevantes ou antecedentes deste tipo, que devem ser precocemente identificadas para um tratamento adequado.

JM | O que apontam os dados relativamente ao sofrimento emocional, também designado por “distress”, em doentes com cancro ou sobreviventes de cancro? Em que consiste este sofrimento emocional e quais os motivos subjacentes ao distress?

SSA | O sofrimento emocional ou distress é uma realidade para uma parte importante dos doentes oncológicos. É a angústia perante a perceção que se vai travar uma batalha que poderá ser longa, e sem certezas, contra uma ameaça grave que interromperá o projeto de vida individual, com ondas de choque extensíveis à família e a entes queridos, com perdas associadas no trabalho e a nível económico e social. Felizmente, com frequência, é resolvido pela pessoa, com os seus mecanismos de adaptação, com o apoio dos seus médicos assistentes e oncologistas, família, amigos, grupos de apoio ou estruturas de suporte de cada um. Estima-se que cerca de metade precisará a dado momento de apoio psicológico e que cerca de 1/5 a 1/4 dos doentes terão um sofrimento num nível elevado, requer a referenciação à Psiquiatria oncológica para diagnóstico e tratamento específicos.

JM | Qual o motivo pelo qual, em 2006, o sofrimento emocional, foi considerado como o 6.º sinal vital?

SSA | Foi uma forma chamativa de salientar a importância incontornável de o medir, tal como já fazemos para todos os outros sinais vitais, por rotina e de forma sistematizada. Aprendemos e integramos na nossa prática clínica o hábito de avaliar se a pessoa sofre emocionalmente nos vários domínios que podem ser atingidos pela doença. O instrumento de screening – Termómetro de Distress – está aprovado e validado internacionalmente, é rápido e é uma ferramenta útil para este fim na maioria dos serviços com critérios de boas práticas.

JM | Como define “Psico-Oncologia” e quais as vertentes de intervenção dos profissionais que atuam nesta área?

SSA | Trata-se da área do saber clínico e científico que se debruça no estudo e compreensão dos fenómenos psicológicos e psicopatológicos associa[1]dos à doença oncológica, do seu impacto na pessoa com cancro, nos sobreviventes e suas famílias e nas melhores estratégias para a sua facilitação; na identificação, prevenção e tratamento psicoterapêutico e psicofarmacológico das perturbações ou doenças mentais decorrentes; e, noutra vertente, do treino em competências de comunicação clínica dos outros profissionais envolvidos nos cuidados do doente oncológico, num trabalho colaborativo multidisciplinar.

JM | Considera que o acompanhamento psico- -oncológico dos sobreviventes de cancro deveria ser mais prolongado no tempo? Neste momento, há resposta para todos os doentes que necessitem de uma intervenção a nível psico-oncológico, nomeadamente nos Cuidados de Saúde Primários?

SSA | A duração da intervenção nos sobreviventes é definida de acordo com as necessidades de cada pessoa. Não há “pacotes” de consultas pré-estabelecidos numa entidade que desencadeia processos de adaptação diferentes, com impacto tão diverso em jornadas longas, com várias recaídas potenciais. Hoje em dia há profissionais da área da Psicologia Clínica e médicos especialistas em Psiquiatria com formação em Psico-Oncologia em várias unidades de saúde hospitalares e extra-hospitalares, em entidades como a LPCC [Liga Portuguesa Contra o Cancro] e também em exercício privado. Consideraria importante averiguar a formação dos mesmos nesta área e incentivar a sua atualização regular.

JM | Que dados existem sobre os benefícios de intervenção psicológica no que respeita ao bem- -estar e qualidade de vida dos doentes oncológicos e sobreviventes de cancro? Poderá detalhar os dados que existem sobre este tema, por favor?

SSA | A evidência científica é robusta. Sabemos que um doente bem-adaptado e informado, na justa medida do que necessitará para se organizar no processo que terá pela frente, tem menores probabilidades sofrimento emocional, maior satisfação com os cuidados médicos e melhores resultados clínicos globais. Sabemos que, em doentes com critérios clínicos de perturbações de ansiedade e depressivas, caso estas estejam ativas e não tratadas, podemos infelizmente ter piores resultados em termos de prognóstico global e mesmo de pior sobrevivência. Uma meta-análise importante de finais de 2020 em doentes com cancro de mama salientou isto de forma robusta. Assim, a identificação e tratamento precoce e eficaz da psicopatologia e, por exemplo, um bom controlo da dor crónica, traduzir-se-á em melhores resultados não só de saúde mental e qualidade de vida, mas também de prognóstico oncológico.

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.

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