Antonio Della Croce: “O crescimento proporcionado pela integração da Allergan permite-nos também continuar a fazer um forte investimento na investigação”
DATA
19/10/2022 09:58:28
AUTOR
Jornal Médico
Antonio Della Croce: “O crescimento proporcionado pela integração da Allergan permite-nos também continuar a fazer um forte investimento na investigação”

O Jornal Médico esteve à conversa com Antonio Della Croce, diretor-geral da AbbVie Portugal, a propósito do processo de aquisição da Allergan, concluído no passado mês de julho. Com esta integração, o diretor garante que acresce o investimento na investigação e desenvolvimento de medicamentos, cujo intuito passa por proporcionar uma melhor qualidade de vida aos doentes. Esta entrevista encontra-se na edição 134 do Jornal Médico.

Jornal Médico (JM) | Como está a resultar a fusão das equipas na AbbVie em Portugal?

Antonio Della Croce (AC) | Foi com uma enorme satisfação que concluímos o processo de integração da Allergan. Uma integração acarreta naturalmente mudanças e é sempre um processo algo demorado. Foram dois anos de adaptação e de grande exigência para as nossas equipas, com tudo o que um pro[1]cesso desta dimensão implica. No caso de Portugal, tivemos um desafio acrescido: o facto da Allergan ter uma estrutura ibérica no momento da aquisição. Precisamente por conta dessa desiberização, além de termos acolhido os colegas portugueses herdados da Allergan, temos vindo a contratar novos colaboradores para as novas áreas de negócio. Ou seja, em dois anos, a AbbVie viu a sua equipa crescer em Portugal e essa fusão das equipas correu muito bem, muito por conta da nossa Cultura apaixonada e inclusiva, onde o espírito colaborativo é um elemento basilar.

JM | E que forças saem reforçadas com esta integração e que áreas terapêuticas ganham terreno na vossa estratégia?

AC | Para nós, esta integração significa o início de um novo ciclo. Com quase uma década de existência e um legado de mais de 130 anos, hoje somos uma nova AbbVie. Uma AbbVie mais robusta, com um portefólio mais diversificado e a mesma dedicação de sempre. Mas é importante salientar que algumas coisas não mudam, uma delas é a nossa missão: causar um impacto notável na vida das pessoas. Do ponto de vista do negócio, a integração permitiu-nos reforçar a liderança da AbbVie na Imunologia e Hemato-Oncologia, explorar novas fronteiras nas Neurociências e entrar em áreas totalmente novas, como a Oftalmologia e a Medicina Estética. E mantemos, obviamente, outras importantes áreas para a AbbVie, como a Virologia, onde estamos determinados em eliminar a hepatite C até 2030 e outras áreas onde os doentes têm ainda poucas opções de tratamento. O crescimento proporcionado pela integração da Allergan permite-nos também continuar a fazer um forte investimento na investigação e desenvolvimento (I&D) de novos medicamentos inovadores. Assim, ao mesmo tempo que continuamos a ajudar as pessoas a viver melhor hoje, impulsionamos também as inovações de amanhã. Temos um longo legado histórico e estamos focados no presente, mas sempre de olhos postos no Futuro e em novas descobertas.

JM | No seu percurso profissional, foi diretor da Unidade de Imunologia, em Itália. A imunologia está no centro da investigação das promessas terapêuticas para doenças que necessidades não atendidas, em busca de fármacos com maior ganhos não só na sobrevivência, mas também impacto favorável na qualidade de vida, um endpoint cada vez mais valorizado. Nesse sentido, como apresenta e caracteriza a investigação mais recente levada a cabo pela AbbVie nas áreas de Oncologia e Hematologia, a respeito dos medicamentos inovadores?

AC | Na área da Oncologia e Hematologia, estamos determinados em transformar a forma como o cancro é tratado. A AbbVie está totalmente empenhada em melhorar os padrões de tratamento e gestão de cancros com necessidades não satisfeitas, permitindo aos doentes viver mais tempo e, sobretudo, viver melhor. Esta é a nossa grande missão nesta área. De facto, as doenças oncológicas são uma preocupação cada vez maior para as sociedades e ao longo dos últimos anos, o conhecimento sobre estas doenças tem aumentado exponencialmente.

Vivemos uma era de grande expectativa na Oncologia e Hematologia, com importantes avanços científicos que trazem uma esperança renovada em relação ao Futuro. Falando da AbbVie, fruto da grande aposta em investigação e desenvolvimento feita nos últimos anos, temos hoje aprovados tratamentos para a leucemia linfocítica crónica (LLC) e leucemia mieloide aguda (LMA), duas patologias onde existiam claras necessidades por satisfazer. Mas não queremos ficar por aqui…. Continuamos focados em atingir um melhor e mais longo controlo em vários outros tumores do sangue, como o linfoma não Hodgkin e o mieloma múltiplo (MM), e estamos a investigar soluções terapêuticas inovadoras para vários tumores sólidos. Continuamos incansáveis na nossa missão de procurar respostas para necessidades médicas não satisfeitas e temos atualmente um pipeline robusto, que vai ao encontro da nossa estratégia a longo prazo. Só em 2021, a AbbVie investiu 6,5 mil milhões de dólares em I&D, e desde 2013, ano de criação da companhia, o investimento foi de mais de 50 mil milhões de euros.

Grande parte desse investimento foi feito precisamente em Oncologia e Hematologia, por acreditarmos que existem ainda muitos descobertas por fazer. Neste momento, a nível global, estamos a investigar cerca de 20 medicamentos para mais de 20 tipos de cancro, em mais de 300 ensaios clínicos. Desde 2013, aumentámos o nosso número de programas de desenvolvimento clínico em Oncologia de seis para mais de 20.

JM | Que feedback têm recebido da comunidade médica?

AC | A receção da comunidade médica tem sido extremamente positiva tanto a nível global, como aqui em Portugal. Pouco a pouco a AbbVie tem vindo a afirmar-se nesta área que é ainda muito recente para nós, quando comparada com outras áreas históricas, como é a Imunologia. Penso que em poucos anos, conseguimos construir a nossa reputação junto da comunidade médica ligada à Hemato-Oncologia e que somos hoje vistos como um parceiro de confiança e de longo-prazo. Para isso, muito tem contribuído o nosso grande foco em investigação e desenvolvimento, pedras angulares do nosso negócio. Somos aliás um dos principais promotores de ensaios clínicos em Portugal, o que nos valeu o reconhecimento do Infarmed em 2019, e permitiu que médicos destas áreas pudessem tratar os seus doentes com os nossos medicamentos inovadores, ainda antes de estarem disponíveis no mercado. Hoje, temos a certeza que queremos continuar a apostar na Hematologia e Oncologia e que os médicos portugueses poderão contar connosco.

JM | Os medicamentos nas áreas acima referidas têm um peso substancial nas contas da Saúde, em termos com gastos em medicamentos, patentes nos dados do Infarmed. De que forma está a indústria farmacêutica, nomeadamente a AbbVie, a trabalhar fazer parte da equação para a solução da sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde?

AC | Somos uma empresa responsável, comprometida com a sustentabilidade da saúde e desenvolvimento socioeconómico do país. Queremos garantir o rápido acesso dos doentes aos medicamentos inovadores e melhorar os cuidados de saúde, mas sem comprometer a sustentabilidade da saúde a longo-prazo. Nesse sentido, no nosso trabalho diário, temos posicionado sempre a AbbVie como um parceiro de confiança junto das autoridades de saúde, numa abordagem marcada pela integridade, ética, transparência e espírito colaborativo. Temos plena consciência do grande desafio que temos pela frente e a sustentabilidade do SNS é, sem sombra de dúvida, uma preocupação para nós. Além da postura que assumimos no dia a dia, temos trabalhado em várias outras frentes, incluindo a promoção da literacia em saúde e a prevenção.

Temos também desenvolvido iniciativas e colaborações que promovem avanços no cuidado ao doente e na melhoria da prestação de cuidados de saúde, como é o caso do Prémio Healthcare Excellence, iniciativa que realizamos com a Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH). Sem esquecer a Conferência Sustentabilidade em Saúde, promovida pela AbbVie e onde todos os anos é apresentado o Índice de Saúde Sustentável, estudo desenvolvido pela NOVA Information Management School, que todos os anos mede a evolução da sustentabilidade do SNS.

Arrisco-me mesmo a dizer que a AbbVie tem sido um dos principais promotores da discussão pública em torno da sustentabilidade da saúde. Mas acima de tudo, temos plena consciência das nossas responsabilidades e de que este é um compromisso de todos. A colaboração é essencial para dar resposta ao desafio da sustentabilidade e, por isso, trabalhamos tão de perto com todos os nossos parceiros: autoridades, profissionais de saúde, associações de saúde, académicos, pares… Só trabalhando em equipa e com espírito de colaboração é possível transformar realmente a vida dos doentes e, simultaneamente, contribuir para a sustentabilidade.

 

Portugal Vs Itália: Diferenças e Semelhanças, nos Sistemas de Saúde, outros problemas comuns

 

JM | Assumiu o cargo de diretor-geral da AbbVie Portugal, em 2020. Vindo de Itália, quais foram as suas primeiras impressões quanto à realidade portuguesa na Saúde, no contexto da atividade da AbbVie.

AC | Acho que Portugal e Itália são muito semelhantes sob diversos pontos de vista, começando pela alma latina e amigável, o gosto pela boa comida e o bom vinho, a resiliência face às dificuldades (como demonstrado nos últimos dois anos) e a capacidade da população em adaptar-se e encontrar soluções inovadoras para os problemas. Há também semelhanças nos próprios sistemas de saúde, públicos e gratuitos, que contam com profissionais de saúde muito bem preparados e comprometidos, mas que ao mesmo tempo sofrem de um sub-orçamento crónico, que limita muito o seu potencial e impacta o acesso às tecnologias inovadoras e a qualidade dos cuidados, nomeadamente o tempo necessário para fornecer os serviços (vejam- -se as longas listas de espera em ambos os países). De acordo com dados da OCDE, em 2019, Portugal gastou 2.314 euros per capita em saúde, menos um terço do que a média da UE (3.521 euros). Já as despesas com saúde representaram, 9,5% do PIB, um valor que fica também abaixo da média da UE (9,9%). Quando olhamos para os tempos de acesso a medicamentos inovadores, os números não são mais animadores… Portugal é dos países na Europa em que os doentes esperam mais tempo para ter acesso a medicamentos inovadores. Segundo o relatório W.A.I.T, em Portugal, o tempo de acesso é de cerca de dois anos - 676 dias para ser mais exato, bastante mais do que a média europeia (511 dias).

Tanto em Portugal como em Itália, este sub-orçamento, principalmente ao nível dos hospitais, gera também diferenças e iniquidades regionais, que dependem de como cada hospital consegue lidar com as dificuldades e também da própria situação socioeconómica da população e da sua possibilidade de recorrer ao setor privado como alternativa. Claramente, as soluções para estes problemas comuns a muitos dos países europeus não são simples e precisam de planos a longo prazo, que tenham em conta múltiplos fatores, nomeadamente o envelhecimento da população e o avanço tecnológico, e que considerem orçamentos adequados e formas inovadoras de comparticipação.

JM | Fazendo uma retrospetiva, sente que tem conseguido atingir as metas que estabeleceu desde o primeiro dia? Quais são os seus objetivos para o futuro na liderança da companhia em Portugal?

AC | Quando vim para Portugal, em janeiro de 2020, a filial saía de um ano difícil em que perdeu mais de 30% da faturação, devido à perda da patente daquele que era na altura o produto mais importante da companhia, o que resultou numa restruturação importante da organização. Em conjunto com a equipa que lidera a filial, definimos como objetivo criar uma nova AbbVie em Portugal, através do lançamento dos produtos inovadores que vinham do nosso pipeline e da integração da Allergan, cuja aquisição tinha sido anunciada nos meses anteriores. Obviamente, a COVID-19 complicou-nos um pouco a vida, pois não foi fácil trabalhar virtualmente com uma equipa nova, um mês apenas depois de ter chegado ao país. Mas encontrei aqui uma equipa verdadeiramente excecional, que imediatamente ficou comprometida com o nosso objetivo e que trabalhou sem descanso, mesmo nos tempos difíceis dos confinamentos.

Depois de dois anos e meio, posso dizer que estou muito satisfeito com o que atingimos. Lançámos três novos produtos nas áreas da dermatologia, reumatologia e hematologia, e estamos a preparar mais quatro novos lançamentos, nos próximos dois anos, nas áreas da gastroenterologia, doença de Parkinson e enxaqueca. Convencemos a nossa casa mãe a investir mais em ensaios clínicos em Portugal e a nossa equipa de I&D, demonstrando profissionalismo e qualidade, conseguiu trazer mais 10 novos ensaios para o país em 2022. Simultaneamente, concretizámos com sucesso a integração da Allergan, trazendo para Portugal todos os recursos (e postos de trabalho) originalmente geridos a partir de Madrid, como Cluster Iberia. Além disso, nos últimos meses, estamos a trabalhar com os colegas espanhóis para o futuro desenvolvimento em Portugal da nossa divisão Allergan Aesthetics, área de negócio dedicada à Medicina Estética. “Last but not least” … Em termos de recursos humanos, crescemos em número de colaboradores e fomos reconhecidos como Great Place to Work, ocupando o segundo lugar no ranking das empresas entre 100 e 500 colaboradores. Ainda neste âmbito, prevemos continuar a desenvolver e crescer nos próximos anos graças aos produtos inovadores que continuam a sair do nosso pipeline.

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade

No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.

Mais lidas