Chronic Pain Care: um estudo feito no terreno para “sinalizar” a dor crónica
DATA
21/10/2022 08:59:34
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Jornal Médico
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Chronic Pain Care: um estudo feito no terreno para “sinalizar” a dor crónica

Conhecer a prevalência da dor crónica nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) foi o principal objetivo do estudo “Chronic Pain Care” – o primeiro do género em Portugal –, publicado no ano passado. Em entrevista ao Jornal Médico, o coordenador nacional do estudo, Filipe Antunes, médico fisiatra, devolve-nos a sua perspetiva sobre a “cronificação da dor”. O vice-presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED) aponta como positivo a crescente “procura de cuidados mais diferenciados nesta área de saúde”.

Jornal Médico (JM) | Que impacto teve a publicação deste estudo junto da comunidade médica, nomeadamente da Medicina Geral e Familiar (MGF)?

Filipe Antunes (FA) | O estudo que foi publicado em agosto de 2021 foi realizado no âmbito dos CSP, abrangendo 58 unidades de saúde em Portugal continental. Tendo estas características naturalmente despertou, e penso que continua a despertar, uma atenção redobrada da especialidade de MGF para as questões da dor crónica, particularmente no que diz respeito à documentação real e comprovação estimada da prevalência de dor crónica no nosso país.

JM | De acordo com este estudo, 33,6% dos doentes seguidos nos CSP têm dor crónica, um número superior à prevalência encontrada na maioria dos países europeus. Na sua perspetiva, o que pode explicar esta diferença?

FA | Sendo ligeiramente diferente, não é de todo uma realidade diferente. Se noutros países europeus a prevalência estará entre os 20 e os 25%, em Portugal, o valor estimado é ligeiramente superior. Ainda assim, diferente, para melhor, do que conhecíamos do trabalho anterior de 2012 (Luís Azevedo et al), no qual se verifica 36,7 % de prevalência total de dor crónica.

Talvez as questões culturais da nossa população, assentes muitas vezes em crenças ancestrais de “destino, fado ou cruz da vida” possam ser razões explicativas. Outras como a menor acessibilidade a cuidados gerais de saúde, a carência desses mesmos cuidados ou até mesmo o acesso dificultado a unidades de tratamento de dor, também podem explicar este valor relativamente a outros países europeus.

No entanto, o facto do valor encontrado ser menor relativamente ao que conhecíamos de 2012, pode indicar uma progressiva consciencialização dos prestadores de cuidados primários de saúde ou até da população em geral, mais cientes da realidade e do impacto da dor crónica na vida real de todos, que se repercute na procura crescente de cuidados mais diferenciados nesta área de saúde.

JM | O estudo constatou também que as principais zonas afetadas pela dor crónica são a zona lombar e os membros inferiores, semelhante ao panorama de outros países ocidentais. Do seu ponto de vista, o que explica estes achados?

FA | A biologia e anatomia humana por um lado e o ritmo de vida das sociedades ocidentais por outro.

A realidade de sermos animais bípedes faz com que necessariamente a coluna lombar (e a cintura lombo-pélvica) seja o ponto de sustentação da carga corporal, mas também o ponto charneira de sustentação e transição para a nossa capacidade de deambulação/marcha.

O ritmo crescente de trabalho e a exigência produtiva crescente das sociedades ocidentais atuais implicam sobrecarga a nível corporal, particularmente de bipedestação e de deambulação, que se repercutem depois na nossa saúde.

JM | O estudo conclui ainda que a dor crónica tem um impacto significativo na qualidade de vida destes doentes. Na sua opinião, isto pode ser explicado pela insuficiente sensibilização para a dor crónica, inércia terapêutica ou existem outras causas? O que pode ser feito para melhorar esta realidade? 

FA | De tudo um pouco. Necessariamente de não termos um sistema de saúde preparado para a doença crónica, quando a dor crónica assume uma prevalência estimada elevada e com impacto negativo na população, particularmente na população idosa e solitária. Mas também o facto de não termos sinalizado a dor crónica como prioritária na abordagem das pessoas, não a sinalizando nos indicadores de saúde. Também a inércia terapêutica por parte de todos os agentes de saúde, desvalorizando a cronificação da dor e apenas validando a dor aguda, podem explicar os valores encontrados.

A dor crónica tem um impacto negativo na qualidade de vida dos doentes, estando associada a ansiedade e depressão, duas realidades importantes na cronificação da dor e que se refletem em termos produtivos (e de eventual desperdício em termos económicos). A dor crónica também está associada à realização de meios complementares de diagnóstico inconsequentes e inúteis na qualidade e na efetividade do serviço prestado.

JM | Na sua opinião, qual a principal mais-valia deste estudo e do conhecimento mais profundo que agora temos sobre a dor crónica nos CSP?

FA | O estudo é uma fotografia da realidade vivenciada naquele tempo e naqueles locais. Claro que podemos e devemos extrapolar para a nossa realidade (de cada prestador, de cada instituição).

Devemos ter em mente a alta prevalência e os custos associados à cronificação da dor, particularmente se não prestarmos cuidados de saúde eficazes na melhoria de qualidade de vida dos cidadãos.

Não aponta nem recomenda medidas de implementação nos CSP, mas alerta para uma realidade tantas vezes desvalorizada, embora sempre tão presente e que não valorizamos.

Despertar as consciências de quem decide, de quem tem poder para mudar efetivamente as coisas, para colocar a dor crónica como um dos pilares centrais da doença crónica, parece-me a mais-valia deste trabalho, realizado no terreno (não em ambiente de laboratório ou de secretária) e envolvendo um número elevado de prestadores de saúde e utentes em Portugal, uma raridade nos tempos que correm.

You've got mail! - quando um aumento da acessibilidade não significa melhoria da acessibilidade
Editorial | António Luz Pereira, Direção da APMGF
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No ano de 2021, foram realizadas 36 milhões de consultas médicas nos cuidados de saúde primários, mais 10,7% do que em 2020 e mais 14,2% do que em 2019. Ou seja, aproximadamente, a cada segundo foi realizada uma consulta médica.

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