Joana Gonçalves de Sá: Por que motivo são partilhadas fake news?
DATA
16/12/2022 09:19:48
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Jornal Médico
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Joana Gonçalves de Sá: Por que motivo são partilhadas fake news?

Usar a desinformação como um sistema de modelo para estudar comportamentos relacionados com a partilha de notícias falsas é um dos objetivos da pesquisa de Joana Gonçalves de Sá. A professora universitária levou este tema ao Congresso Nacional de Pediatria, da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), que decorreu de 26 a 28 de outubro, no Porto. Saiba mais na edição 136 do Jornal Médico. 

A Conferência “Fake News” foi proferida por Joana Gonçalves de Sá. Licenciada em Engenharia Física Tecnológica, a oradora desenvolveu a tese de doutoramento em Biologia de Sistemas em Harvard, nos EUA, é investigadora e professora associada convidada do Instituto Superior Técnico e foi convidada para falar sobre a sua investigação na área da desinformação no 22.º Congresso Nacional de Pediatria.

O trabalho de investigação de Joana Gonçalves de Sá consiste em usar a desinformação como um sistema modelo. “Da mesma maneira que um ratinho é estudado num laboratório, para perceber uma doença humana, com a desinformação queremos perceber enviesamentos de comportamentos”, explicou.

“Pensamos na desinformação como se fosse um vírus. Depois temos os hospedeiros, que podem ter diferentes níveis de suscetibilidade. Por exemplo, uma pessoa pode ser suscetível a desinformação na área da política e não sobre saúde. Ou seja, temos de ter diferentes tipos de humanos, com diferentes tipos de suscetibilidade, que pode ser causada por questões psicológicas ou não”, acrescentou.

O grupo de trabalho é multidisciplinar e composto por cerca de 14 elementos, embora não seja um número sempre fixo. Alguns investigadores trabalham na área da saúde e outros na área do comportamento e desinformação.

A investigação é, assim, realizada a três níveis: desinformação através de uma base de dados de diferentes tipos de fake news; estudos com humanos com inquéritos; pessoas no seu habitat natural, sendo extraídos dados das redes sociais, dos amigos e observado a que é que as pessoas estão expostas e se partilham a informação. “Usamos um modelo matemático, para juntar toda a informação, que é muito semelhante aos estudos desenvolvidos em Epidemiologia.

O objetivo é tentar perceber como se espalha a informação”, disse a oradora, que se focalizou na desinformação e o que torna os humanos suscetíveis.

Qual a definição de Fake News? 

A preletora avançou com a conferência referindo haver muitas definições de fake news. O seu grupo de investigação define como “informações falsas que podem ter imensas origens”. “Muitas pessoas pensam imediatamente em desinformação política, mas há imensa desinformação, nomeadamente em saúde, que não é óbvia”, pormenorizou a docente, que mencionou a existência do clickbait, que “não tem objetivo nenhum em termos de impacto social, mas tem o efeito de as pessoas clicarem e automaticamente o website ganha dinheiro. Não é necessariamente falso”.

A investigadora Joana Gonçalves de Sá sublinhou que a desinformação não é nova, porém, disse que consideram que “há uma espécie de ‘tempestade perfeita’, porque agora é muito fácil, é barato e consegue- se chegar a muitas pessoas. Espalha-se muito bem nas redes sociais e há incentivos financeiros. É muito fácil produzir e partilhar desinformação”.

Razões que levam a partilhar desinformação 

Existem diferentes hipóteses que levam as pessoas a partilharem desinformação, segundo Joana Gonçalves de Sá. “O excesso de confiança e o facto de não querer pensar são dois dos motivos. Também há a questão de acreditar naquilo que se quer acreditar ou acreditar naquilo em que os amigos acreditam.”

A docente defendeu que geralmente quando uma pessoa acredita em algo, “é muito difícil mudar de opinião” e “procura evidência que confirme aquilo em que acredita”. Se surge algo em contrário, “o espírito humano ignora ou despreza para que a sua opinião fique inviolada”. Esta ideia já era explorada por Francis Bacon, mas, no entender da oradora, “hoje é uma ideia mais fácil de colocar em prática, devido ao acesso à informação. No Google é possível encontrar sempre algo que confirme as opiniões”.

A oradora fez referência a um grupo de investigadores, que analisou notícias e verificou que as notícias falsas difundiam-se mais rápido e mais profundamente do que a verdade. Nesta sequência, mencionou que “os robots aceleram a difusão de notícias falsas”. Esse grupo também analisou as emoções associadas à desinformação partilhada e “verificaram que quanto mais surpreendente/chocante era a informação, mais partilhada era”. Posto isto, a oradora questionou se não haveria um “interruptor que alerta para a estranheza da informação” e por isso colocar em causa a mesma.

“Deveríamos duvidar mais e não menos”, afirmou. Em relação à autoconfiança, a preletora disse que a sua equipa trabalha com o modelo da metacognição perfeita. “É a ideia de que devia haver uma relação linear entre aquilo que sabemos e aquilo que achamos que sabemos”, notou e falou no efeito de Dunning-Kruger, que está também relacionado com a confiança. Ainda sobre este tópico, destacou: “Criámos uma medida que não é perfeita mas que permite avaliar a confiança de outra forma. É um sistema, que usa uma métrica para aferir confiança.”

Para sumarizar, Joana Gonçalves de Sá indicou que “todas as pessoas são suscetíveis, mas precisam de abordagens que sejam multidisciplinares para perceber os diferentes componentes”. Além disso, referiu que “é necessária tecnologia e haver a regulação de plataformas”, assim como “educação e discussão pública”. Terminou a intervenção com a ideia de que “se é estranho de mais para ser verdade, provavelmente é mentira”.

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