Inês Azevedo: Saúde e bem-estar, físico e mental, leva pediatras a discutirem diferentes modelos de prestação de cuidados em congresso
DATA
16/12/2022 10:31:24
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Jornal Médico
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Inês Azevedo: Saúde e bem-estar, físico e mental, leva pediatras a discutirem diferentes modelos de prestação de cuidados em congresso

A presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), Inês Azevedo, partilha com o Jornal Médico a apreciação global do congresso nacional focado na Medicina dirigida à criança e adolescente. Além das infeções de relevância na Pediatria, a pediatra destaca o papel dos profissionais de saúde na prestação de cuidados e o dever de estarem informados sobre determinadas tendências, das quais são exemplo a utilização precoce das redes sociais por parte das crianças e jovens e o impacto que isso tem na própria Saúde Mental. Saiba mais na edição 136 do Jornal Médico.

Jornal Médico (JM) | Ao congresso da SPP, no Porto, atenderam mais 1300 pessoas. Que feedback tem recebido desta significativa afluência?

Inês Azevedo (IA) | O 22.º Congresso Nacional de Pediatria foi o primeiro evento inteiramente presencial depois do interregno imposto pela pandemia, durante o qual os congressos foram digitais ou mistos. A afluência de mais de 1300 participantes revela o enorme interesse por este congresso, organizado pela segunda maior sociedade científica do país. Foi um momento de reencontro especial em que se verificou a participação muito ativa dos associados nas sessões científicas.

JM | Do programa volta a sobressair a questão da Saúde Mental, considerando que estes últimos anos está marcado com acontecimentos disruptivos, como a pandemia, a guerra, as manifestações de ordem climática, a emergência do cyberbullying. De que forma estes acontecimentos podem já estar a impactar a saúde das crianças?

IA | Enquanto nos anos transatos a nossa atenção esteve focada nos efeitos diretos da infeção por SARS-CoV-2, este ano procuramos analisar e encontrar soluções para o problema da Saúde Mental das nossas crianças, que foi agravada durante a pandemia, como mostram alguns dados preocupantes apresentados no congresso.

JM | A diretora executiva da UNICEF, Beatriz Imperatori, foi a figura central da conferência inaugural do 22.º Congresso Nacional de Pediatria. Como surgiu a oportunidade deste convite?

IA | Tendo a SPP como missão a proteção da criança, desde sempre tem trabalhado com parceiros da Sociedade que têm objetivos comuns. Esta ligação é natural e surgiu este ano na sequência de interações para a promoção da vacinação e de resposta à situação de guerra na Europa.

JM | As “fake news” e os efeitos da desinformação tiveram sessão própria. Como se está a refletir, no contexto do consultório, e na comunicação com os pais, a circulação de conteúdo não credível? Como devem agir os profissionais de saúde?

IA | Os profissionais de saúde têm o dever de se manter informados sobre o impacto das redes sociais nos jovens e nos pais e de, juntamente com outros intervenientes, nomeadamente da área da educação, ensinar estratégias que permitam diminuir a divulgação de notícias falsas. É fundamental fornecer informação credível e cientificamente validada para contrapor os argumentos elencados por pessoas sem formação adequada e saber divulga-la ativamente nos contactos com as crianças e com os pais, sobretudo no respeitante aos pontos mais relevantes para a saúde e bem-estar. Como sociedade também temos procurado melhorar a divulgação das informações credíveis nas redes sociais, nomeadamente através do Portal Criança e Família e das nossas redes sociais, mas reconhecemos que ainda temos um longo e difícil caminho a percorrer para atingirmos os nossos objetivos.

JM | Nesta hora de balanço, o que entende dever destacar por mais significativo, quantitativa e qualitativamente, do 22.º Congresso Nacional de Pediatria?

IA | Neste congresso destacamos a oportunidade de reencontro pessoal e o enorme interesse na formação, traduzido pela elevada afluência às sessões científicas. Além da COVID-19 e do seu impacto direto e indireto, falou-se de outras infeções com enorme relevância em Pediatria, como é o caso do vírus sincicial respiratório, da intervenção em doenças crónicas comuns ou raras e complexas, de temas basilares como nutrição, vacinação e neurodesenvolvimento, das redes sociais e de Saúde Mental. Discutiram-se ainda diferentes modelos de prestação de cuidados de saúde prestados às crianças na Europa, aspetos formativos e de avaliação nos internatos médicos e a qualidade dos cuidados prestados aos doentes.

JM | Que comentário faz volume e temática dos trabalhos aceites e apresentados neste congresso, vários dos quais premiados. Há tendências a assinalar no rumo da investigação feita nos Serviços?

IA | O volume dos trabalhos superou as nossas expectativas e os trabalhos com melhor qualidade científica foram apresentados em horários nobres, para permitir a divulgação do que melhor se faz nos nossos serviços de pediatria em prol da saúde da criança. Temos parcerias de longa data que nos permitem premiar os melhores trabalhos, nas diferen tes áreas da Pediatria e em particular em doenças infeciosas, e incentivar os nossos internos e jovens especialistas a prosseguir os seus projetos.

JM | No contexto da articulação com os Cuidados de Saúde Primários, quais as áreas nas quais em crianças e adolescentes se está a notar maiores resultados? E em que outras, se identificadas, há uma necessidade de melhorar protocolos?

IA | Na última década temos trabalhado com a Associação de Medicina Geral e Familiar (AMGF) na área da formação, de que são exemplos no último triénio o acesso ao Curso de Formação Contínua de Pediatria, a atribuição de bolsas de inscrição no nosso congresso, ou a participação conjunta em sessões dos congressos nacionais de ambas as sociedades ou nas reuniões do Grupo de Estudos de Doenças Respiratórias da AMGF,

mas existe seguramente necessidade de continuar a trabalhar melhor a referenciação e a ação conjunta no terreno, ações que não dependem diretamente da intervenção das sociedades científicas.

JM | A Sociedade Portuguesa de Pediatria homenageou o Dr. Júlio Bilhota Xavier concedendo-lhe o Prémio Carreira. No seu entender, que qualidades e exemplos deve a nossa geração de especialistas retirar destas personalidades marcantes da Medicina?

IA | O Prémio Carreira é atribuído, por proposta dos associados, a pediatras membros da SPP como reconhecimento pelo elevado mérito das suas atividades na prática clínica, no ensino e formação, na investigação, ou em qualquer combinação das mesmas na área da Pediatria. A inteligência, capacidade de intervenção e de liderança, espírito crítico, pró-atividade e resiliência são algumas das qualidades que lhes permitiram melhorar os cuidados de saúde prestados às crianças e devem servir-nos como fonte de inspiração e exemplo.

JM | A título pessoal, o que tem retirado desta experiência de liderar um evento desta dimensão, com tantos grupos e comissões envolvidas?

IA | Os congressos nacionais de Pediatria são organizados pela direção da SPP com o auxílio das 19 secções e sociedades da SPP, comissões e grupos de trabalho, pelo que os temas tratados são vastos e muito abrangentes. A direção da SPP tem a enorme responsabilidade de escolher entre os temas propostos, todos eles de grande relevância para a saúde da criança. Durante a pandemia atravessamos grandes dificuldades, nomeadamente no primeiro ano, em que para além de estarmos como médicos no terreno, tivemos de apostar na formação através dos meios digitais, uma área que nos era distante e representou um grande desafio em termos organizativos.

Foi um enorme privilégio poder trabalhar com os meus colegas da direção SPP e das direções das comissões e grupos de trabalho, que sempre nos apoiaram em todas as decisões, por mais desafiantes que fossem. Pela colaboração que sempre senti, estou certa que a SPP continuará a ter um papel de enorme importância em defesa da saúde e bem-estar das crianças.

JM | Já existe data marcada para 23.º Congresso Nacional de Pediatria?

IA | Tudo indica que o 23.º Congresso Nacional de Pediatria irá realizar-se de 25 a 27 de outubro de 2023.

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Editorial | Jornal Médico
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