Ana Eulálio: “A S. aureus constitui atualmente a primeira causa mais comum de morte associada à resistência antimicrobiana em Portugal”
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28/12/2022 11:19:53
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Jornal Médico
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Ana Eulálio: “A S. aureus constitui atualmente a primeira causa mais comum de morte associada à resistência antimicrobiana em Portugal”

Um novo estudo liderado por cientistas do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC-UC), agora publicado na revista científica Nature Communications, revela que a bactéria Staphylococcus aureus (S. aureus) tem um estilo de vida intracelular predominante, o que pode justificar a mudança dos critérios clínicos para escolha de antibióticos contra esta bactéria. Ana Eulálio, coordenadora do estudo, esteve à conversa com o Jornal Médico. Leia a entrevista na íntegra.

As principais fontes de contaminação e transmissão do Staphylococcus aureus (S.aureus) são o “contato direto pessoa a pessoa, através de objetos contaminados ou, menos frequentemente, pela inalação de gotículas”, salienta a especialista.As pessoas com maior risco de desenvolver uma infeção por S. aureus são aquelas com “feridas abertas, queimaduras ou doenças graves da pele, imunodeprimidos, doentes em pós-operatório recente, com próteses ou com cateteres.”

Associado ao S. aureus, uma bactéria comensal da pele e das fossas nasais, estão associadas “doenças, desde infeções cutâneas simples até bacteriemia e infeções graves como abcessos, celulite, pneumonia, osteomielite, endocardite, entre outras”.

De acordo com Ana Eulálio, “a escolha do antibiótico para o tratamento da infeção por S. aureus depende de vários fatores, incluindo o tipo e local da doença, padrão de suscetibilidade aos antibióticos do isolado de S. aureus, perfil do doente e potenciais efeitos adversos do tratamento”.

O S. aureus “desenvolveu resistência aos vários tipos de antibióticos que foram sendo sucessivamente introduzidos na prática clínica, nomeadamente penicilina, meticilina, vancomicina, linezolide e daptomicina. Este facto é naturalmente preocupante e dificulta enormemente o tratamento de infeções por S. aureus”, salienta.

Quando questionada acerca da multirresistência do S. aureus aos antibióticos convencionais e da ameaça que isso representa, a coordenadora do estudo é clara: “O aparecimento de isolados multirresistentes a antibióticos, como o S. aureus resistente à meticilina (MRSA), dificulta grandemente o tratamento de infeções por esta bactéria. Dados recentemente publicados (correspondentes ao ano de 2019) revelaram que o MRSA constitui, atualmente, a segunda causa mais comum de morte associada à resistência antimicrobiana a nível mundial, e a primeira em Portugal”.

“A demonstração de que a grande maioria dos isolados clínicos de S. aureus é intracelular (98% no nosso estudo), tem implicações relevantes para o tratamento destas infeções, uma vez que muitos dos antibióticos usados na prática clínica são ineficazes contra agentes patogénicos intracelulares. Assim, mesmo nos casos em que os isolados apresentam suscetibilidade aos antibióticos no antibiograma, a ausência do seu efeito intracelular pode levar à falência do tratamento, ou a infeções recorrentes ou crónicas”, o que permite conduzir a uma maior eficácia no tratamento de infeções por S. aureus.

“O nosso estudo sugere que a escolha de uma terapêutica eficaz para eliminar definitivamente o S. aureus deverá considerar, não apenas o perfil de suscetibilidade deste agente aos antibióticos, como acontece atualmente, mas deverá também ter em conta o perfil intracelular do S. aureus e a eficácia relativa dos diferentes antibióticos neste contexto”, conclui Ana Eulálio.

 

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