Frederico Rosário: Álcool, esse consumo esquecido e negligenciado
DATA
09/01/2023 09:41:33
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Jornal Médico
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Frederico Rosário: Álcool, esse consumo esquecido e negligenciado

Em Portugal, o consumo de álcool continua maioritariamente a ser avaliado com base na quantificação das gramas de álcool. Para Frederico Rosário, é um “método válido”, contudo, apresenta “algumas limitações”. Apologista do abandono do termo “alcoolismo”, o médico de família tem vindo a apresentar no País, mas também no estrangeiro, as conclusões a que chegou com a sua investigação muito incidente nas intervenções breves junto de pessoas com problemas ligados ao álcool no âmbito dos cuidados de saúde primários (CSP). Saiba mais na edição 137 do Jornal Médico. 

O termo “alcoolismo” é um termo praticamente em desuso e que aliás a Organização Mundial de Saúde (OMS) aconselha a não utilizar, segundo o médico de família Frederico Rosário, que coordena a USF Tondela. Mencionando a designação correta – “problemas ligados ao álcool (PLA)” – o médico explica que “a origem e o significado da palavra alcoolismo não reflete o que se pretende atualmente”, até porque é uma palavra “mais ligada à dependência” e os PLA são “muito mais”, ou seja, “há pessoas que não são dependentes, mas a quantidade que bebem coloca-as em risco de virem a desenvolver problemas relacionados com o álcool, como por exemplo acidentes de viação, violência doméstica, criminalidade ou cirrose hepática”. 

Além de exercer Medicina Geral e Familiar (MGF), Frederico Rosário é investigador, tendo participado em alguns projetos nacionais e internacionais. Partilha que iniciou uma das investigações na área dos PLA em 2013, quando começou o doutoramento, tendo um “forte incentivo” da sua orientadora de tese, Cristina Ribeiro, presidente do Grupo de Estudos de Comportamentos Aditivos (GEsCAd) da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). O médico começou, no entanto, a contactar com a área quatro anos antes, quando traduziu guidelines europeias, no âmbito do projeto PHEPA (“Integrating Health Promotion interventions  for Hazardous and Harmful Alcohol Consumption into Primary Health Care Professional`s Daily Work”), projeto este coordenado em Portugal por Cristina Ribeiro.

“É uma área esquecida e negligenciada”, comenta o coordenador da USF Tondela, considerando os PLA “um parente pobre das substâncias aditivas”. Confrontado com a possibilidade de estar relacionado com a aceitação social do consumo de bebidas alcoólicas, o médico aceitou ser uma “explicação possível”, lembrando a existência de substâncias lícitas e ilícitas. “O álcool, como o tabaco, é uma substância lícita, que é comercializada. No tabaco houve um percurso feito durante muitos anos e é hoje claramente aceite pela sociedade que fumar faz mal. Já em relação ao álcool ainda persiste a ideia que beber um copo até é saudável. Com estes falsos conceitos torna-se mais complexo demonstrar ao utente o risco associado ao consumo de bebidas alcoólicas. Só quando as pessoas manifestam dependência ou consequências físicas evidentes é que se olha mais para o problema”, fundamenta, referindo que os estudos mostram que no âmbito dos CSP “se questionam os utentes sobre o consumo de álcool menos vezes do que para outros fatores de risco modificáveis”.

Fundamento baseado na investigação

O fundamento de Frederico Rosário vai ao encontro da sua linha de investigação, que tem um grande enfoque nas intervenções breves na área dos PLA. O clínico refere que neste campo de ação “a evidência científica mostra que as taxas de deteção são baixas”, sendo também baixas “as taxas de intervenções breves junto das pessoas que consomem bebidas alcoólicas”.

Segundo a literatura, “uma em cada 10 pessoas com consumo excessivo de álcool reduz o consumo para níveis considerados de baixo risco acrescido, traduzindo-se esta redução na prevenção de uma em cada três mortes relacionadas com o álcool”, diz o médico, referindo que os dados atuais não suportam a definição de “consumo [de álcool] minimamente seguro”. Por outro lado, ressalva que “mesmo havendo conhecimento acerca da evidência e do impacto significativo das intervenções breves, estas não são, por regra, aplicadas na prática”. 

A tese de doutoramento de Frederico Rosário incidiu na possibilidade de introduzir na prática clínica as intervenções breves, que são defendidas pela OMS e sobre as quais existe uma Norma de Orientação Clínica da Direção-Geral da Saúde (DGS). “Usámos um modelo de modificação comportamental – “Behaviour Change Wheel” – depois de identificarmos as barreiras indicadas por médicos e enfermeiros nos CSP, que contribuem para que não sejam realizadas de forma sistemática a identificação precoce dos consumos e as intervenções breves na área dos PLA [artigo disponível em https://doi.org/10.1186/s13012-020-01073-0]. Usámos este modelo de modificação comportamental como racional teórico para elaborar um programa de implementação da deteção precoce e intervenções breves para o consumo de álcool na prática clínica, programa esse que inclui formação específica nesta área, bem como suporte à prática clínica [programa disponível em https://doi.org/10.1093/fampra/cmy062]. Este modelo foi testado em 12 unidades de saúde do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES)  Dão Lafões, entre fevereiro de 2017 e fevereiro 2018.”

A conclusão a que Frederico Rosário chegou juntamente com a equipa com que trabalhou surge num artigo publicado na “melhor revista científica da área”, a Addiction (https://doi.org/10.1111/add.15782), indica o médico. “Conseguimos aumentar as taxas de rastreio no grupo experimental em comparação com o grupo de controlo em 134 vezes e a taxa de intervenções breve 34 vezes. Tivemos estes ganhos fantásticos, que se traduziram no aumento dos rastreios e dos aconselhamentos dos utentes que receberam a intervenção”, menciona, não escondendo o orgulho de ter sido convidado para apresentar os resultados obtidos no âmbito do projeto em eventos da OMS em Portugal e no estrangeiro. “Mostramos que é possível incluir as intervenções breves na prática clínica. Mas, a implementação é difícil porque é uma área que não recebe mediatismo, não há indicadores contratualizados. No âmbito dos CSP, o tabaco tem cerca de seis indicadores que contam para o desempenho e o álcool tem apenas dois e nenhum deles inclui a ferramenta AUDIT, que é recomendada pela Norma da DGS e pela OMS. Ou seja, ainda continuamos a medir a nossa atividade pela quantificação das gramas de álcool, que é um método válido, mas com algumas limitações”, evidencia o médico de família.

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Editorial | Jornal Médico
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