João Marques: Tolerância ao álcool conduz à desvalorização da problemática associada ao consumo
DATA
11/01/2023 09:20:19
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Jornal Médico
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João Marques: Tolerância ao álcool conduz à desvalorização da problemática associada ao consumo

O investimento ao nível do tabagismo, no âmbito dos cuidados de saúde primários (CSP), não existe na área dos problemas relacionados com o álcool, sublinha o médico psiquiatra João Marques, que preside a Sociedade Portuguesa de Alcoologia (SPA). Exerce Psiquiatria na Casa de Saúde de Santa Catarina, no Porto, e no Instituto Cuf do Porto, e aponta haver uma “desvalorização enquanto problemática”, que é motivada pela “tolerância à substância álcool”. Saiba mais na edição 137 do jornal Médico.

Jornal Médico (JM) | Há três anos assumiu a presidência da Sociedade Portuguesa de Alcoologia (SPA). Que significado atribui a esta liderança?

João Marques  | Quando falamos de substâncias psicoativas, o consumo de álcool é um dos principais problemas do nosso País. Contudo, a questão da dinâmica do álcool e problemáticas associadas ao seu consumo são muito pouco relevadas ou faladas. Assumir a presidência da SPA significou permitir trabalhar esta questão, trazendo-a à opinião pública e discutindo-a entre pares. 

JM | De que forma é que este assunto tem sido introduzido no seio da classe médica e junto da população em geral?

João Marques | A SPA investiu em algumas linhas essenciais. Em primeiro lugar, iniciou a organização de uma reunião científica anual, em que juntamos os profissionais, nacionais e internacionais, de maior relevância, na prática clínica, na área do álcool, desde médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, com o intuito de haver uma partilha de conhecimentos e experiências; no primeiro ano não foi possível realizar este evento, devido à pandemia por COVID-19, já no segundo ano realizámos uma reunião presencial no Porto e este ano temos agendado para novembro um encontro, em Lisboa, que está a ser organizado em conjunto com o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (Hospital Júlio de Matos), e a sua Unidade de Alcoologia e Novas Dependências .

Em segundo plano, criamos pontos de intervenção, como o relançamento da Revista Portuguesa de Alcoologia, uma publicação científica, de periodicidade quadrimestral, que já tinha sido editada, mas foi descontinuada. Houve um grande interesse e uma forte participação, com o envio de trabalhos para a Sociedade, com o objetivo de serem publicados. Estamos a preparar a quinta edição e no encontro que já mencionei serão apresentados os trabalhos de maior impacto. 

A terceira linha está relacionada com a dinâmica de fazer chegar o assunto à opinião pública. Temos trabalhado em conjunto com algumas instituições, nomeadamente câmaras municipais e juntas de freguesia, instituições de saúde e os media, no sentido de promovermos ações destinadas a abordar a problemática do álcool.

Falta-nos um ponto essencial que é a formação. Gostaríamos de conseguir organizar atividades formativas dirigidas a técnicos. As ações de formação específicas nesta área deixaram de existir há muito tempo. Contudo, já demos o pontapé de saída com a realização de algumas reuniões formativas a nível dos cuidados de saúde primários (CSP), com grande adesão e sucesso.

JM | A abordagem dos problemas relacionados com o álcool acontece também no âmbito dos CSP. Que ligação tem a SPA com os profissionais dos CSP?

João Marques | É uma ligação que tem muita importância em existir. Os CSP são a linha da frente do diagnóstico e do tratamento em todas as patologias e ainda mais nas adições. Todavia, há um afastamento dos problemas do álcool, algo que tem vindo a ser discutido. Ainda assim, procuramos que nas nossas reuniões e na Revista Portuguesa de Alcoologia haja divulgação de trabalhos de profissionais dos CSP. A SPA também participa em jornadas e congressos de Medicina Geral e Familiar (MGF), onde partilhamos conhecimentos na área das adições. O próximo passo é mesmo a formação.

JM | Que retrato faz do consumo de álcool em Portugal?

João Marques | É o retrato mais negro que podemos ter, porque Portugal é dos países com maior consumo per capita de álcool, a nível mundial. O último inquérito mostrou que entre os 15 e os 75 anos, quase 90% dos portugueses já experimentou ou já usou álcool, o que é imenso. Experimentar, como é óbvio, não é doença, mas é com a experimentação que se pode iniciar o processo da adição e, na verdade, há um número muito elevado de pessoas a experimentar a substância álcool quando comparado com outros países. Além disso, culturalmente, temos uma relação muito grande com o álcool, somos produtores de bebidas alcoólicas e sempre observamos pais e avós a consumir o álcool sem qualquer preocupação. Hoje, já há uma certa preocupação com o consumo. Embora recente e muito lenta, já é uma evolução na forma como é encarado o consumo de bebidas alcoólicas.

JM | Quando é que se pode falar em problemas com o uso do álcool ou dependência em comparação com experimentação ou consumo social?

João Marques | Beber ou consumir álcool não significa que exista um problema ou uma doença. Falar em problemas com o uso de álcool implica um conjunto de critérios de diagnóstico. O problema começa quando a relação com a substância começa a ser complexa quer em termos de controlo do que se bebe, quando se bebe, como se bebe e a repercussão deste consumo. Segundo a OMS não existe um padrão de consumo de álcool que seja absolutamente seguro. Existem diferentes diretrizes que tentam definir um consumo de baixo risco ou moderado. Uma das mais divulgadas consiste na recomendação de consumo máximo de duas unidades de bebida padrão no caso do sexo masculino, até aos 65 anos, e posteriormente apenas uma unidade de bebida padrão. Para o sexo feminino a recomendação é de apenas uma unidade de bebida padrão no máximo e independentemente da faixa etária. Outra recomendação, em ambos os sexos, seria a ausência de consumo durante dois dias numa semana, minorando o risco associado. Em relação à dependência, verifica-se quando não se consegue parar de consumir, por exemplo apresentar sintomas da privação do consumo de álcool ao acordar, que só desaparecem com o consumo.

Trata-se, assim, de uma linha que começa com o consumo social, continua com a ideia do consumo nocivo e, a partir de determinada altura, uso abusivo e dependência. 

JM | Considera que os profissionais dos CSP estão aptos, de um modo geral, para detetar, atuar na área da prevenção e referenciar, ou necessitam de mais formação?

João Marques | Para a questão de detetar o problema, penso que estão preparados. A questão é estarem ou não despertos para o assunto. Na área do consumo de álcool, a desvalorização enquanto problemática é transversal a todas as especialidades médicas. Nós médicos só começamos a olhar para este problema mais tarde, mesmo apesar de termos um conjunto de conhecimentos que nos permite detetar. Atuar tardiamente está relacionado com a tolerância à substância álcool. 

O diagnóstico tardio deve-se também à inexistência de programas de formação. Nos CSP não é feito o mesmo investimento que é feito com o tabagismo, através da necessidade de diagnosticar, tratar e criar consultas específicas para a cessação tabágica. Em tempos, houve motivação e interesse para a criação de consultas dirigidas para o problema do álcool, mas foi desaparecendo e hoje é quase residual o número de colegas dos CSP que dedica parte do seu tempo à problemática. A culpa é nossa, porque houve um desinvestimento, mas é também fruto das políticas, pois, nas adições, o álcool parece ter ficado na terra de ninguém. No passado a Alcoologia dispunha de equipas técnicas especializadas, de estruturas de tratamento específicas nas Unidades de Alcoologia, porém, ao longo dos últimos 10 anos, essas equipas têm vindo a desaparecer e hoje são muito disfuncionais, porque os técnicos foram saindo e não houve mais investimento. É necessário um novo investimento. 

JM | Como encara o combate ao consumo de álcool no futuro?

João Marques | Apesar de estarmos muito aquém de onde deveríamos estar e de continuarmos a não ter um investimento por parte das estruturas governamentais, especificamente das estruturas da Saúde, na área dos CA e especificamente no álcool, a iniciativa e o input que demos na SPA, bem como a adesão, está a gerar um grande otimismo. 

JM | O crescimento de uma organização científica deve-se muito à participação e contributo dos sócios. Quem são os sócios da SPA?

João Marques | A SPA tinha cerca de 300 sócios, contudo apenas em lista. Neste momento, temos cerca de 120 sócios ativos, que estão presentes, participam nas reuniões, pagam as quotas e manifestam interesse pelas atividades e trabalho desenvolvidos. Para ser sócio da SPA, é feita uma proposta, que é avaliada e depois validada. Normalmente, o privilégio é dado a quem trabalha na área da alcoologia, desde médicos de MGF, de Psiquiatria e de Gastrenterologia, mas também profissionais de Enfermagem, psicólogos, assistentes sociais e outros técnicos de saúde. 

JM | É também com otimismo que vê o futuro da SPA?

João Marques | Um futuro bastante risonho. Em pouco tempo, conseguimos suscitar o interesse e a adesão de muitos colegas, o que nos motiva. A dinâmica da Sociedade tem chegado bastante longe, principalmente ao nível da MGF, em que houve um interesse para trabalharmos em conjunto planos de formação, entre outras iniciativas e partilhas de conhecimento na área dos problemas ligados ao álcool. Espero que a SPA continue a crescer, com mais sócios, para começarmos a falar de uma forma mais robusta e significativa desta problemática. Pretendemos também começar a trabalhar linhas de abordagem aos doentes e programas terapêuticos, isto porque não temos nenhuma linha de orientação, abordagem e tratamento partilhada por vários técnicos. É uma mais-valia em toda e qualquer área e o álcool não é exceção. 

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Editorial | Jornal Médico
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