“Há muito a fazer para reduzir o sofrimento e mortalidade causada por estas doenças”. As palavras são do presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC), Manuel Carrageta, no âmbito da celebração do 40º aniversário da Fundação. Em entrevista ao Jornal Médico, o especialista em cardiologia reflete sobre o passado e o presente, destacando a necessidade de estratégias futuras para combater as doenças cardiovasculares, a maior causa da mortalidade na população portuguesa.

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terça-feira, 05 novembro 2019 16:21

Manuel Carrageta: “A IC é uma perigosa epidemia”

Consciente de que a insuficiência cardíaca (IC) é uma “perigosa epidemia”, a Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC) procurou sensibilizar a população portuguesa, ao longo do mês de maio, para o impacto desta doença a nível nacional. O mote da campanha Maio, Mês do Coração – “Insuficiência cardíaca: Liberte o seu coração” – pretende alertar para este problema crescente que afeta cerca de 400 mil portugueses e mais de 15 milhões de pessoas em toda a Europa.

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“A insuficiência cardíaca (IC) é uma das epidemias do século XXI e deve ser considerada uma prioridade nacional!”.

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A hipertensão arterial no idoso foi o mote para uma conversa com uma das mais reconhecidas personalidades em Portugal nas áreas da Cardiologia e da Geriatria: Manuel Carrageta. Enquanto presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia e da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, o professor identifica alguns dos principais desafios no que respeita à saúde dos idosos, salientando o “trabalho notável dos médicos de família – nomeadamente no tratamento da hipertensão arterial – que se tem traduzido numa redução das mortes e incapacidades por acidente vascular cerebral”. E embora a Política Nacional do Idoso assegure, em teoria, os direitos e necessidades dos idosos portugueses, “na prática, estes ainda não estão plenamente assegurados” e “o SNS não está preparado para assegurar adequadamente os cuidados de saúde a esta população mais vulnerável”, reconhece o especialista.

Em|FOCO Geriatria | A idade é um dos principais factores de risco para a hipertensão arterial (HTA)?

Manuel Carrageta | A idade é um factor de risco muito importante para a HTA, a par de uma dieta excessiva em sal e calorias, do excesso de peso e obesidade, da falta de actividade física regular e do acentuado stress que hoje se vive na sociedade portuguesa.

A HTA é mais prevalente nos idosos?

A HTA afecta maioritariamente pessoas com mais de 65 anos. No idoso há dois tipos de hipertensão: a hipertensão sisto-diastólica e a hipertensão sistólica isolada (HSI), sendo esta última a forma mais frequente de HTA no idoso. A HSI é definida por uma pressão sistólica igual ou superior a 140 mmHg e uma pressão diastólica igual ou inferior a 90 mmHg.

Quantos idosos hipertensos há em Portugal?

A HTA é mais frequente à medida que se envelhece. Estima-se que o número de hipertensos com mais de 65 anos no nosso país seja superior a um milhão.

Que especificidades apresenta a HTA no doente idoso?

No idoso, devemos ter vários cuidados especiais neste contexto da hipertensão arterial, de que destaco três no que se refere ao diagnóstico.

Primeiro, a HTA da bata branca é mais comum no idoso do que nos indivíduos mais jovens, pelo que, quando possível, se deve recorrer a medições obtidas fora do ambiente clínico (automedição em casa ou medição automática ambulatória).

Segundo, o idoso pode ter valores tensionais falsamente elevados (pseudo-hipertensão), devido a uma maior rigidez arterial que torna difícil a oclusão da artéria braquial pela braçadeira, o que pode ser ultrapassado com recurso à manobra de Osler.

Terceiro, o maior risco de hipotensão postural que os idosos apresentam, pelo que a tensão arterial deve ser sempre medida na posição sentada e na posição de pé. Este último problema é muito importante, na medida em que pode provocar iatrogenia, causando nomeadamente quedas, que são tão frequentes e graves nos idosos.

Em termos de abordagem terapêutica, há aspectos diferenciadores a ter em conta no tratamento da HTA no idoso?

O tratamento da HTA no idoso deve começar pelas mudanças no estilo de vida. Em particular, a restrição de sal é muito útil porque o efeito tensional do excesso de sal aumenta com a idade, fazendo com que a restrição de sal seja mais eficaz no idoso.

A terapêutica farmacológica deve iniciar-se com doses mais baixas, que podem ir sendo aumentadas lentamente. Na maior parte dos doentes é necessário utilizar uma terapêutica combinada para se obter um controlo óptimo.

Nos idosos com menos de 80 anos, os alvos terapêuticos são iguais aos dos adultos de meia-idade, ou seja, <140/90 mmHg ou <130/80 mmHg (na diabetes mellitus, insuficiência renal crónica, insuficiência cardíaca e doença isquémica cardíaca).

Nos doentes com mais de 80 anos deve-se reduzir a pressão arterial para níveis de sistólica de 140 a 150 mmHg e evitar descer a sistólica para valores abaixo de 130 e a diastólica para valores inferiores a 65 mmHg.

Numa sociedade cada vez mais envelhecida, a prevenção continua a ser a solução para se conseguir “acrescentar vida aos anos, mais do que acrescentar anos à vida”… O que tem sido feito ao nível da prevenção no âmbito da HTA e o que falta fazer?

Para além das campanhas promovidas pela Fundação Portuguesa de Cardiologia e pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão, tem havido um trabalho notável dos médicos de família neste domínio, que se tem traduzido numa redução das mortes e incapacidades por acidente vascular cerebral (AVC).

Enquanto médico e presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG) quais identifica como sendo os principais desafios que os nossos idosos enfrentam, em termos de saúde, actualmente?

A nossa sociedade continua a estigmatizar os idosos como sinónimo de doença, fragilidade, incapacidade e elevadas despesas sociais e em saúde.

Os números mostram uma nova realidade do perfil populacional: a população idosa de Portugal já alcança cerca de dois milhões (20% da população) e a estimativa é de que nos próximos 20 anos essa percentagem cresça exponencialmente. Assim, a questão que devemos colocar é se estamos preparados para os desafios que resultarão do crescente envelhecimento populacional nas suas diversas áreas – saúde, social, educação, económica…?

… E estamos?

Embora a Política Nacional do Idoso assegure, em teoria, direitos que garantem oportunidades para a preservação da saúde física, mental, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade, a realidade é outra… Os direitos e necessidades dos idosos ainda não estão plenamente assegurados.

E no que concerne à saúde, concretamente?

No que diz respeito à saúde do idoso, o Sistema Nacional de Saúde (SNS) não está preparado para assegurar adequadamente os cuidados de saúde a esta população mais vulnerável. Prevalece ainda alguma deficiência na qualidade de formação em medicina geriátrica e na quantidade de profissionais disponíveis, bem como na estrutura física e organizativa da rede para atender as necessidades de saúde dos idosos.

A resultante demora no acesso e espaçamento excessivo das consultas acaba por levar ao agravamento do quadro clínico e à procura tardia e excessiva das urgências, com internamentos que de outro modo poderiam ser evitados.

O planeamento e investimento na melhoria da qualidade de vida dos nossos idosos têm ficado à margem das decisões dos sucessivos governos?

A saúde dos idosos deve ser garantida como direito universal. Esperamos que tanto os actuais, como os futuros governantes e legisladores reflictam sobre a necessidade de investir na saúde e na qualidade de vida associada ao envelhecimento. É imperioso conferir dignidade à saúde do idoso. Afinal, os próximos velhos serão os actuais decisores políticos!

Manuel Carrageta é especialista em Cardiologia, Medicina Interna e Farmacologia Clínica.
Presidente do Instituto de Cardiologia de Almada.
Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC) e da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG).

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Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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