COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas
DATA
15/07/2020 15:30:35
AUTOR
Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
ETIQUETAS



COVID e não-COVID: Investimentos para resolver novos e velhos problemas

Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência terminou e o estado de calamidade passou, mas o problema de saúde mantem-se ativo. É urgente encontrar uma visão inovadora e adotar uma nova estratégia. As unidades de saúde precisam de encontrar respostas adequadas e seguras.

A agressividade do vírus atrevido, cruel e teimoso que assolou Portugal, a Europa e o mundo é inequívoca. Mas precisamos de apreender a viver com ele para o vencermos. Apenas com medidas inteligentes poderemos vencer este problema. Avoluma-se a convicção da necessidade de encontrar uma visão inovadora e adotar uma nova estratégia. Parece urgente encontramos um novo equilíbrio.

No momento em que escrevo este texto temos cerca de 13.500 doentes ativos, sendo 96% casos ligeiros em isolamento no domicílio e acompanhamento médico. Apenas cerca de 500 doentes estão internados. A variação média diária de casos ativos desde 3 de junho é apenas 0,4% (últimas cinco semanas, da 13.ª à 17.ª semana) e contrasta com os 20% de variação diária média verificada nas primeiras cinco semanas de pandemia (11 de março a 14 de abril). Temos, no entanto, surtos localizados a eclodir todos os dias. Há duas regiões de evolução mais intensa nas últimas cinco semanas: Lisboa e Vale do Tejo (LVT), com aumento de 1,7% por dia; e Alentejo, com aumento diário de 2,2%. E nestas regiões de saúde é possível localizar os focos de doença.

Com o apoio baseado em equipas de saúde de proximidade e com medidas de segurança e proteção social foi possível fazer o seguimento dos doentes Covid-19 e vencer a pandemia com consequências aparentemente mínimas. No início de abril foram atingidos vários valores máximos: em 1 de abril 3,2% de doentes internados em UCI; em 2 de abril, 9,2% de doentes internados; em 7 de abril o número máximo de doentes internados em UCI (271); em 17 de abril atingimos o número máximo de doentes internados (1.073). Na sétima semana (22 de abril) deverá ter sido atingido o número máximo de casos ativos – cerca de 20 mil. Quer isto dizer que abril foi o mês de todos os “picos” e que desde então temos assistido a uma resolução progressiva e lenta da pandemia em Portugal.

Com quatro meses de prática clínica em contexto diferente assumimos novos métodos de trabalho e tivemos oportunidade de superar dificuldades, ver mais ineficiências do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e entender melhor as insuficiências das unidades de saúde. Temos obrigação de acolher as inovações e as aprendizagens deste período. Está na hora de promover a partilha de boas práticas e avaliar resultados, assumindo a responsabilidade de fazer evoluir o nível de prestação de cuidados de saúde globais, de continuidade, personalizados e acessíveis. Os cuidados de saúde prestados pelo médico de família (MF) são centrados na pessoa, com todas as suas envolvências, assumindo-se a centralidade numa doença como episódica e transitória.

O problema de saúde que vivemos na atualidade é muito grande e preocupante. Como é bom de ver, a situação atual é complexa, quer pela evolução capciosa da pandemia ainda não resolvida, quer pelas consequências da limitação de acesso a cuidados de saúde dos doentes com situações agudas e dos doentes crónicos. Como vencer então este momento difícil? As unidades de saúde têm que encontrar soluções para responder às necessidades de saúde dos doentes Covid e não-Covid. Mas, as autoridades sanitárias e políticas terão que fazer a sua parte!

Temos três curtos meses para recuperar o atraso de modo a estarmos em ritmo normal de trabalho em outubro e capacidade máxima no próximo inverno.

É necessário e urgente fazer um investimento inequívoco nos centros de saúde. Não basta fazer relatórios epidemiológicos diários. Parece útil interpretar, tirar conclusões e emitir orientações úteis, mas sem novos recursos humanos e materiais não conseguiremos recuperar o atraso e repor a atividade regular nas nossas unidades de saúde.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.