O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
DATA
14/09/2020 14:42:39
AUTOR
Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

Na fase da pandemia em que nos encontramos parece ser necessário acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho na atividade assistencial do médico de família. Sem perdermos as características de base da nossa especialidade – sem esquecer os princípios e os valores fundamentais da medicina centrada na pessoa – a Medicina Geral e Familiar (MGF) como especialidade humanista e de proximidade tem hoje que encarar o contexto de uma nova realidade e de um novo normal.

A pandemia que vivemos desde 11 de março de 2020 e o desenvolvimento do conhecimento que vai ocorrendo no mundo científico, em conjunto com as necessidades reais da população e a capacidade de resposta das unidades de saúde, obrigaram-nos a encontrar respostas para esta nova realidade, para o novo normal. No novo contexto de atividade assistencial temos agora atos médicos – consultas? – realizados com o auxílio de meios de comunicação, que nos permitem o contacto com os doentes ou com os seus familiares sem a sua presença efetiva. Temos possibilidade de contactos de voz, de voz e imagem em direto, de fotografia, de mensagens escritas e de troca de emails e documentos como exames complementares, relatórios ou fotografias.

De facto, já antes da pandemia usávamos alguns destes meios de informação e de comunicação, mas nos últimos meses tem sido muito mais habitual, diria mesmo comum. Por dia quantas sms? E quantos emails? E quantas mensagens de WhatsApp? E quantas chamadas telefónicas?

É necessário encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. A consulta médica normal, tradicional, habitual com a presença do doente é inevitável e insubstituível. Quer no significado humanista do exercício profissional, quer no plano técnico e científico do ato médico, quer no sentido prático da ação no momento, seja lá como for, a consulta médica presencial (é quase um pleonasmo dizer “presencial”, uma vez que consulta médica, no sentido em que a entendemos, é necessariamente presencial) é um ato de elevado valor, pleno de significado e de múltiplas oportunidades clínicas. No entanto, há um novo desafio pela frente que pode facilitar e melhorar de diferentes maneiras o ato médico nobre que é a consulta médica presencial em todas as suas dimensões. Os contactos indiretos ou mesmo diretos com utilização de meios de comunicação ágeis e fáceis são muito úteis e vieram para ficar! Com estes meios de comunicação conseguimos hoje resolver mais problemas, garantir melhor acessibilidade e manter a personalização, assim como, facilitar, preparar e valorizar a consulta médica.

As unidades de saúde estão a dar respostas adequadas e seguras, mas é urgente um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde (SNS). O novo normal ainda está por descobrir em toda a sua plenitude, mas parece-me possível pensar que fizemos evoluções que teremos que desenvolver e consolidar. Com seis meses de prática clínica em contexto diferente assumimos novos métodos de trabalho e tivemos oportunidade de superar dificuldades, ver mais ineficiências do SNS e entender melhor as insuficiências das unidades de saúde. Temos obrigação de acolher as inovações e as aprendizagens deste período. Está na hora de promover a partilha de boas práticas e avaliar resultados, assumindo a responsabilidade de fazer evoluir o nível de prestação de cuidados de saúde globais, de continuidade, personalizados e acessíveis.

Os cuidados de saúde prestados pelo médico de família são centrados na pessoa, com todas as suas envolvências. Sem dúvida que estamos a aprender a viver com o novo normal e a nova realidade e por isso mesmo há necessidade de fazermos novos enquadramentos dos nossos planos de trabalho semanal. É inevitável adquirirmos novos equipamentos e desenvolvermos novas competências. Com o sentido ético que nos domina e a segurança que exigimos, saberemos disponibilizar as novas aprendizagens que fundamentam os novos serviços e os cuidados de saúde de proximidade, em benefício dos nossos doentes e utentes.

O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.