Europa chegou tarde ao combate ao ébola
DATA
07/10/2014 17:00:34
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Jornal Médico
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Europa chegou tarde ao combate ao ébola

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A Europa chegou tarde ao combate ao ébola e a comunidade internacional foi negligente, acusam 44 especialistas mundiais em saúde pública, entre os quais o ex-director-geral da Saúde José Pereira Miguel, numa carta aberta publicada na revista The Lancet.

“Não é só uma questão de verbas e dinheiro”, disse José Pereira Miguel, antigo presidente do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) e um dos autores do documento, que foi enviado pelos subscritores às autoridades dos respectivos governos.

No documento, publicado na edição de sábado da revista The Lancet, lê-se que os profissionais de saúde e as populações que estão no terreno – na África ocidental – “necessitam desesperadamente de equipamentos de protecção individual e desinfectantes, como sabonetes e cloro”.

Os autores defendem uma maior participação dos Estados europeus no envio de ajuda e de profissionais, bem como no apoio à sua formação.

“Após meses de inércia e negligência por parte da comunidade internacional, a epidemia de ébola está totalmente fora de controlo”, começam por escrever os autores do documento.

Segundo José Pereira Miguel, a Europa começou tarde, mas a luta contra o ébola ainda pode ser ganha, embora só se a Europa ajudar.

A carta vai nesse sentido: “Pressionar os Estados europeus para que se faça mais, para que se mobilizem todos os recursos que a Europa tem”.

Segundo José Pereira Miguel, o documento alcançou alguns dos objectivos, pois foi seguido do anúncio de medidas da Comissão Europeia de apoio aos países afectados.

Sobre a epidemia, o especialista em saúde pública considerou a situação “muito grave”, lembrando que o vírus já fez cerca de 3.000 mortos e que os hospitais montados no terreno estão sobrelotados.

O director regional da Organização Mundial de Saúde (OMS) para África, Luís Sambo, afirmou hoje no Porto que a epidemia “está a espalhar-se mais depressa”, mas admitiu a possibilidade de ser controlada nos próximos três meses.

“A epidemia já afectou um total de 7.500 pessoas, é difícil fazer previsões, mas pensamos que nos próximos 90 dias possamos inverter a tendência da epidemia e, eventualmente, controlá-la. Mas são previsões, é muito difícil dar certezas ou estabelecer prazos com exactidão”, disse Luís Sambo.

O responsável da OMS para África falava no Porto numa conferência sobre a epidemia de Ébola que atinge a África ocidental e que já chegou à Europa e aos EUA.

“Temos exemplos de epidemias no Senegal e na Nigéria que foram contidas e que neste momento tranquilizam”, disse, referindo que “ao nível das fronteiras, tem sido recomendado o controlo sanitário, sobretudo de passageiros que chegam de países afectados pela epidemia”.

Esse controlo, sublinhou, “tem sido feito regularmente, o que facilita, naturalmente, a detecção de casos suspeitos”.

“É uma medida que não dá uma garantia de 100 por cento, mas que ajuda na detecção de casos eventuais de infecção para que sejam tratados em enfermarias de alta segurança e que se evite deste modo a propagação”, acrescentou.

Segundo o director regional para África da OMS, “não há critério para declaração de pandemia, existe uma epidemia que afecta principalmente o continente africano e que está a evoluir de forma preocupante, mas já foram tomadas medidas a nível nacional e internacional para que se reforcem os meios de combate e de controlo”.

“O risco de propagação para fora de África é real e já temos provas disso nos EUA e em Espanha. Mostra que a transmissão de homem para homem em ambiente hospitalar, ou fora dele, é possível”, afirmou.

Contudo, Luís Sambo considera não existir razão para “tanto pânico”, referindo que no caso concreto de Espanha, tratou-se de “infecção intra-hospitalar. É um caso que pode ser controlado”.

Luís Sambo disse ainda que a OMS está a “mobilizar as instituições de investigação médica no mundo para que acelerem os esforços”, no que se refere a encontrar um medicamento que trave a doença. Até agora, esses esforços têm sido “insuficientes”, afirmou.

“Temos alguns produtos candidatos a vacinas que estão a ser testados, temos também alguns medicamentos experimentais que estão ainda em fase de investigação, mas temos esperança que com a aceleração deste processo de investigação e as necessidades que são prementes, o processo possa evoluir rapidamente e sem prejuízo para a qualidade dos produtos que serão produzidos daqui a algum tempo”, acrescentou.

Em declarações aos jornalistas, no final da conferência, Luís Sambo, admitiu que “se tivesse existido uma intervenção forte logo desde o início, as hipóteses de contenção teriam sido muito maiores”.

Luís Sambo lembrou que a epidemia eclodiu “num meio muito pobre onde não existiam e não existem os meios para atender problemas de rotina e de saúde. E, sobretudo, problemas extraordinários como é o caso de uma epidemia”.

É uma situação que “exige meios especiais técnicos e tecnológicos que não estavam disponíveis na altura a começar pelo próprio sistema de vigilância de doenças da Guiné. O sistema de vigilância não funcionou a nível local, portanto houve uma apatia durante os primeiros meses de epidemia, que começou em Dezembro e foi declarada no mês de Março”, referiu.

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
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O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.