Ministério da Saúde sugere criação de enfermarias psiquiátricas para jovens
DATA
04/12/2014 17:20:36
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Jornal Médico
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Ministério da Saúde sugere criação de enfermarias psiquiátricas para jovens

Fernado Leal da Costa

O Ministério da Saúde defendeu hoje a criação de enfermarias para adolescentes com perturbações psiquiátricas, evitando o seu internamento junto de adultos, como solução transitória até serem criadas mais unidades específicas para jovens na área da saúde mental.

Durante a apresentação pública do relatório “Portugal – Saúde Mental em Números 2014”, foi manifesta a preocupação dos profissionais de saúde mental com a falta de respostas para a infância e a adolescência, quer ao nível de recursos humanos como físicos.

A falta de camas para internamento, a existência de apenas duas unidades de saúde específicas e a escassez de médicos direccionados para esta problemática da saúde mental foram os temas que mais preocupação e debate suscitaram.

O director do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, Daniel Sampaio, considerou que a situação é “dramática” e “exige uma tomada de decisão”, em que a “resposta ao nível das camas é determinante”.

O psiquiatra alertou que os jovens são internados em alas psiquiátricas de adultos, o que cria problemas aos adolescentes e aos serviços.

Esta preocupação foi partilhada por outros profissionais na sala, que afirmaram não só assistir a um aumento do número de adolescentes em unidades de adultos, como alertaram para os “imensos riscos” que tal circunstância acarreta.

A necessidade de formar mais pedopsiquiatras também foi amplamente referida, embora tenha sido igualmente reconhecido que para tal é preciso que existam mais centros para a infância e a adolescência.

Respondendo ao repto lançado pelos profissionais de saúde, o secretário de Estado Leal da Costa reconheceu que a resposta em ambulatório ainda é insuficiente e que “o internamento está em situação paupérrima e de depauperamento”.

Para o governante, a criação de uma unidade de internamento em Coimbra, para dar resposta à zona Centro, é necessária e urgente, mas não se comprometeu com prazos, afirmando que “em alguns momentos o óptimo é inimigo do bom”.

“Temos que encontrar algumas soluções enquanto não conseguimos chegar ao óptimo. Os internamentos em unidades de adultos é obviamente uma péssima solução em que não podemos continuar a insistir”, afirmou.

Como tal, lançou um desafio aos especialistas, no sentido da “criação de enfermarias próprias para adolescentes”.

“Estou a pensar numa solução transitória, em vez do internamento em unidades de adultos”, sublinhou Leal da Costa.

O relatório hoje apresentado indica que em Portugal existem apenas 24 camas de internamento psiquiátrico para crianças e jovens: 10 na zona Norte e 14 na zona de Lisboa e Vale do Tejo.

Tendo em conta esta escassez, o relatório refere que muitos casos acabam por ser internados noutras estruturas, nomeadamente em serviços pediátricos e psiquiátricos.

Relativamente às duas unidades especializadas existentes no país (uma em Lisboa e outra no Porto), “verifica-se, em ambas, uma alarmante incapacidade das estruturas da comunidade (quer famílias quer instituições) em gerirem adequadamente os casos mais sensíveis, endossando-os mais frequentemente aos serviços de urgência com frequente pedido de internamento”.

O relatório revela ainda que a região do Porto referenciou mais primeiros surtos psicóticos, enquanto a região de Lisboa e Vale do Tejo registou um aumento de tentativas de suicídio, oriundas sobretudo de classes sociais médias e médias/altas.

Esta mesma unidade de Lisboa assinalou também um aumento de pressão no Serviço de Urgência no último trimestre de 2013, muito superior ao tradicional – de Maio a Julho.

Cuidados continuados em saúde mental avançam ainda nesta legislatura

Leal da Costa afirmou hoje que os Cuidados Continuados Integrados em Saúde Mental (CCISM) vão avançar ainda durante a actual legislatura, dando resposta a uma necessidade “sistematicamente anunciada e adiada”.

A promessa foi deixada hoje durante a apresentação pública do relatório “Portugal – Saúde Mental em Números 2014”, que revela uma elevada prevalência de perturbações mentais em Portugal e alerta para a necessidade de criação de uma rede de cuidados continuados nesta área.

"Estou perfeitamente convicto de que será nesta legislatura que serão dados passos significativos com experiências duradouras na área dos cuidados continuados, e que ganhem a relevância que não puderam ter”, disse Fernando Leal da Costa.

O relatório hoje apresentado considera “inevitável e premente falar nos CCISM (Cuidados Continuados Integrados de Saúde Mental), sistematicamente anunciados e adiados por conhecidos constrangimentos financeiros, com muitos a interrogarem-se se a situação presente não sai mais onerosa”.

O documento lembra que o aumento do risco de dependência não é isento de custos para o Serviço Nacional de Saúde e acrescenta que neste contexto se registam "as declarações recentes da tutela de que, ainda em 2014, vão estar no terreno as primeiras tipologias de cuidados continuados de saúde mental”.

“Prometemos que arranjaremos estruturas de cuidados continuados”, afirmou hoje Leal da Costa.

O governante sublinhou também a importância dos cuidados comunitários para apoiar estes doentes, mas reconheceu o défice de cuidados ao nível de recursos humanos, bem como a dificuldade de gestão do património dos doentes internados.

Esta preocupação ganha mais volume com a prevalência total de perturbações mentais, reveladas no relatório e que levaram Daniel Sampaio, a considerar este um “problema de saúde pública da maior importância”.

“É preciso uma resposta para este magno problema, que deveria ser uma prioridade nacional”, frisou.

Um em cada cinco portugueses sofre de perturbações psiquiátricas, patologias que mais contribuem para anos de vida perdidos, a seguir às doenças cérebro-cardiovasculares, segundo o relatório “Portugal – Saúde Mental em Números 2014”, hoje apresentado.

Com os valores mais altos de prevalência anual destacam-se as perturbações da ansiedade (16,5%) e as perturbações depressivas (7,9%).

“Em comparação com outros países ocidentais, Portugal apresenta dos mais altos valores de prevalência de perturbações psiquiátricas (22,9%), apenas comparáveis com a Irlanda do Norte (23,1%) e com os EUA (26,4%).

Reportando-se aos dados mais recentes disponíveis sobre os anos perdidos de vida saudável, relativos a 2010, o relatório revela que as doenças psiquiátricas representaram 11,75% da carga global de doença, logo atrás das doenças cérebro-cardiovasculares (13,74%) e com mais peso do que as doenças oncológicas (10,38%).

Em relação à carga de morbilidade, quantificada através dos anos vividos com incapacidade, as perturbações mentais e do comportamento constituem um “motivo acrescido de preocupação” face ao valor apurado (20,55%), em relação às doenças que se lhe seguem: respiratórias (5,06%) e diabetes (4,07%).

A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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