Castro Lopes: prevenção do AVC… uma batalha que é preciso vencer
DATA
17/02/2015 10:54:15
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Jornal Médico
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Castro Lopes: prevenção do AVC… uma batalha que é preciso vencer

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Tem dedicado a vida à luta contra o maior dos muitos flagelos que atingem a população portuguesa: o acidente vascular cerebral, principal causa de mortalidade em Portugal. Uma batalha que se desenrola em múltiplas frentes, desde a prevenção primária, com acções de sensibilização dirigidas à população, à formação dos muitos parceiros que nela intervêm. E à formação clínica, que com os anos transpôs os bancos da universidade para chegar aos profissionais que no terreno todos os dias têm que lidar com a doença.

Em Março de 2005 fundou a Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral – SPAVC, com o objectivo de prevenir e reduzir a mortalidade, morbilidade e incapacidade associadas à maleita. Em entrevista ao nosso jornal, fixou conceitos, denunciou os efeitos perversos dos erros de nomenclatura que ainda vigoram e apontou os caminhos que defende para uma prevenção eficaz.

JORNAL MÉDICO | Pese o facto de partilharem os mesmos factores de risco, a prevalência de AVC é, entre nós, muito mais acentuada do que a da doença isquémica coronária? O que se passa? Existirá alguma “especificidade lusa” que determine esta diferença?

CASTRO LOPES | Os factores de risco são na sua maioria comuns à patologia vascular cerebral e à patologia cardiovascular, mas é muito diferente a sua repercussão em estruturas tão diversas na sua complexidade como o cérebro e o coração, o que confere uma especificidade diferente às consequências de cada uma.

Com os dados conhecidos da composição etária da população e da sua previsível evolução, o conhecimento dos factores de risco e a sua correcção por parte dos profissionais da saúde e da população assumem a maior importância, dada a prevalência da doença vascular cerebral no envelhecimento e a sua cada vez mais evidente participação na deterioração cognitiva, indo do défice cognitivo ligeiro à demência vascular e mesmo à sua importância no contributo para a deterioração na doença de Alzheimer.

O que se verifica na população portuguesa é um deficiente despiste dos factores de risco vascular e da sua eficaz correcção através da adopção de estilos de vida saudáveis e da intervenção farmacológica, quando indicada.

A década de Helsinborg (2005-2015) elege como os cinco factores “major” a combater na década: a hipertensão arterial, o tabagismo, a diabetes, a fibrilhação auricular e o sedentarismo.

JM | Quais os principais desafios clínicos na prevenção do AVC?

CL | Em primeiro lugar o empenho dos profissionais da saúde no seu conhecimento, difusão e correcção. Depois uma população consciente de que relativamente ao AVC “o mal não acontece só aos outros”; “que não é uma doença de velhos”... Que é possível prevenir – e também tratar – o AVC.

JM | Cerca de metade dos doentes com AVC ainda vai para o hospital sem chamar o INEM. O que fazer para contrariar os números?

CL | Consciencializar a população para o facto de o AVC ser uma emergência cujos sintomas qualquer pessoa pode e deve saber reconhecer recorrendo à informação difundida pela SPAVC, que definiu três sinais mínimos, qualquer dos quais indicador de que se está a ser vítima de um AVC. Refiro-me aos denominados “3F” que correspondem a: menos força no membro superior de um lado; desvio da parte inferior da face (a denominada boca ao lado); e dificuldade em falar (querer dizer algo e não o conseguir, ou mesmo não entender o que lhe é dito).

A Comunicação Social deverá aqui assumir uma importância fundamental.

JM | As “Vias Verdes” estão suficientemente bem desenhadas para fazer face às necessidades do país?

CL | De acordo com dados disponíveis o sistema de resposta emergente aos doentes com acidente vascular agudo traduziu-se em ganhos em Saúde, com progressivo maior acesso dos doentes a técnicas eficazes de tratamento e uma melhoria progressiva da equidade do sistema, contribuindo para a redução da mortalidade por doença vascular cerebral verificada no país. Os resultados alcançados podem ser favoravelmente comparados com outros internacionais, que corroboram a estratégia adoptada.

Um estudo realizado pelo Dr. Miguel Soares de Oliveira, cujos resultados foram publicados na Revista Portuguesa de Cardiologia, mostra que a implementação, na Região Norte, de um sistema regional de resposta emergente ao acidente vascular cerebral agudo, permitiu uma recuperação funcional aos três meses total ou quase total em 50% dos casos referenciados. Trata-se de um excelente exemplo de que as “Vias-Verde” para o AVC se aperfeiçoam progressivamente.

JM | Em caso de AVC, até que ponto as chamadas “janelas terapêuticas” para o sucesso da fibrinólise são extensíveis?

CL | A janela terapêutica para o AVC agudo situa-se actualmente nas 4,5 horas. Isto não quer dizer que não devam ser feitos todos os esforços para que o doente chegue ainda mais rapidamente a uma unidade hospitalar com unidade de AVC. A penumbra isquémica requer urgência para “salvar” o maior número de neurónios possível. A repermeabilização, ao fim de uma hora, será certamente preferível à realizada às 4,5 horas, janela em que foi demonstrada eficácia e como tal incluída nas Recomendações da European Stroke Organisation (ESO).

JM | Que modelo de intervenção defende na prevenção e tratamento do AVC

CL | Nas prevenções primária e secundária a Medicina Geral e Familiar tem um papel da maior importância, intervindo na correcção dos factores de risco vascular e sensibilizando a população para que o AVC pode ser prevenido.

A fase aguda é essencialmente uma etapa de intervenção hospitalar multidisciplinar sempre com a coordenação do Neurologista, com a intervenção de Medicina Interna e Fisiatria, desde o início e com a Enfermagem, com particular interesse e mesmo diferenciação nesta patologia.

JM | Reabilitação (e reintegração social e profissional) do doente pós AVC. O que tem sido feito… O que ainda falta fazer?

CL | A reabilitação pós-AVC tem sido uma preocupação da SPAVC, sendo abordada em todos os seus Congressos. No 6º Congresso Português do AVC, realizado em 2012, o Dr. Pedro Cantista, do Serviço de Fisiatria do Centro Hospitalar do Porto, apresentou uma comunicação onde afirmava que “A reabilitação do AVC tem experimentado uma enorme evolução. Desde logo na definição dos seus objectivos mas igualmente nas suas metodologias”. A eficácia dos programas de Medicina Física e Reabilitação (MFR), relatou então, “origina uma crescente procura e obriga a uma estratégia organizativa dos cuidados assistenciais desta área”. E recordou – muito a-propósito, que completados dez anos sobre a criação da Rede Nacional de MFR (em 2001), ainda havia muito caminho a percorrer até à sua completa implementação. Registava-se “Desde o défice de camas de internamento em MFR nos hospitais de agudos”, à dificuldade de acesso aos cuidados de MFR de um grande número de doentes e à injusta assimetria geográfica própria do acesso a esses cuidados.

Acrescentarei que compreendendo estas necessidades o Centro de Medicina Física e Reabilitação do Alcoitão, aumentou consideravelmente o número de camas dedicadas à recuperação de doentes vítimas de AVC e que o Centro de Reabilitação do Norte, recentemente aberto, dedica grande parte das suas camas (110) para igual objectivo.

JM | Investigação sobre AVC em Portugal… Existe e é de qualidade?

CL | A investigação clínica e básica na patologia vascular cerebral é de alta qualidade e numerosa. Seria fastidioso enumerar o quanto se faz. Apenas a título de exemplo, em 2014, o prémio para melhor projecto de Investigação instituído pela SPAVC teve sete candidaturas. A colaboração da SPAVC com a Instituição Universitária tem-se mostrado da maior utilidade neste domínio.

JM | O 9º Congresso Português do AVC está aí à porta… Quais as grandes novidades desta edição?

CL | O 9º Congresso Português do AVC mantendo o modelo instituído desde a sua primeira edição, que permite “que todos aproveitem com tudo”, constitui uma das actividades fundamentais para o progresso Cientifico na área da doença vascular cerebral, sendo o Grande Fórum Nacional da doença vascular cerebral.

Reconhecido a nível Internacional, merece o Patrocínio científico da WSO e da ESO para além da Ordem dos Médicos Portugueses.

Tanto a WSO como a ESO passaram a referir nos acontecimentos científicos para 2015 o Congresso Português do AVC. Esta é uma boa novidade, compensadora do esforço despendido pela sua comissão organizadora na elaboração de um programa científico que revela competência, que se traduz na escolha dos temas de maior actualidade.

Não é fácil distinguir qualquer peça de tão excelente Congresso, citando a Sessão Conjunta com a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, como merecendo referência, à presença de sete convidados estrangeiros da maior craveira científica, que em conjunto com os convidados nacionais contribuem para uma valorização científica do congresso, que assim aborda o estado da arte nos aspectos da prevenção e tratamento da doença vascular cerebral.

JM | Também teremos inovação terapêutica?

CL | Mantém-se vivo o interesse pelos novos anticoagulantes orais, sendo de referir o tratamento da dislipidémia mista como tema em destaque na área da inovação terapêutica.

Terminaria destacando a grande actividade que a SPAVC vem desenvolvendo no combate à principal causa de mortalidade e incapacidade em Portugal, constituindo-se no Grande Referencial Nacional no que diz respeito à doença vascular cerebral, em que o AVC se insere.

Estamos certos da nossa competência científica, mas somos invadidos por uma preocupação que convém ainda salientar para além das referências já feitas.

Se a população, no seu todo, não prestar a devida atenção e não puser em prática o tanto que lhes é proporcionado, teremos grande dificuldade em conseguir o objectivo primeiro e último de todo o nosso trabalho: vencer a batalha contra o AVC.

JM | O que mais destacaria?

CL | Mesmo a terminar, uma excelente notícia: durante um ano (a começar no Congresso Português do AVC), a SPAVC em conjunto com a S-Consulting irá desenvolver uma Campanha denominada “Eu Não Arrisco”, muito bem concebidae destinada à sensibilização da população para o problema do AVC. Depositamos grande esperança nos seus resultados.

Crónicas de uma pandemia anunciada
Editorial | Jornal Médico
Crónicas de uma pandemia anunciada

Era 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia por COVID-19 e a organização dos serviços saúde, como conhecíamos até então, mudou. Reorganizaram-se serviços, redefiniram-se prioridades, com um fim comum: combater o SARS-CoV-2 e evitar o colapso do Serviço Nacional de Saúde, que, sem pandemia, já vivia em constante sobrecarga.

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