Estado vai comparticipar vacina Prevenar a famílias mais carenciadas
DATA
13/04/2015 11:29:16
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Jornal Médico
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Estado vai comparticipar vacina Prevenar a famílias mais carenciadas

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O Estado vai comparticipar a vacina Prevenar, contra a pneumonia, meningite e septicémia, disponibilizando uma verba de seis milhões de euros até fim do ano para apoiar famílias mais necessitadas, segundo fonte oficial.

A vacina Prevenar está indicada para a imunização de bebés e crianças contra a doença invasiva causada pela bactéria ‘streptococus pneumoniae’ – que pode provocar meningite, pneumonia ou septicémia – e actualmente custa cerca de 180 euros às famílias e não tem comparticipação.

Segundo fonte oficial do Ministério da Saúde, até ao fim deste ano está disponível uma verba de seis milhões de euros para comparticipação da Prevenar.

O modelo de comparticipação será anunciado até ao fim deste mês pelo Ministério e deverá contemplar famílias mais desfavorecidas.

A Direcção-geral da Saúde tem estado a estudar a comparticipação ou inclusão no Plano Nacional de Vacinação da Prevenar, que está disponível em Portugal desde 2001 mediante receita médica e com o pagamento integral pelas famílias.

Vacinação é um direito, mas também um dever

Ana Leça, da Comissão Técnica de Vacinação, considera que as situações de resistência às vacinas são residuais, “o que não significa que não sejam preocupantes”, e lembra que a vacinação é um direito, mas também um dever.

A propósito dos 50 anos do programa Nacional de Vacinação, que se assinalam este ano e serão objecto de uma cerimónia pública na terça-feira, Ana Leça disse à Lusa que “as taxas de cobertura vacinal demonstram que as situações de resistência à vacinação são residuais.

Isto “não significa que [as situações de resistência às vacinas] não sejam preocupantes”, adiantou.

Para Ana Leça, “a vacinação no âmbito do PNV deve ser percebida como um direito do indivíduo a ser protegido, mas também como um dever de contribuir para a protecção da comunidade”.

E explicou que, em Portugal, “uma criança não vacinada por opção dos pais pode estar protegida pela imunidade de grupo decorrente das elevadas coberturas vacinais”.

Contudo, adiantou, essa criança “estará em risco se for viajar para países onde estejam a ocorrer surtos (muitos países europeus) e contactar com um caso”.

Por seu lado, “uma criança não vacinada por opção dos pais que adquira sarampo, poderá transmitir a doença a outra criança que ainda não foi vacinada (com idade inferior a 12 meses, idade da primeira dose) e cujos pais pretendiam protegê-la da doença”.

“Ou pode também transmitir à minoria de crianças já vacinadas mas que, por razões individuais, não adquiriram imunidade”.

Na área da vacinação, “quando se alegam direitos de escolha individual, eles podem colidir com os direitos individuais dos outros e colidem certamente com o objectivo do PNV de protecção da comunidade”.

Segundo Ana Leça, a resistência à vacinação iniciou-se com a primeira vacina, a da varíola.

A especialista, actualmente consultora da Direcção-Geral da Saúde, refere que “a maioria dos jovens adultos apenas ouviu falar de doenças como a poliomielite, a difteria, e mesmo o sarampo, tendendo a desvalorizá-las”.

Verifica-se, pois, uma “inversão da percepção do risco, com mais medo das vacinas do que das doenças, sem suporte científico válido e consistente”.

Em relação ao sarampo, após um artigo publicado em 1998 na revista Lancet pelo médico inglês Andrew Wakefield, correlacionando a vacina VASPR com a doença inflamatória do intestino e com o autismo, assistiu-se a um aumento de pessoas a recusarem a vacina.

Esta relação entre as vacinas e as doenças foi desmentida, mas o seu efeito não foi travado. No Reino Unido, em 2003, a cobertura vacinal para a VASPR diminuiu para 80% nas crianças de dois anos, com aumento dos casos e surtos em vários locais.

Além do Reino Unido, assistiu-se a uma diminuição da cobertura vacinal em muitos países europeus, com a emergência de grandes epidemias de sarampo.

Em 2011 registaram-se mais de 30 mil casos em 36 países europeus, com nove óbitos, seis dos quais em França.

Este ano, “continuamos a assistir a surtos de sarampo na Europa e nos Estados Unidos, onde a doença se encontrava já controlada, não sendo cumprida a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de eliminar o sarampo no espaço europeu em 2015”.

Vacinas fazem parte da vida dos portugueses e não são apenas para as crianças

As vacinas fazem parte do dia-a-dia dos profissionais de saúde, que, 50 anos após a criação do Programa Nacional de Vacinação, ainda tentam convencer os utentes que esta medida é para toda a vida e não apenas na infância.

“A vacinação é para a vida inteira. Enquanto cá estamos devemos estar protegidos contra as doenças”, disse à Lusa Luísa Carvalho, médica de família na Unidade de Saúde Familiar (USF) Gerações, em Lisboa.

A clínica sublinhou a importância da vacina contra o tétano e a difteria, que é preciso actualizar de dez em dez anos.

José Soares, 53 anos e utente nesta USF, reconheceu que durante anos teve as vacinas atrasadas, mas recentemente tomou consciência da necessidade de ter esta medida profiláctica actualizada e agora não falha a toma.

“Não é porque nos apeteça, mas porque faz bem”, disse à Lusa após tomar a vacina contra o tétano e a difteria, sublinhando a importância desta imunização que evita doenças “que podem levar à morte”.

Disso mesmo também tem consciência Maria Ângela da Silva, 65 anos, que não falha uma toma, nem mesmo da vacina contra a gripe que recebe anualmente.

“Temos de ter muito cuidado com as nossas doenças, que queremos chegar até aos 100” anos, disse.

Após actualizar o seu boletim de vacinas com a prevenção do tétano e da difteria, a sexagenária sublinhou que assim está mais protegida.

E dá o exemplo da vacina contra a gripe – que toma anualmente – e que a tem impedido de ficar doente.

“Vacinei-me no ano passado e nunca mais tive gripe”, disse.

Para Sofia, 20 anos, não vacinar-se seria “quase hipócrita”, principalmente porque está a estudar Saúde.

A vacinação “é fundamental, é o melhor método de prevenção que há. É a forma mais valiosa de saúde pública que nós temos”.

Para Luísa Carvalho, “a vacinação já está muito instaurada nos hábitos dos portugueses”.

Porém, nos mais idosos, “ainda há a noção de que não é preciso manter o Programa Nacional de Vacinação (PNV) e temos o dever de informar que é preciso actualizá-lo”.

Sobre as novas vacinas que têm vindo a ser introduzidas no PNV, Luísa Carvalho disse que a imunização contra o meningococo-C (no Programa desde Janeiro de 2006) “foi muito bem aceite e tem uma boa taxa de cobertura”.

Relativamente à vacina contra o Vírus do Papiloma Humano, uma das causas do cancro do colo do útero, que consta do PNV desde 2008, a médica disse que “as pessoas ainda têm a ideia de que a vacina deve ser feita quando se inicia a vida sexual”.

“O nosso objectivo é proteger muito antes dessa altura. Mais uma vez, é um trabalho de educação para a saúde que está a ser bem recebido”, adiantou.

Em Portugal, são administradas gratuitamente através do Serviço Nacional de Saúde (SNS) as vacinas que protegem contra a tuberculose, difteria, tétano, tosse convulsa, doença invasiva por Haemophilus influenzae tipo b, poliomielite, sarampo, papeira, rubéola, hepatite B, doença meningocócica C e infecção pelo VPH.

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