IV Congresso Nacional de Auto-imunidade/ XXI Reunião Anual NEDAI “Do órgão ao Organismo”
DATA
17/04/2015 14:01:49
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Jornal Médico
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IV Congresso Nacional de Auto-imunidade/ XXI Reunião Anual NEDAI “Do órgão ao Organismo”

Lelita_Santos

O Núcleo de Estudos de Doenças Autoimunes (NEDAI) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) organiza, entre os dias 16 e 18 de Abril, o IV Congresso Nacional de Auto-imunidade e a sua XXI Reunião Anual. O evento realiza-se em Coimbra, sob o lema “Do Órgão ao Organismo”.

Em entrevista ao nosso jornal, a professora Lèlita Santos, presidente do evento, explicou a lógica que presidiu à construção de um programa científico diversificado através do qual se procurou, uma vez mais, afirmar o compromisso dos internistas no acompanhamento destes doentes e estimular a formação e a investigação na área da auto-imunidade.

JORNAL MÉDICO | Este ano adoptaram como tema “Do Órgão ao Organismo”. No que se traduz esta escolha?

Lèlita Santos | Demonstrar que estas patologias são realmente “sistémicas” necessitando de uma abordagem do doente no seu todo e avaliando todos os órgãos que, no conjunto das suas manifestações, ajudarão a perceber o diagnóstico, o prognóstico e orientar para a melhor terapêutica, a mais adequada àquele doente com aquelas manifestações clínicas. Apesar dos avanços no tratamento destas doenças, ao longo dos anos, a grande dificuldade a nível de cuidados passa pelo controlo da patologia durante a sua evolução e pela ocorrência de períodos em que a patologia se manifesta de forma aguda. É isso que tentamos perceber.

JM | A abordagem da patologia auto-imune é cada vez mais multidisciplinar, para a qual concorrem grande número de competências. Esta dimensão reflecte-se no programa?

LS | Esse é um dos nossos objectivos. Na medicina moderna não se pode deixar de trabalhar em equipa. O conhecimento não é exclusivo de uma ou outra especialidade e deve tratar o doente quem o sabe fazer e tem competências para tal. Assim, a multidisciplinaridade é importante mas, sobretudo, o seguimento partilhado do doente é fundamental. No congresso vão participar internistas e médicos de Medicina Geral e Familiar, cardiologistas, nefrologistas, gastroenterologistas, pneumologistas e vários investigadores, todos ligados à área da auto-imunidade. O Internista é o especialista que conhece o organismo como um todo e pode congregar e gerir todas estas competências dando-lhes o fio condutor. Penso que a multidisciplinaridade está bem representada.

JM | Sendo a Medicina Interna (MI) protagonista no estudo, investigação e acompanhamento das doenças auto-imunes, o acompanhamento dos doentes envolve certamente outras dimensões do universo da Saúde. Quem são e como se articulam com MI os demais actores nesta área?

LS | Os Internistas, com a sua visão global são, sem dúvida, médicos particularmente vocacionados para a abordagem das doenças auto-imunes, de forma abrangente e metódica, na sua variabilidade clínica, na complexidade da sua evolução, no tratamento e nas complicações, principalmente quando têm envolvimento multiorgânico. Há necessidade, na equipa que apoia o doente, de outras valências específicas e de pessoas dedicadas e conhecedoras na área das doenças auto-imunes. Das equipas e/ou dos centros de referência e/ou das unidades de doenças auto-imunes devem fazer parte enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, dietistas e assistentes sociais que possam completar, em conjunto com o doente, o apoio e o tratamento.

JM | À semelhança de edições anteriores, este ano o congresso conta com alguns convidados estrangeiros, que irão abordar temas “de peso”… O que determinou a escolha?

LS | A escolha destes convidados deve-se a dois factos principais. São clínicos com vasta experiência nas doenças auto-imunes sistémicas e que fazem investigação nas respectivas áreas específicas, como por exemplo no transplante de células hematopoiéticas, terapêutica altamente promissora para as doenças auto-imunes. Por outro lado, estes nossos convidados têm recebido, nos seus centros, vários Internos de Medicina Interna para curtos estágios ou formação o que tem permitido manter mesmo uma colaboração muito proveitosa em termos de investigação e projectos em comum, que é fundamental mantermos.

JM | Outro dos temas seleccionados para “conferência” foi o dos “registos em auto-imunidade”. Que caminho já se percorreu em Portugal nesta área e quais as lacunas que ainda é preciso integrar?

LS | Em Portugal está a fazer-se o caminho a passo lento mas seguro. Calcula-se que existem cerca de 500 mil portugueses que sofrem de doenças auto-imunes (5% da população) e os registos completos e actualizados permitem perceber melhor as patologias presentes. Neste sentido, o NEDAI, desenvolveu o Registo Informático de Doenças Auto-Imunes (RIDAI), uma plataforma on-line que permite informatizar as consultas de doenças auto-imunes e que serve de base para o registo destas doenças a nível nacional. O desenvolvimento desta base de dados teve, sobretudo, dois objectivos: conseguir perceber a realidade do país e as variações regionais, de forma a analisar estas doenças e ajudar os médicos a tratar dos seus doentes através de protocolos terapêuticos. Permite ainda comparar e incorporar os nossos registos em registos internacionais, colaborar melhor em ensaios clínicos multicêntricos e em programas de investigação alargados.

JM | Formação, investigação e competências em doenças auto-imunes: qual a realidade portuguesa?

LS |Existe muito interesse por parte dos nossos jovens internos e especialistas na área de formação em doenças auto-imunes sistémicas e isso é bem visível nos estágios, formações e cursos que frequentam. A investigação na área está também em franco desenvolvimento, quer na investigação básica, quer clínica, nos centros de investigação, nas faculdades ou nos hospitais.

A discussão sobre a temática das competências em determinadas áreas do conhecimento médico é, também, muito actual e está a ser feita no seio das instituições representativas. O que se pode dizer é que as doenças auto-imunes sistémicas são complexas e que há necessidade de um conhecimento global e holístico para a sua abordagem, seguimento e tratamento. Aquilo que se assemelha à polipatologia e polimedicação, faz com que a avaliação global ou multidimensional, se torne num instrumento fundamental, para estes doentes. O estudo clínico, a investigação e a aquisição de competências na área necessitam muita dedicação.

JM | Quais os cursos pré-congresso que irão ter lugar este ano?

LS | Os Cursos pré-congresso são muito importantes para todos nós e ajudarão a desenvolver e consolidar os conhecimentos e técnicas que já praticamos. Como habitualmente, dedicam-se aos mais jovens mas, também, a todos os colegas de Medicina Interna e de outras especialidades, interessados nesta área. Estão programados cursos de Imagiologia nas Doenças Auto-imunes Sistémicas (DAIS), Dor nas DAIS, capilaroscopia periungueal, infiltrações articulares e avaliação e interpretação laboratorial das DAIS, num total de cinco, em que estarão envolvidos cerca de 140 clínicos.

JM | Casos clínicos interactivos… Um formato pouco comum. Como se vão consubstanciar nesta edição?

LS | A apresentação e discussão de casos clínicos é, cada vez mais, um formato mais apetecível nas reuniões médicas. É muito interessante raciocinar sobre os casos, dar opiniões, muitas vezes divergentes ou controversas, perante um doente “real”. É assim que se desenvolvem os conhecimentos, que se trocam ideias, num trabalho de equipa como no cenário habitual do dia-a-dia da prática clínica. A apresentação dos casos clínicos de forma interactiva permite tudo isto. Este ano teremos logo no primeiro dia, a apresentação de três casos clínicos interactivos, seleccionados a partir dos casos que nos foram enviados pelos responsáveis das mais de 40 consultas e diversas unidades de doenças auto-imunes de todo o país.

JM | Este ano a “Crise” não inspirou nenhuma mesa do evento… Já não constitui factor crítico, ou, mantendo-se, tem hoje menos peso do que há um ano atrás?

LS | A “crise” está presente e, seguramente, vai ser algures nas várias palestras, aflorada. Claro que ainda é crítica. Temos a certeza que queremos estar do lado das soluções e os Internistas têm consciência do seu papel na defesa dos doentes, em conjunto com os mesmos. É isso que temos feito.

JM | Inovação diagnóstica e terapêutica: há novidades?

LS | A área de investigação para o diagnóstico e terapêuticas nestas doenças, está em franca ascensão e desperta o interesse não só dos clínicos mas, também, da indústria farmacêutica, muito necessária para a inovação e pesquisa de novos testes de diagnóstico, de alvos terapêuticos e de fármacos que atinjam esses alvos.

Existem, cada vez mais marcadores para o diagnóstico precoce destas patologias, biomarcadores de atingimento de órgão e exames para diagnóstico imediato. Por outro lado, o desenvolvimento de fármacos dirigidos a alvos terapêuticos subjacentes ao desenvolvimento das doenças é uma necessidade sentida e aguardamos algumas novidades neste congresso principalmente dos resultados de diversos ensaios clínicos em curso.

JM | Este ano vamos ter uma mesa redonda dedicada às associações de doentes. Como se posicionam hoje e que papel podem desempenhar na melhoria do tratamento das DAIS?

LS | Os doentes são os nossos parceiros e o nosso estímulo. Queremos que uma das faces desta parceria seja a participação activa dos doentes, nomeadamente através das suas associações, nos nossos encontros. Os doentes devem conhecer as nossas motivações e os clínicos têm de tentar responder às suas dúvidas e resolver as suas dificuldades.

JM | E os prémios vão para…

LS | Temos, tradicionalmente no nosso Congresso, prémios para os melhores pósteres. Assim, como habitualmente, haverá um prémio de 1.000 euros para o melhor trabalho original de casuística ou investigação (este prémio tem o patrocínio de uma empresa farmacêutica) e um prémio de 500 euros para o melhor póster de caso clínico.

Embora os valores destes prémios sejam apenas simbólicos, servirão, para os mais jovens, como incentivo para a melhoria da qualidade da investigação clínica nesta área, beneficiando, como sempre, os doentes.

Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?
Editorial | Denise Cunha Velho
Internato centrado na grelha de avaliação curricular: defeito ou virtude?

Sou do tempo em que, na Zona Centro, não se conhecia a grelha de avaliação curricular, do exame final da especialidade. Cada Interno fazia o melhor que sabia e podia, com os conselhos dos seus orientadores e de internos de anos anteriores. Tive a sorte de ter uma orientadora muito dinâmica e que me deu espaço para desenvolver projectos e actividades que me mantiveram motivada, mas o verdadeiro foco sempre foi o de aprender a comunicar o melhor possível com as pessoas que nos procuram e a abordar correctamente os seus problemas. Se me perguntarem se gostaria de ter sabido melhor o que se esperava que fizesse durante os meus três anos de especialidade, responderei afirmativamente, contudo acho que temos vindo a caminhar para o outro extremo.