Mortes por pneumonia aumentam 50% em 15 anos
DATA
04/05/2015 15:00:30
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Jornal Médico
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Mortes por pneumonia aumentam 50% em 15 anos

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As mortes por doenças respiratórias em Portugal aumentaram cerca de 30 por cento em 15 anos, com a mortalidade por pneumonias a registar um crescimento superior a 50 por cento.

Os dados foram ontem apresentados em Lisboa e constam do relatório de 2014 do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias.

Segundo o documento, em 2013 morreram mais de 13 mil pessoas por doença respiratória, quando em 1998 os óbitos foram pouco acima dos 10 mil.

Para os responsáveis do Observatório, a evolução “mais preocupante” foi a das pneumonias, com um aumento da mortalidade superior a 50%, seguindo-se os cancros do aparelho respiratório (pulmão, traqueia e brônquios), com um aumento de 33 por cento.

Relativamente às pneumonias, o número de mortes em 2013 foi de 5.935, o que dá uma média de 16 óbitos por dia.

Em comparação com o ano de 1998, quando se registaram 3.886 óbitos, o número de mortos por pneumonia aumentou 52,7 por cento em 2013.

Segundo o presidente do Observatório, Artur Teles de Araújo, em 2013 foram internados por pneumonia 41.796 portugueses, o segundo número mais elevado desde 2004, logo a seguir ao ano de 2012.

Numa comparação de 10 anos, o número de internamentos por pneumonia cresceu 14,1 por cento.

A Fundação Portuguesa do Pulmão encontra-se, em parceria com a Universidade do Minho, a estudar as causas e razões da elevada mortalidade por pneumonia em Portugal.

O médico António Carvalheira Santos, do Observatório das Doenças Respiratórias, explicou que está a ser analisada a mortalidade entre os doentes internados, uma vez que se verifica que a taxa de mortalidade intra-hospitalar nas pneumonias é de 20,9 por cento.

“Até agora, o que nos parece é que os doentes que mais morrem são os que têm menos tempo de internamento. Parece que terão recebido mais tarde cuidados de saúde, parece-nos que os cuidados pré-internamento foram tardios”, adiantou Carvalheira Santos.

Artur Teles de Araújo reforçou também a ideia de que os doentes com pneumonia possam estar a chegar aos hospitais já demasiado tarde, admitindo a possibilidade de atraso no diagnóstico e referenciação destes pacientes.

Os especialistas consideram que é necessários apostar nas políticas de prevenção das doenças respiratórias, nomeadamente no reforço da vacinação contra a gripe e contra a pneumonia, bem como no reforço das medidas de combate ao tabaco.

Número de locais com consulta para deixar de fumar desceu para metade entre 2009 e 2013

O número de locais com consultas de cessação tabágica reduziu para cerca de metade entre 2009 e 2013, uma situação que os especialistas consideram preocupante, porque pode dificultar o acesso a quem queira deixar de fumar.

“Verificamos que passamos de 223 consultas em 2009 para 116 em 2013, o que significa uma redução para cerca de metade, algo que é obviamente preocupante”, refere o relatório.

A diminuição dos locais com consultas para deixar de fumar foi mais visível na região Norte, que passou de 85 locais em 2009 para 32 em 2013, embora tenha havido uma redução em todas as administrações regionais de saúde do país.

“Parece-nos indiscutível que esta quebra acarretará um aumento na dificuldade do acesso”, indica o Observatório.

Aliás, os dados apresentados sobre o total de consultas de cessação tabágica efectivamente realizadas mostram uma redução entre 2009 e 2013.

Na análise desses cinco anos, passou-se de 25.765 consultas realizadas em 2009 para 21.577 em 2013. Ainda assim, em 2013 registaram-se mais consultas do que nos anos de 2010, 2011 e 2012.

O pneumologista Carvalheira Santos, membro do Observatório, considerou que a diminuição dos locais com consultas de cessação tabágica está relacionada com o decréscimo de profissionais de saúde.

O especialista considerou essencial melhorar o acesso dos doentes a estas consultas, bem como uma comparticipação dos medicamentos para deixar de fumar.

Lembrando que o tabagismo é considerado uma doença, também o presidente do Observatório, Teles de Araújo, sublinhou a necessidade de reforçar as consultas para deixar a fumar e a comparticipação dos medicamentos para “ajudar no complexo processo de desabituação tabágica”.

Além da comparticipação dos medicamentos, outra das medidas defendidas pelo Observatório e pela Fundação Portuguesa do Pulmão é a inclusão da vacina contra a pneumonia (conhecida pelo nome comercial de Prevenar) no Plano Nacional de Vacinação.

Menos de 1% dos doentes respiratórios têm acesso a reabilitação

Menos de um por cento dos doentes respiratórios crónicos têm acesso a reabilitação respiratória, que os peritos consideram urgente incrementar em Portugal por ter um papel central na evolução da doença e na melhoria da qualidade de vida.

“A reabilitação respiratória é virtualmente inexistente em Portugal. A ela apenas têm acesso menos de 1% dos doentes que dela beneficiariam”, refere o relatório do Observatório Nacional das Doenças Respiratória.

Os especialistas do Observatório e da Fundação Portuguesa do Pulmão recomendam a criação “urgente” de uma rede nacional de reabilitação respiratória, sublinhando que a evidência científica recomenda que esta reabilitação seja parte integrante do tratamento dos doentes crónicos.

A reabilitação respiratória tem por objectivo a redução dos sintomas, a melhoria da capacidade funcional e da participação nas actividades da vida quotidiana, estabilizando ou revertendo outros problemas associados à doença, como disfunções musculares ou desnutrição.

Durante a apresentação do relatório, os responsáveis do Observatório sublinharam ainda as “dificuldades na acessibilidade aos cuidados primários” que, no caso dos doentes respiratórios, “tem consequências gravosas”.

Para os pneumologistas, a falta de profissionais de saúde é um dos indicadores dos problemas no acesso aos cuidados de saúde, com especial destaque para a carência de enfermeiros.

O médico Carvalheira Santos sublinhou, durante a sessão de apresentação do relatório, que a crise financeira trouxe uma diminuição dos recursos, mas, ao mesmo tempo, um aumento das doenças transmissíveis, das doenças respiratórias e, por isso, mais procura de recursos de saúde.

No que se refere às doenças respiratórios, em 2013 Portugal registou mais de 13 mil óbitos entre as seguintes patologias: pneumonia, cancro, asma, tuberculose e doença pulmonar obstrutiva crónica.

Caso sejam contabilizadas outras doenças, como a gripe ou as fibroses pulmonares, o número de mortos pode mesmo elevar-se a 17 mil.

Um milhão de portugueses sofre de asma, mas doença está bem controlada

Cerca de um milhão de portugueses sofre de asma, doença que em 2013 causou 122 mortos e mais de 2.600 internamentos, mas a patologia tem sido bem controlada e Portugal é um dos países com menor taxa de internamento.

No Dia Mundial da Asma, que hoje se assinala, Portugal é apontado como tendo indicadores favoráveis em relação à taxa de internamentos por este doença, embora nos últimos anos tenha havido aumento de internamentos.

Segundo os dados do relatório do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias, o número de internamentos por asma em 2013 subiu 50% em relação a 2004.

Ainda assim, os especialistas consideram que o número de internamentos por asma é baixo, o que traduz “um bom controlo dos asmáticos no ambulatório”.

Em relação aos óbitos, a mortalidade por asma tem vindo a decair, registando um decréscimo de 40% em relação há 10 anos.

“Admite-se que a asma brônquica atinja cerca de um milhão de portugueses e todos os indicadores apontam no sentido de que a seu peso tenderá a aumentar”, refere o relatório.

De acordo com o Observatório, a asma atinge uma população jovem. Em 2013, foram internados por asma 1.159 doentes com menos de 18 anos (44,3% dos internamentos por essa patologia).

Os dados mostram ainda variações regionais na prevalência da asma, com as regiões com maior número de doentes internados a serem as de Lisboa e Vale do Tejo, região Centro e Norte.

Em 2013, último ano analisado por este relatório, estavam registados nos centros de saúde 203 mil doentes com o diagnóstico de asma, um aumento de 47% face ao ano anterior, mas ainda assim muito abaixo do um milhão de doentes estimados.

 

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