Hopital Santa Maria admite processar autores do estudo da Fundação Manuel dos Santos
DATA
28/05/2015 18:14:20
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Jornal Médico
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Hopital Santa Maria admite processar autores do estudo da Fundação Manuel dos Santos

Martins Carlos_Santa Maria

O presidente do Hospital Santa Maria, em Lisboa, admitiu hoje processar os autores do estudo encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, cuja análise apresenta esta unidade de saúde como estando minada pela corrupção.

“O que está em causa é toda uma instituição que é património de SNS e dos portugueses. Uma instituição como o Santa Maria não pode ser tratada desta forma, nem se pode reescrever a história”, disse Carlos Martins, em entrevista à agência Lusa.

Segundo o administrador, o hospital vai enviar o estudo para “as entidades que têm competência inspectiva e de auditoria externas” e para o escritório de advogados da instituição para que verifiquem de que forma é que podem “valer o bom nome da instituição”.

Questionado sobre a intenção de processar a Fundação Francisco Manuel dos Santos, Carlos Martins foi peremptório: “Não descarto nenhuma hipótese, nenhuma em absoluto”.

Segundo o estudo “Valores, qualidade institucional e desenvolvimento em Portugal”, encomendado pela fundação, o Hospital de Santa Maria está minado por uma teia de interesses e lealdades a partidos políticos, à maçonaria e organizações católicas.

“A Maçonaria, a Opus Dei e a ligação a partidos políticos ainda são três realidades externas que intersectam a esfera do Hospital de Santa Maria”, refere o estudo.

Carlos Martins, que desde 2013 dirige o conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN), de que fazem parte o Santa Maria e o Pulido Valente, recebeu as notícias sobre o estudo com “surpresa e indignação”.

“Surpresa porque, de acordo com o compromisso assumido pela equipa de investigadoras com esta instituição, o estudo tinha um âmbito académico, um grau elevado de confidencialidade, seguia as boas práticas científicas e seria do conhecimento do conselho de administração o seu relatório preliminar”.

A indignação do administrador deveu-se ao facto de, em termos de rigor científico e em relação ao compromisso entre a equipa de investigadores e a instituição, “nada disso foi cumprido”.

“Mais lamentável é que se coloque em causa, perante um país, uma instituição com 60 anos de serviço público”, afirmou.

Para Carlos Martins, este estudo “lança sobre toda a instituição uma imagem de más práticas de gestão, de interesses organizados, de captura, de orfandade, de abandono pelos accionistas da instituição”, o que “é de uma irresponsabilidade tremenda”.

“Quem diz que a instituição está órfã e está capturada tem de provar”, sublinhou.

O administrador reconhece que se vive hoje “um momento politicamente mais quente que o normal: estamos em ano de eleições legislativas”.

“Sei que, internamente, também é um momento com uma temperatura mais elevada, já que há eleições para a faculdade [de Medicina] – também visada no estudo – e o conselho de administração termina o seu mandato no final do ano”.

“Não acredito que há bruxas, mas começam a existir circunstâncias demasiado estranhas”, desabafou.

O estudo envolveu vários investigadores e foi coordenado pela professora da Universidade Nova de Lisboa Margarida Marques e pelo professor da Universidade de Princeton Alejandro Portes.

Entretanto, em comunicado, a Reitoria da Universidade Nova de Lisboa veio esclarecer que o estudo em causa “é da exclusiva responsabilidade dos investigadores envolvidos e não reflecte a posição institucional desta universidade”.

Também a organização Opus Dei desmentiu “categórica e integralmente” as afirmações que constam do estudo de que nos processos de nomeação dentro do Hospital de Santa Maria interferem "dinâmicas externas próprias à sociedade portuguesa — como (...) a Opus Dei".

Dados que apontam corrupção no Santa Maria assentam em metodologia científica

A investigadora da Universidade de Lisboa responsável pelo relatório sobre qualidade e funcionamento do Hospital de Santa Maria afirmou que os dados recolhidos que apontam para corrupção naquela instituição foram “cuidadosamente analisados, com base numa metodologia científica”.

Sónia Pires, que avaliou a qualidade e funcionamento daquele Hospital, no âmbito do estudo “Valores, qualidade institucional e desenvolvimento em Portugal, afirmou que “o estudo fundamenta-se em dados que foram recolhidos e, portanto, o material empírico foi feito com uma base científica”.

A investigadora reagia às declarações feitas pelo presidente do Hospital Santa Maria, que admitiu processar os autores do estudo.

“Os dados foram cuidadosamente analisados, foram feitos com base numa metodologia científica, pelo que estou particularmente surpreendida com esta reacção”, disse a investigadora.

“Aquilo que o ensaio escreve […] e os dados indicam que houve um processo durante largos anos de um fenómeno de corrupção em larga escala, mas isso, e eu quero frisar, que tudo o que está avançado foi feito com base em dados que foram recolhidos junto de agentes internos ao Hospital, bem como agentes externos do Hospital”, fundamentou Sónia Pires.

Fundação Francisco Manuel dos Santos recusa comentar eventual processo judicial

O presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos recusou comentar o eventual processo judicial de que poderá ser alvo por parte do Hospital de Santa Maria.

“Não me vou referir a processos judiciais dos quais não tenho nenhum conhecimento neste momento. Este estudo tinha um objectivo que era estudar a qualidade das instituições portuguesas. Seguiu o método etnográfico, chegou a bom porto, tem as suas conclusões publicadas, acho que se cumpriu a missão”, disse Nuno Garoupa.

Nuno Garoupa afirmou que, quer as reacções da Opus Dei, quer do Hospital de Santa Maria “não surpreendem no sentido em que são agentes do espaço público visados no trabalho e é normal que reajam ao trabalho”.

“O que não faz sentido é dizer que um estudo ia ser confidencial, a fundação não faz estudos para eles serem confidenciais. O que não quer dizer que as conclusões do estudo tenham de agradar a todos”, declarou o responsável,

Rejeitando que haja “censura” no seio da fundação, Nuno Garoupa afiançou que “a fundação não só não faz estudos confidenciais – o que não pode impedir de forma nenhuma – […] e nunca fez nem nunca faz censura aos estudos encomendados aos autores”.

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Editorial | Conceição Outeirinho
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