Sida: Governos ou pagam hoje a conta ou vão pagar uma dívida no futuro
DATA
01/06/2015 16:08:07
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Jornal Médico
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Sida: Governos ou pagam hoje a conta ou vão pagar uma dívida no futuro

VIHSida

O director-adjunto do Centro de Excelência em VIH/Sida da Colúmbia Britânica, Rolando Barrios, alertou ontem em Coimbra para a necessidade de se implementar o tratamento anti-retroviral como prevenção.

E, se isso não acontecer, alertou, os governos terão de "pagar uma dívida no futuro".

O TAsP ("Treatment as prevention" - Tratamento como prevenção), que é o uso do tratamento anti-retroviral nos indivíduos logo que são diagnosticados com o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH), é "fundamental" para se diminuir o número de novas infecções, podendo com este mecanismo "eliminar-se virtualmente o VIH", disse à agência Lusa o investigador guatemalteco a trabalhar no Canadá.

"Os Governos olham a curto prazo e têm de olhar a longo prazo porque ou pagam hoje a conta ou vão pagar uma dívida no futuro", alertou o investigador e médico, que falava à margem do 6.º Congresso das Pandemias, que começou na quinta-feira, no Hotel Vila Galé, em Coimbra.

O conceito do TAsP, nascido num grupo do Centro de Excelência liderado pelo investigador Julio Montaner, foi aplicado inicialmente na província canadiana da Colúmbia Britânica, em que as pessoas diagnosticadas com o VIH iniciaram de imediato o tratamento anti-retroviral, ao contrário do que acontecia antes, em que só se iniciava o tratamento quando "os níveis de defesa estavam muito baixos", aclarou.

"De 700 novas infecções em 1995, a província passou a ter apenas 250 novas infecções por ano", sublinhou Rolando Barrios, referindo que o TAsP controla o vírus, previne a evolução do HIV para a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Sida) e "o risco de transmissão reduz-se em 95%".

Apesar de um investimento "elevado" no tratamento ao longo da vida do paciente, o TAsP levou a que "Governo de Colúmbia poupasse agora quatro milhões de dólares por ano", acrescentou, realçando que "as outras províncias" canadianas, que não aderiram ao TAsP, "não estão bem e gastam muito dinheiro com os novos infectados".

Para Rolando Barrios, o grande desafio para o futuro será também o trabalho em torno dos jovens, que é onde se "assiste, globalmente, à maioria das transmissões", salientou.

"Estes jovens não viveram a experiência inicial, não perderam amigos com o VIH e sentem-se invencíveis", constatou, apontando para a necessidade de se pensar em abordagens junto desta faixa etária.

Por outro lado, o director do Programa Nacional para a Infecção VIH/Sida, António Diniz, afirmou que a possibilidade de tratamento como prevenção está prevista nas recomendações elaboradas pelo programa desde 2012, considerando que Portugal deve "caminhar" no sentido de se fazer "tratamento [anti-retroviral] a todas as pessoas [diagnosticadas com o vírus]".

Contudo, é necessário negociar com a indústria farmacêutica para não se "onerar excessivamente o Serviço Nacional de Saúde", apontou.

De acordo com António Diniz, o grande objectivo do programa passa no momento pelo "diagnóstico precoce" e pela "disseminação dos meios de prevenção".

Em Portugal, dados apontam para a existência de 60 mil infectados com o VIH.

Urgências no SNS – só empurrar o problema não o resolve
Editorial | Gil Correia
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É quase esquizofrénico no mesmo mês em que se discute a carência de Médicos de Família no SNS empurrar, por decreto, os doentes que recorrem aos Serviços de Urgência (SU) hospitalares para os Centros de Saúde. A resolução do problema das urgências em Portugal passa necessariamente pelo repensar do sistema, do acesso e de formas inteligentes e eficientes de garantir os cuidados na medida e tempo de quem deles necessita. Os Cuidados de Saúde Primários têm aqui, naturalmente, um papel fundamental.