Portugueses dispostos a trabalhar mais por melhor Saúde e Educação
DATA
18/12/2015 10:38:21
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Jornal Médico
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Portugueses dispostos a trabalhar mais por melhor Saúde e Educação

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De acordo com os resultados do estudo realizado pela consultora McKinsey, divulgados no passado dia 16, a maioria dos portugueses estaria disponível a trabalhar mais e por mais tempo, bem como a sacrificar alguns dos seus benefícios sociais em troca, principalmente, de mais rendimento disponível, de melhor educação, e de melhores cuidados de saúde, segurança pública e proteção ambiental. A unanimidade é quase total quando se trata do desejo de melhorar estes últimos benefícios sociais

As conclusões são do estudo “Portugal: Escolhas para o futuro” e resultam de um inquérito a 2.000 portugueses com mais de 18 anos, que se baseou num sistema de trocas de incentivos e custos, para saber que compromissos os portugueses estariam dispostos a sacrificar para melhorar o seu bem-estar socioeconómico.

Ao contrário dos estudos de opinião tradicionais, que tendem a abordar as questões de forma isolada, ignorando ligações entre si e, mais importante ainda, limitações reais, que frequentemente têm como resultado “listas de desejos” não exequíveis e não retratos realistas que possam ajudar a definir políticas coerentes, no estudo da McKinsey foi pedido aos inquiridos que escolhessem entre pares de cenários equivalentes, cada um apresentando quatro atributos. Os trade-offs entre atributos foram apresentados de forma explícita. Por exemplo, uma educação muito melhor implicaria uma ligeira redução de rendimento disponível.

Os cenários apresentados foram desenhados de modo a garantir a sua equivalência em termos económicos, e que a melhoria de um atributo ocorreria sempre à custa de outro.

Os oito atributos utilizados na análise foram a saúde, educação, ambiente, proteção social, segurança pública, rendimento disponível, horas de trabalho e maior esforço/meritocracia no trabalho (como indutor de produtividade). Entre os atributos testados, as horas de trabalho e o esforço adicional e meritocracia no trabalho permitiam aumentar (ou diminuir) diretamente o output económico. Nos cenários propostos, sacrificar um dos atributos libertaria recursos para alcançar melhorias noutros atributos.

Mais sacrifícios… mais dinheiro, educação, saúde…

Da análise das respostas obtidas, os portugueses inquiridos “estariam, em média, dispostos a trabalhar mais e por mais tempo, bem como a sacrificar alguns dos seus benefícios sociais em troca, principalmente, de mais rendimento disponível, de melhor educação, e de melhores cuidados de saúde, segurança pública e proteção ambiental”.

Num cenário de consenso generalizado entre os inquiridos, 76% dos portugueses estariam disponíveis para trabalhar sob maior pressão sobre o desempenho individual, com compensações associadas à produtividade, 18% para trabalhar mais horas e 7% disponíveis para reduzir ligeiramente o nível da proteção social.

Como moeda de troca do esforço suplementar, 39% dos inquiridos colocam no topo das prioridades o aumento do rendimento disponível, 25%, a qualidade dos serviços de saúde, 24% dos da educação, 9% da segurança pública e 3% das políticas ambientais.

De acordo com estimativas da McKinsey, “os compromissos revelados no cenário de consenso poderiam elevar o crescimento anual do PIB [Produto Interno Bruto] para níveis de 2,0 a 2,5% ao longo da próxima década, aproximadamente o dobro da taxa de crescimento projetada pela União Europeia”.

Comparando o cenário de consenso em Portugal com o verificado em outros 10 países europeus também estudados pelo McKinsey Global Institute (MGI), as preferências dos portugueses “estão em geral alinhadas com as dos inquiridos de países com menor rendimento per capita, como a Polónia, a Roménia, a Espanha e a Itália, onde os inquiridos se mostraram mais “disponíveis para sacrificar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional”. Já os cidadãos de países mais ricos, como o Reino Unido, França, Alemanha, Holanda e Suécia, mostraram maior disponibilidade para abdicar da proteção social.

Este é um cenário de consenso, ou seja, que seria aceite pela maior parte dos inquiridos com um nível baixo de controvérsia entre a sociedade, mas a consultora apresenta ainda um segundo cenário que contaria com o total apoio de dois terços dos inquiridos, mas com a total oposição de um terço dos portugueses, um cenário que, considera, poderia ser, ainda assim, “politicamente viável”.

Neste caso, 52% dos portugueses estariam dispostos a aumentar a pressão no trabalho e 48% a aumentar as horas de trabalho, mantendo o nível atual de proteção social. Em troca, 54% dos inquiridos exigiram um aumento do rendimento disponível, 22% uma melhoria dos serviços de saúde, 15% na educação, 8% na segurança pública e 1% no ambiente. Neste cenário, o acréscimo de produtividade permitiria “um aumento médio de crescimento económico entre os 2,5% e os 3% durante os próximos 10 anos”, admite a McKinsey.

Trabalhar mais horas?... nem por isso!

A possibilidade de aumentar as horas de trabalho “foi um dos atributos mais controversos do estudo”, com 44% dos inquiridos a declararem disponibilidade para trabalhar mais horas, 33% a manifestarem preferir manter o status quo e 23% que prefeririam trabalhar menos horas.

Refira-se que os inquiridos portugueses mostraram-se menos interessados em trabalhar mais horas do que os demais trabalhadores europeus, possivelmente porque já trabalham mais do que a maioria. Em 2014, os trabalhadores portugueses trabalharam, em média, 39 horas por semana, cerca de 10 por cento mais do que a média da UE e cerca de 10 horas mais do que os trabalhadores alemães. Adicionalmente, quase 10 por cento dos trabalhadores portugueses trabalhou, em média, mais de 50 horas por semana, quase o dobro da média da UE.

Outro dado relevante é o que informa que a disponibilidade para trabalhar mais horas aumentaria para 76% caso houvesse uma maior flexibilidade de horários (35% até mais duas horas e o restante acima dessas horas).

“É interessante notar que os inquiridos portugueses revelaram uma elevada predisposição para aceitar uma remuneração associada ao desempenho. Quando lhes foi perguntado especificamente, 74% disseram que uma componente variável dos salários deveria refletir o desempenho do trabalho, em comparação com uma média de 64% nos outros países europeus abrangidos pelo estudo”, considera a consultora, lembrando que atualmente apenas 36% dos empregos em Portugal tem um sistema de remuneração baseado no desempenho.

Melhorar produtividade e qualidade dos serviços públicos

Além disso, o estudo revelou igualmente “a vontade de melhorar a produtividade do sector público e a qualidade geral dos serviços públicos. Os inquiridos [onde se incluem, propositadamente, funcionários públicos] afirmaram pretender que os serviços públicos reduzissem os custos através do aumento da eficácia e da produtividade, bem como da simplificação da estrutura do sector público”. Sublinhe-se, todavia, que muito embora os funcionários públicos e os inquiridos em geral se tivessem mostrado genericamente alinhados relativamente a este item, há assinalar uma exceção relevante: melhores condições de trabalho para funcionários públicos, incluindo aumentos salariais, cujo apoio foi três vezes superior entre os funcionários públicos.

“No entanto, os funcionários públicos e a generalidade dos inquiridos, neste estudo, divergiram quanto ao alinhamento das condições laborais do sector público, por exemplo salários, com as do sector privado. Três quartos dos inquiridos concordaram com a padronização das condições de trabalho entre os sectores público e privado, sendo esta opinião, por outro lado, partilhada por apenas 53 por cento dos funcionários públicos”, informa o estudo.

Já no que diz respeito à proteção social, a maioria dos portugueses inquiridos “revelaram disponibilidade para sacrificar uma pequena parte da proteção social e libertar recursos para os outros fins”.

Contudo, esta é uma medida “especialmente controversa”, uma vez que os inquiridos “repartiram-se de forma bastante equitativa entre os que afirmaram querer uma maior proteção social, os que não quiseram mudança nenhuma, e os que quiseram menos benefícios”.

A nível europeu, a tensão em torno da proteção social foi mais evidente entre os inquiridos de países com menores rendimentos, enquanto os inquiridos de países com rendimentos mais elevados revelaram uma inclinação muito maior para cortar benefícios.

Quando questionados sobre como sustentar a Segurança Social em Portugal, 37% dos inquiridos apresentaram como primeira ou segunda escolha o aumento das contribuições empresariais. A redução de benefícios, o aumento da idade de reforma e o aumento de outros impostos indicados foram as soluções apontadas por menos de 20% dos inquiridos.

Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro
Editorial | Conceição Outeirinho
Preparados para o Futuro? // Preparar o Futuro

O início da segunda década deste século, foram anos de testagem. Prova intensa, e avassaladora aos serviços de saúde e aos seus profissionais, determinada pelo contexto pandémico. As fragilidades do sistema de saúde revelaram-se de modo mais acentuado, mas por outro lado, deu a conhecer o nível de capacidade de resposta, nomeadamente dos seus profissionais.