No passado dia 19 de outubro, o ortopedista Jorge Mineiro foi distinguido pela European Union of Medical Specialists (UEMS) pelo seu trabalho em Ortopedia a nível europeu. O Jornal Médico falou com o especialista para aferir a importância da distinção e da formação contínua na carreira médica.

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O Jornal Médico falou com o Coordenador de Ortopedia e diretor clínico cessante do Hospital CUF Descobertas, Jorge Mineiro, sobre o lançamento do livro de Casos Clínicos CUF Descobertas e as principais mensagens e mudanças nos últimos anos referentes a casos clínicos.

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sexta-feira, 27 março 2015 10:57

Dois anos de ouro da ortopedia portuguesa

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Jorge Drapper Mineiro presidiu à Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia num biénio de ouro para a ortopedia nacional, ao longo do qual três portugueses estiveram à frente de algumas das mais prestigiadas associações europeias da especialidade. Defende a criação de um único centro de referenciação dos tumores ósseos pediátricos a nível nacional e de três outros – em Lisboa, Porto e Coimbra – para traumatologia muito grave. Quer “padronizar” a formação ministrada no internato da especialidade, de modo a pôr termo às discrepâncias que se registam entre centros com idoneidade formativa e lançou as bases para a criação de um programa de recertificação profissional…

Programa polémico “qb”, mas que vê como inevitável, defendendo ser preferível serem os médicos a tomarem a iniciativa, definindo as regras, do que daqui a alguns anos vir o Governo impô-lo, determinando o modo como deve ser realizado. Em entrevista ao nosso jornal, o também director clínico do Hospital CUF Descobertas fez o balanço de dois dos anos mais marcantes da Ortopedia nacional.

JORNAL MÉDICO | Sustentou a sua presidência em cinco pilares de actuação para o biénio 2013/2014. Comecemos pelo último, o da intervenção com a tutela. Foram bem-sucedidos?

JORGE DRAPPER MINEIRO | Não! A SPOT tem um historial de colaboração já longo, em diversas comissões, com a Direcção-Geral da Saúde (DGS), com as administrações regionais de saúde (ARS) e com a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Ora, o que aconteceu é que essas actividades foram todas suspensas há cerca de dois anos. O único contacto que tivemos a nível de direcção foi com o senhor Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde (SEAMS), Prof. Leal da Costa, a quem manifestámos a preocupação da SPOT relativamente a áreas que consideramos prioritárias, como a da referenciação dos tumores ósseos pediátricos, para a qual defendemos que Portugal deveria ter apenas um centro de referenciação.

JM | E qual seria?

JDM | O Hospital Pediátrico de Coimbra, que é o único que trata com regularidade a patologia e que todos reconhecemos como sendo um centro de referência nesta área.

JM | Qual foi a receptividade que a vossa proposta mereceu do SEAMS?

JDM | Muito boa! Como também foi muito bem recebida a nossa proposta de criação, a nível nacional, de três centros de referenciação para a traumatologia pediátrica. Um em Lisboa, no Hospital de D. Estefânia, outro no Porto, no Hospital de São João e um terceiro no Hospital Pediátrico de Coimbra. É claro que falamos de centros de referenciação para traumatologia muito grave, com grande complexidade. Os casos mais simples deverão continuar a ser tratados nos hospitais que já hoje os tratam.

JM | Foram dois anos particularmente difíceis para o país, com cortes orçamentais a todos os níveis, incluindo na Saúde. A crise reflectiu-se na especialidade?

JDM | Claro! Os hospitais tiveram grandes limitações de recursos, tanto humanos como materiais. Isto reflectiu-se, muitas vezes, no conseguir as próteses “a horas” e na própria escolha do material. E aqui importa dizer que esta “guerra” também teve o seu “lado positivo”. Olhe, por exemplo, até há pouco tempo eu não fazia a menor ideia de quanto é que custavam a maior parte das próteses que utilizava e de quais eram os custos da nossa actividade diária. Hoje sabemos todos quanto é que custa cada parafuso para a coluna. O custo passou a ser uma preocupação. O que acabou por se reflectir positivamente noutras áreas. Hoje temos uma política muito mais restritiva de prescrição de antibióticos. Penso que com o tempo, acontecerá o mesmo com as próteses, por exemplo da anca e do joelho, em que hoje se regista o recurso a uma diversidade enorme de modelos, com preços que podem ir de alguns milhares de euros a poucas centenas. Não faz sentido que esta situação se mantenha. Se olharmos para os países mais ricos da Europa, verificamos que todos têm políticas muito restritivas de utilização de próteses, baseadas na evidência. Portugal terá que seguir o mesmo caminho.

JM | A emigração de médicos portugueses, recém-especializados e mesmo com longa experiência, está na ordem do dia. A ortopedia foge à regra?

JDM | Não. Temos muita gente a emigrar. Maioritariamente internos. Temos vários especialistas nos países do Médio Oriente, outros na Irlanda, na Austrália…

JM | Fazem falta cá?

JDM | Claro que fazem falta! Particularmente nesta fase muito crítica em que estamos agora a entrar, ao longo da qual os especialistas dos últimos anos em que houve abundância de ortopedistas se vão reformar. Eu terminei o curso num desses últimos anos de “fartura”. Depois foi o “vazio” criado pelo numerus clausus. Os próximos anos serão muito críticos.

JM | Há como limitar os estragos?

JDM | Há sempre. Desde logo, começando por “limpar a casa”, criando condições para que as pessoas não se sintam impelidas a emigrar.

JM | Existe capacidade, em termos de idoneidades formativas, que permita aumentar o número de internos?

JDM | Isso eu duvido. O número de centros de formação e a capacidade dos formadores é outro problema grave que temos e que é transversal a todos os serviços de ortopedia. Como se sabe, muitos formadores saíram dos hospitais do SNS para irem trabalhar em instituições privadas. Portugal tem que diminuir o número de centros de formação e dar melhores condições aos que optarem por esta vertente. Nem todos os serviços de ortopedia têm que ter internos!

JM | E os privados não poderão assumir também essa função?

JDM | Podem e já o fazem! Por exemplo aqui no CUF Descobertas passam internos de todo o país, que vêm fazer formação em áreas específicas, como as da coluna, ombro, joelho e mão… E não só na Ortopedia. Temos idoneidade formativa em Pediatria, Otorrino, imunoalergologia. Somos, aliás, o único hospital do país com capacidade total em imunoalergologia.

JM | Outro dos pilares em que a sua presidência apostou foi o da intervenção na sociedade civil… Que acções destaca?

JDM | Entre outras iniciativas realizámos várias campanhas de Prevenção dos Acidentes de Mergulho (terceiro ano consecutivo), para a qual contámos com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Trata-se de um problema que nos preocupa muito dada a gravidade que podem assumir este tipo de situações, perfeitamente evitáveis. E que em Portugal assume proporções assinaláveis dada a dimensão da nossa costa e também devido a algum desleixo na aplicação da legislação que regula o funcionamento das piscinas públicas, muitas vezes não vigiadas, ainda que a lei a isso obrigue. Este ano vamos iniciar uma intervenção nas escolas, que se estenderá a outros locais e eventos, como os festivais de música no início da época balnear.

JM | Conseguiram quantificar resultados dessas acções?

JDM | Sim. Por exemplo, que uma percentagem considerável dos acidentes ocorre em piscinas privadas. Ora, sabendo-se que assim é, defendemos que a lei deveria obrigar a que fossem colocados avisos no fundo das piscinas, nas áreas menos profundas, visíveis à superfície, alertando para o perigo de se mergulhar aí.

JM | Têm também actuado noutras áreas…

JDM | Na prevenção de quedas nos cidadãos seniores, uma das principais causas de morbilidade e mortalidade nesta faixa etária e também uma das principais áreas de intervenção da ortopedia. De acordo com as últimas estatísticas disponíveis, num só ano (2006 ou 2007) trataram-se em Portugal mais de 9.500 fracturas do colo do fémur, o que se traduziu, só em custos hospitalares, em cerca de 50 milhões de euros. Ora, se pensarmos que o número de fracturas tem vindo a aumentar exponencialmente nos últimos anos, fruto do envelhecimento cada vez mais acentuado da nossa população, não há como não investir na prevenção. Repare que muitas das quedas que ocorrem nestas idades resultam de falta de cuidado. No passado dia 11 foi lançada, com o apoio da Fundação Vodafone, uma campanha nacional na qual procurámos envolver o maior número possível de instituições que lidam com estes cidadãos. Foram enviados materiais de apoio para cerca de 1.500 centros e criada uma rede envolvendo todos os serviços de ortopedia do País, aos quais pedimos que designassem um elemento para coordenar as diversas campanhas de prevenção nas respectivas áreas de influência. Esta campanha envolverá, ainda, a emissão de mensagens radiofónicas, fáceis de fixar. Paralelamente, iremos às escolas dar formação aos jovens, para que estes possam ser agentes activos de prevenção. No fundo, capacitar o neto para que este possa por sua vez ensinar os avós a evitarem quedas ou a adoptarem medidas que facilitem, em caso de necessidade, o pedido de auxílio.

Finalmente a campanha “Articule-se”, que já vem do mandato anterior e que tem como destinatários pessoas que foram submetidas a artroplastias da anca e do joelho. O objectivo é incentivar essas pessoas a “mexerem-se”, promovendo deste modo a mobilidade e com ela uma melhor qualidade de vida física e psíquica.

Com o apoio da Câmara Municipal de Cascais vamos realizar a 23 de Maio o primeiro “Passeio das Artoplastias”, para o qual pretendemos mobilizar todas as pessoas nesta situação da Região de Lisboa.

JM | “Integração Europeia”: o terceiro pilar do seu mandato. Como concretizaram este objectivo?

JDM | Foi um sucesso, que se explica em boa parte com o facto de eu ter tido a sorte de presidir à SPOT num “biénio de ouro” da ortopedia portuguesa. Foi um fruto que eu colhi de quem o plantou nas últimas décadas e que nos introduziu nestas instâncias. Ao longo destes dois anos, tivemos um português, o Dr. Cassiano Neves, como presidente da Federação Europeia de Ortopedia e Traumatologia (EFORT). À frente da European Society for Sports Traumatology, Knee Surgery and Arthroscopy (ESSKA) esteve o Prof. João Espregueira-Mendes e do European Board of Orthopaedics and Traumatology da Union Européene des Médecins Spécialistes (UEMS), o Dr. Paulo Felicíssimo. Finalmente eu próprio presidi e presido ao Exame do Board Europeu de Ortopedia e Traumatologia (EBOT Exam).

Neste período promovemos uma reaproximação à Sociedad Española de Cirugía Ortopédica y Traumatología (SECOT) que entre outras vertentes permitiu que nas reuniões anuais das duas sociedades haja uma sessão organizada pela “sociedade visitante”. Não menos importante nesta aproximação foi a criação de um programa de intercâmbio de formação dirigido a internos dos dois países.

Mas apostámos também na participação e intercâmbio da SPOT em reuniões e outras iniciativas com sociedades congéneres europeias e do continente norte e sul-americano. De estre estas, destaco o intercâmbio com a British Orthopaedic Association (BOA), que se consubstanciou, entre outras iniciativas, na realização de três cursos, realizados em Portugal e ministrados por especialistas britânicos de renome mundial, nomeadamente o Professor Andrew Carr, de Oxford e o Dr. James Scott, editor hemeritus do JBJS britânico.

Ainda na vertente “internacional”, destacaria a presença em Portugal, a convite da SPOT, do Prof. Stuart Weinstein, uma referência mundial da Ortopedia Pediátrica, que além de ter sido presidente da American Academy of Orthopaedic Surgeons é conselheiro para assuntos de Saúde do Senado norte-americano.

Finalmente, a celebração de um convénio de intercâmbio de internos com o Brasil, que permite a jovens internos e especialistas portugueses trabalharem durante um mês em serviços brasileiros e vice-versa. A sociedade a que pertence o interno paga a viagem e a que recebe, a estadia.

JM | E ainda houve tempo para a cooperação com África…

JDM | Ao longo dos últimos dois anos continuámos a dar apoio a serviços em S. Tomé e Príncipe, no âmbito do programa “Saúde para Todos”, da Fundação Marquês de Valle-Flor. Normalmente deslocamos dois ortopedistas, um mais novo, outro com mais experiência, em missões com uma semana de duração, duas a três vezes por ano.

JM | A investigação científica foi também um dos elementos-chave da sua presidência. O que foi possível fazer nessa área?

JDM | Foi criada uma comissão, coordenada pelo prof. Jacinto Monteiro, que realizou um levantamento nacional de instituições públicas e privadas com interesse na participação de ortopedistas em investigação e desenvolvimento na área da ortopedia ou do aparelho músculo-esquelético. Feito esse levantamento, enviámos uma carta a todos os ortopedistas e internos da especialidade com o objectivo de saber se estariam interessados em colaborar nesses projectos. Ficámos a saber que alguns já estavam a colaborar e que outros estavam interessados em aderir. Estamos neste momento a fazer o “matching” investigador/instituição, patrocinando a SPOT as deslocações e estadias dos médicos seleccionados durante o período em que decorrer o trabalho de investigação.

JM | Lançou no seu mandato as bases para a criação de um programa de recertificação profissional… É pacífico?

JDM | Nada! É um tema “tabu”. Mas não tenhamos a menor dúvida de que vem aí, goste-se ou não. E nisto – como em muitas outras coisas – das duas, uma: ou somos nós a tomar a iniciativa ou é o Governo que daqui a alguns anos vem impor – ditando as regras – que nos mantenhamos actualizados e que façamos prova disso.

JM | Como é que se ultrapassa a total falta de consenso sobre a matéria?

JDM | A falta de consenso não é para mim o principal problema. Não me assusta. Já me tenho metido em projectos nos quais começo sozinho, como o do “Certificado Europeu”, que há cerca de 15 anos toda a gente olhava com desconfiança e que hoje está em franca expansão, sendo reconhecido na maioria dos países.

JM | Em Portugal…?

JDM | Penso que numa primeira fase o caminho terá que ser percorrido de forma voluntária. Quem quiser recertifica-se, quem não quiser, não, sendo certo que decorrido algum tempo, teremos dois tipos de especialistas: os que estão recertificados e os que não estão. O Dr. José Branco, responsável por esta comissão, fez um excelente trabalho, muito exaustivo, que exigiu pesquisar todos os modelos existentes na europa, do qual estamos ainda a discutir pormenores para podermos avançar.

JM | Vai funcionar?

JDM | Veja o caso dos Estados Unidos onde a recertificação também não é obrigatória. No entanto, quem não a tiver é excluído de uma série de coisas. Logo… As pessoas querem a recertificação. E aqui importa dizer que a certificação não é nenhum “papão”. Afinal de contas, só temos que fazer o que a maioria de nós já faz: mantermo-nos actualizados.

Tenho esperança de que ainda este ano consigamos iniciar em Portugal o primeiro processo de recertificação na Ortopedia. Se calhar serão apenas meia dúzia a voluntariar-se. “So what?”… É um começo.

Outra área que gostava muito de ver “mexer” é a do internato médico, nomeadamente a diminuição das diferenças ao nível da formação que se detectam entre serviços e regiões.

JM | Diferenças na formação… Como assim?

JDM | Há diferenças muito importantes entre um internato feito no Alentejo ou no Algarve, por exemplo, e o que é feito em Lisboa, Porto ou Coimbra. E também diferenças por vezes muito acentuadas que se registam entre instituições de uma mesma região. Gostava que essa diferença não fosse tão marcada.

Neste momento não existe forma de monitorizar a formação que é dada aos internos nos hospitais. Vamo-nos apercebendo de que algo se passa quando ouvimos os internos de um dado hospital queixarem-se de que só fazem “bancos” e de que só operam situações menos complexas e outros que se queixam precisamente do contrário: que só fazem artroplastias da anca e outras de maior complexidade e nada mais. É preciso diminuir esta diferença. E isso passa, a meu ver, pela implementação do LogBook Electrónico, um projecto que está a ser desenvolvido pela SPOT em colaboração com associações congéneres europeias que permite que o interno, ao longo de toda a sua formação, registe tudo o que fez, seja uma intervenção cirúrgica, a frequência de um curso ou a apresentação de uma comunicação oral. Tudo! A monitorização destes dados permitirá, no futuro, que se detectem e corrijam “desvios formativos” a nível nacional, a tempo de se corrigir a formação antecipadamente e não no último ano ou mesmo após o exame, se as coisas não correrem bem.

JM | Para terminar como vê hoje a ortopedia Portuguesa nos dias de hoje…?

JDM | Penso que a ortopedia nacional está de novo a dar mostras do seu valor. Ao longo dos anos temos tido a sorte de ter formadores nos hospitais que nos deram formação condigna e ao mais alto nível, razão pela qual me referi atrás às gerações anteriores que nos formaram e nos incentivaram a sair e a divulgar a ortopedia nacional e a içar bem alto a bandeira da qualidade da ortopedia portuguesa.

Por outro lado gostaria de frisar, como presidente do Comité do Exame Europeu (EBOT Exam), que praticamente todos os portugueses que se têm proposto a exame, têm tido uma performance brilhante, tendo Portugal uma das mais elevadas taxas de sucesso na relação prova/país. É sempre um enorme orgulho ver os Portugueses brilharem entre os demais especialista europeus. É por esta razão que me preocupa a normalização da qualidade do internato de ortopedia a nível nacional. Gostaria que fosse muito semelhante em todos os hospitais e que se nivelasse pelos melhores e não pelos piores, como por vezes acontece no nosso país.

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O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Editorial | Jornal Médico
O novo normal e a nova realidade – que alterações provocadas pela pandemia vieram para ficar?
Acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. Encontrar uma nova visão e adotar uma nova estratégia útil na nossa prática clínica quotidiana. Valorizar as unidades de saúde por estarem a dar as respostas adequadas e seguras é o mínimo que se exige, mas é urgente e inevitável um plano de investimento nos centros de saúde do Serviço Nacional de Saúde.

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