A trípode de Aquiles
DATA
10/03/2008 05:48:26
AUTOR
Jornal Médico
A trípode de Aquiles

No último número do JMF, manifestei um fraquinho pela política reformista de Correia de Campos II (CC II), mas deixei para agora o enumerar do que de negativo teve a sua actuação no domínio dos Cuidados de Saúde Primários (CSP).

No último número do JMF, manifestei um fraquinho pela política reformista de Correia de Campos II (CC II), mas deixei para agora o enumerar do que de negativo teve a sua actuação no domínio dos Cuidados de Saúde Primários (CSP).

 

A reforma dos CSP é, no modesto entender deste arrumador de palavras, uma iniciativa notável. Enquanto lhe segui de perto o progredir, pareceu-me robusta na concepção e transparente no processo de implementação. Mas assenta em pés de barros ou, se quiserem, tem calcanhares de Aquiles. Temos, pelo menos, três: 1º falta de médicos, 2º excessiva burocratização e 3º informatização anedótica.
CC II apenas entendeu a necessidade de mudança de cultura internamente, isto é, a reforma tinha por objectivo mudar métodos de trabalho dentro da organização com vista ao aumento de produtividade. Menosprezou modificações culturais externas. Correia de Campos tem uma visão burocratizante e totalitária dos CSP, segundo a qual, basicamente, os centros de saúde são umas repartições onde se emitem declarações, receitas e atestados, assumindo crescentemente o monopólio destas tarefas. Paralelamente também se exerce alguma clínica. O quanto baste.

O despovoamento médico
“Este parte, aquele parte. Galiza ficas sem gente”
Adriano Correia de Oliveira


A falta de médicos ultrapassou a imaturidade organizacional, apanágio dos serviços de saúde, enquanto ameaça mais crítica ao funcionamento do sistema. Se é verdade que CC II herdou este problema, que se tem vindo a agravar desde há décadas, não é menos verdade que não encarou o problema com a seriedade que seria de esperar.
Esta penúria é sentida de forma ambivalente pela tutela: durante 27, 28, 29 ou 30 dias (consoante o mês e ano) é causadora de preocupação. Porém, chegado o 25, os governantes são ressarcidos do seu penar, ao quantificarem as poupanças em salários não pagos. É pacificamente aceite por todos que o conceito clássico da equipa médico/enfermeiro/administrativo está esgotado e que são imprescindíveis outros profissionais nos CSP. Isto independentemente de haver, ou não, médicos em número suficiente. Mas sendo parco o stock de clínicos, mais uma razão para incluir aqueles profissionais no satff dos CS. Não consta que haja falta de psicólogos ou de dietistas em Portugal. Então, porque não os temos no SNS em número razoável, para, de algum modo, amortizar a escassez de clínicos? Talvez porque o desejo de bem servir foi submerso pela obsessão posta no equilíbrio financeiro. As legítimas preocupações com a contenção de gastos tomaram o freio nos dentes e os responsáveis esqueceram que a poupança é um meio e não um fim. O controlo sensato das despesas deu lugar à pura sovinice (demarco-me do termo “economicismo” que é ambíguo e, por vezes, oco). Esta avareza patinhesca, de tão cega, degenera, por vezes, em paradoxal agravamento do desperdício, que era suposto combater.
Por outro lado, se os reforços esperados com o (modesto) incremento de vagas para as faculdades de medicina demorarão mais de uma década a chegar ao terreno, seria de esperar que se usassem, com inteligência, os parcos recursos humanos existentes. Primeiro, seria lógico que o seu labor fosse aplicado em tarefas de alto valor acrescentado, evitando as fainas não prioritárias e suprimindo, sem dó nem piedade, as empreitadas inúteis. Segundo, esperávamos um investimento em alavancas de eficácia. Por exemplo, em ferramentas informáticas decentes. Aí CC II averbou dois estrondosos falhanços.

Informatização da treta
“Apresso-me a rir de tudo, com medo de ser obrigado a chorar”
Pierre Beaumarchais


O fascículo Alert é apenas mais um na longa e triste saga da informatização dos CPS em Portugal. Não nos bastavam os desgostos que um SAM nos vai proporcionando no dia-a-dia, para termos de aturar as tarouquices do tal emplastro. Há que reconhecer que, de longe em longe, lá vem um upgradezinho a encurtar o rosário das tontices incrustadas nos tais programas.
Por outro lado, a informatização dos serviços de saúde é bem mais complexa que noutras áreas. Mas se for verdade que Portugal é um dos países mais avançados em matéria de e-governance, como anunciaram recentemente não sei que estrangeiros, então temos motivos de sobra para aumentarmos a bitola de exigência e sermos mais severos no julgamento. Ao invés dos outros sectores da Administração a Saúde é o parente pobre e esquecido do choque tecnológico. E os CSP são o parente paupérrimo. Se nos deslocarmos à periferia da periferia, às extensões rurais, então questionamo-nos se estaremos ainda em Portugal, ou se teremos atravessado, inadvertidamente, alguma fronteira virtual com o terceiro mundo. Na minha extensão, sem banda larga, a informação arrasta-se a velocidades ridículas pelos filamentos de cobre. Em “horas de ponta”, já cheguei a registar velocidades inferiores a
2 Kbs! Estonteante, não é?! E o contribuinte lá vai pagando ao médico para ficar segundos longuíssimos a olhar para o monitor, cada vez que intenta abrir a janela dos ECD do SAM ou dos CIT.

Simplex: o mito
“Colocar mais dinheiro num sistema que desperdiça deste modo é criar mais desperdício e em nada contribui para lutar contra ele”
Manuel Antunes in ‘Reformar Portugal’


Pertenço ao coro dos que reclamam, há muito, uma poda na plêiade de papeluchos, declarações e atestados que atulham as nossas secretárias e sugam tempo e paciência aos médicos de família. Em vão se nos enrouqueceu a voz. Empossou CC II uma comissão com o fito de levar a cabo uma limpeza dos tais penduricalhos burocráticos, mas a montanha pariu um rato e eles aí estão, sobreviventes à tibieza dos comissários, cheios de viço e a prometer longa vida ao estado-complex. Em boa hora a Ordem dos Médicos (OM) se demarcou daquela farsa. Mais uma vez a Saúde ficou esquecida num país que, reconhecidamente, lá vai agilizando o funcionamento da máquina administrativa.
Mais do que desrespeito pelo trabalho dos MF, esta hipertrofia de spam burocrático, demonstra pouca valorização do dinheiro dos contribuintes.
Mas CC II já era e se postumamente o cronista opina sobre o tema é porque ainda nutre alguma esperança (pouca, confessa) que a sucessora seja capaz de substituir a somitiquice, por esclarecido sentido da economia, cortando nas despesas inúteis e investindo em produtividade.

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