Também eu, provavelmente, estou de saída
DATA
17/04/2008 08:59:49
AUTOR
Jornal Médico
Também eu, provavelmente, estou de saída

Fiquei surpreendido pelo facto de a Senhora Ministra estar ao que parece seriamente preocupada com a saída de muitos colegas do SNS para o sector privado da saúde

 

Confesso que fui apanhado de surpresa pelas recentes declarações da actual Ministra da Saúde Dra. Ana Jorge. Fiquei surpreendido pelo facto de a Senhora Ministra estar ao que parece seriamente preocupada com a saída de muitos colegas do SNS para o sector privado da saúde.

Concomitantemente, o meu "irmão" José Luís Biscaia, num documento tornado público, veio mostrar a sua apreensão ao que parece ser um "assalto" aos lugares de chefia dos ACES, no que foi seguido pela maioria dos coordenadores das USF.

Eu, pela minha parte, ando desde há alguns meses "embrulhado" com a tutela, num processo que para aqui não é chamado.

Devido a estas três situações, tenho procurado reflectir sobre algumas das causas que levam a um cada vez maior desencanto dos médicos do SNS e que tem levado a que a rotura se tenha instalado, como não era possível prever há poucos anos.

Sou médico há cerca de 30 anos e Médico de Família há mais de 25 anos e desde sempre só trabalhei para o SNS.

Nunca quis colocar outras hipóteses, tendo mesmo recusado liminarmente duas ou três abordagens com propostas de trabalho fora deste quadro.

Quem me conhece sabe que sempre recusei todas as ofertas para cargos que me fizeram, excepto aquelas que implicaram trabalho. Trabalho no terreno, "com o estetoscópio às costas". Apoio a todas as formas de ensino, quer pré, quer pós graduado. Sempre solidário e disponível para ajudar no que soubesse, recusando apenas o "estar por estar", ou quando tecnicamente não me sentia preparado para o pedido. Nunca quis contrapartidas.

Ainda hoje mantenho o ideal da MGF. Sim, porque para ser MF tem que se ter um perfil, onde para além da componente técnica da especialidade, existe "a alma da MGF".

Então porque é que sou mais um que prepara a saída?

É um sentimento misto de frustração, de insatisfação e de revolta.

Frustração pela dificuldade de reconhecimento da própria especialidade, quer pelos nossos pares, quer pelos políticos, quer mesmo pela população em geral, da qual toda a gente fala como absolutamente indispensável em termos teóricos, como "centro do sistema de saúde", mas que menosprezam na prática, tratando-nos como médicos menores ou menos qualificados.

Insatisfação, pela constante luta por melhores condições para a prática da nossa especialidade, propondo soluções como as USF, que esbarram permanentemente em obstáculos muitas vezes não perceptíveis e de aparente fácil resolução.

Insatisfação, ainda, por assistir dentro da MGF a uma discriminação entre quem está a trabalhar nas USF, e a grande maioria que se mantêm nos "velhos Centos de Saúde", não cuidando de saber as causas desta situação, que na sua maioria não podem ser assacadas aos médicos, mas a causas estruturais.

Revolta, porque depois de 25 anos de serviço, sinto-me tratado sem respeito, sem a consideração que a minha dedicação à causa pública merecia… Sim!... Porque quem trabalhou, como eu, no SNS, todos estes anos sem nunca ter necessitado de "dedómetros" para chegar antes da hora e sair só quando não havia mais nenhum doente para ver; sem cuidar de que horas eram, ou se a hora de almoço "tinha ido à vida", porque havia utentes para atender… Custa-lhe dizer a um doente que terá que esperar para de tarde, porque como é meio-dia e meio é preciso ir pôr "o dedo" e ir almoçar, para dali a uma hora o colocar de novo, sob pena de não cumprimento do horário de trabalho… E risco de instauração de um processo disciplinar, pelos burocratas do costume.

Custa-me ter de ser indiferente aos argumentos de muitos doentes, que perante a recusa, argumentam com o táxi, alugado a meias com as vizinhas… E que a expensas solitárias, obrigam ao dispêndio de 25 ou mais euros" a gente que vive com pensões miseráveis. Como também me custará a indiferença aos apelos de uma mãe aflita, habituada a ser atendida logo que chega. Custam-me. A indiferença a que fico obrigado tira-me anos de vida.

Quando era prioritariamente médico e também funcionário público, nunca os doentes ficaram sem consulta. Agora que sou prioritariamente funcionário público e também médico, já não posso garantir o mesmo.

Revolta ainda porque, institucionalmente, deixou de haver doentes, com nomes, caras conhecidas, características peculiares que os distinguiam cada um do outro para passarem a existir números estatísticos onde os custos estão sempre em primeiro lugar, desde "a prescrição racional" aos meios complementares de diagnósticos que devem ficar na "média".

Causam-me repulsa reuniões onde nunca se fala de qualidade, em qualquer das suas vertentes; nunca se fala de indicadores de gestão clínica, mas sempre e só de custos ou, quanto muito de "custo/benefício ", sabendo eu que existem casos pontuais que naturalmente devem ser discutidos, mas como excepção e não como regra.

E formação em serviço? Já era.

Revolta ainda maior quando percebo, por atitudes recentes, que a normalíssima utilização do telefone pode estar em causa num futuro próximo.

O que é que vai acontecer daqui para a frente?

Quando algum utente faltava, sobretudo em consultas de vigilância, nesse dia ou no dia seguinte, lá recebia uma chamada telefónica da nossa parte a saber a razão da falta e a marcar, de imediato, nova consulta.

A grande maioria dos meus doentes, que são muito idosos e analfabetos, pediam para lhes marcarmos os ECD que eu entendia necessários, que requerem deslocações a distâncias consideráveis das suas habitações.

Em ambos os casos estávamos a cuidar da saúde dos nossos utentes.

São apenas dois exemplos da utilização do telefone, que provavelmente vamos repensar, já que não sabemos se poderemos ser "incomodados" com esta atitude da nossa parte.

Estamos a falar de confiança entre empregador e empregado.

Porque é disto que se trata: confiança.

E é essa confiança, ou a falta dela, que está em causa.

Actualmente sinto que há falta de confiança mútua, com tudo o que daí advém para a motivação e a satisfação profissionais, que em manuais básicos de gestão de recursos humanos, vem nos primeiros capítulos.

Voltando às questões genericamente colocadas pelo José Luís Biscaia, deixo aqui uma ideia que há muito defendo e que por certo retiraria muita da discussão e desconfiança que as nomeações colocam.

Não seria possível que se substituíssem todas as nomeações, por concursos públicos abertos a quem se sentisse que tinha condições para ocupar os lugares postos a concurso?

Abrir-se-iam concursos por um período determinado, para cargos de Directores de Centros de Saúde, ou mesmo ACES, que seriam acompanhados de um caderno de encargos para esses lugares… Que seriam ocupados após avaliação curricular e entrevista aos candidatos, que deveriam apresentar as suas propostas e demonstrar como iriam atingir as metas pretendidas. Tão simples como isto.

Todos poderiam concorrer, se achassem que tinham condições para isso. No final do mandato haveria uma avaliação… Ou mesmo antes do termo para determinar, face aos resultados atingidos, se deveriam, ou não, manter-se no posto.

Entendo ainda que a compensação para esses lugares deveria ser exclusivamente monetária, devendo o nomeado, no fim do "contrato", voltar ao lugar que ocupava antes e na mesma categoria profissional.

As subidas na carreira deveriam ser exclusivamente por provas públicas, como decorrentes da sua actividade profissional. Isto evitaria os que "lá vão" só por 3 anos", com o objectivo de ascender automaticamente ao escalão seguinte. Que os há, há!

Ajudaria a perceber que o poder em qualquer dos seus "degraus" no SNS, só faz sentido se for para servir os utentes e não para fazer carreira.

Desde já digo que não estou interessado em qualquer lugar.

Acabo, referindo que é por estas e por outras, que muito provavelmente também eu estou de saída…

PS: já depois do texto acabado, soube hoje das "aventuras e desventuras" do Luís Pisco. É mais um sinal, no mesmo sentido das minhas preocupações.

Rogério Cruz
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A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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