A idade e a carta de condução
DATA
20/05/2008 08:35:56
AUTOR
Jornal Médico
A idade e a carta de condução

“Todas as idades têm os seus frutos, mas é preciso sabê-los colher” (Raymond Radiguet)

 

“Todas as idades têm os seus frutos, mas é preciso sabê-los colher.”(Raymond Radiguet) Escolhi para introduzir esta crónica, esta frase.Podem pensar, se não conhecem Radiguet, tratar-se de alguém que, no auge da sua sabedoria e vida, chegou a esta tão esplendorosa conclusão.Correm, porém, o risco de se enganar seriamente.Raymond Radiguet, francês de nacionalidade, nasceu nos primeiros anos do século XX, julgo que em 1903, tendo ficado na história das letras gaulesas, apesar de ter morrido precocemente, com apenas 20 anos de idade...O que se conhece do panorama da sinistralidade rodoviária, em Portugal, deveria justificar mais do que uma insistente e persistente acção repressiva, uma clara e profunda reflexão.Basta circularmos, pouco ou muito, para nos depararmos, assustarmos ou benzermos (se formos crentes e/ou tivermos tempo...), com tamanha selvajaria ao volante...Nem falo das velocidades, porque todos temos experiência de como, a 120 ou 140 km/hora, em auto-estrada, perdermos a noção absoluta da velocidade e nos surpreendermos quando somos ultrapassados por alguém a 180 ou 190 ou 200 km/hora...Às vezes, até acho que estou parado ou que vou mesmo devagar!Falo e quero falar, antes, do desrespeito generalizado por normas básicas do código da estrada, como sejam o respeito pela sinalização luminosa ou horizontal ou vertical, pela regra da prioridade, pelo respeito pelos peões e pelas passadeiras, pelo uso ou não uso da sinalização de mudança de direcção, pela conduta nas ultrapassagens, etc., etc., etc.A cada quadra festiva ou ponte entre ou sobre fins-de-semana e feriados, a comunicação social deleita-se em conjunto com as forças policiais a relatar as “campanhas de prevenção”, nas quais, pese a boa vontade dos agentes policiais, se limitam uns e outros a contar e a publicitar os números habituais de acidentes, de mortos, de feridos graves e ligeiros.Uma estatística curiosa, tanto mais que nem sei se há “critérios científicos” para a divisão entre aqueles tipos de feridos...Sucedem-se as inevitáveis comparações com as estatísticas dos anos anteriores e lá carpimos, contristados, um suspiro entre duas goladas do tintol ao jantar ou entre a sobremesa e o café, cansados da gritaria entre o vento e os carros que passam, da chatice da reportagem dos/das jornalistas e do oficial de dia da BT, ou na Ponte sobre o Tejo ou na Ponte da Arrábida...Ao mesmo tempo, as pessoas interrogam-se sobre esta série de barbaridades, de jovens que adormecem ao volante ou se despistam também por entre as diversas causas de excessos, ou de idosos que entram em sentido proibido por auto-estradas e vias rápidas...A idade, como em muitas coisas da vida pode, com efeito, tornar-se um autêntico estigma.Em todas as idades, há uns melhores que outros e as coisas complicam-se quando, mais ou menos arbitrariamente ou convictamente, apostamos em decisões que, por pretenderem assumir-se como regras, deviam prever excepções...A questão da condução é uma dessas.O Código da Estrada muda, mas quem tem carta de condução, em regra, não toma conhecimento, nem apreende, as alterações formuladas...Quem tem mais acidentes, por culpa própria, não se vê na necessidade de se reciclar, actualizar ou aperfeiçoar, adquirindo melhores competências para o acto da condução...E quem tem mais acidentes, por culpa alheia, não beneficia, por exemplo, do apoio das seguradoras para uma aprendizagem de técnicas de condução defensiva, por exemplo.A idade que em Portugal, como na Europa, aumenta para efeitos de reforma, reconhecendo um novo perfil de longevidade e de qualidade e capacidade de e para a vida, justificaria uma nova avaliação à luz do dever dos Estados em relação à segurança das pessoas e dos bens nas estradas...Por exemplo, uma avaliação das capacidades físicas, em termos de desempenho físico, poderia ser útil para a renovação da concessão da licença da condução.De igual modo, uma avaliação psicotécnica ou psicológica de muitos condutores, poderia ajudar a filtrar o acesso de alguns, diria quase psicopatas, à autorização para a condução de veículos com motor.Creio, todavia que, infelizmente, Portugal vai continuar a penar, à mesma velocidade a que os nossos parceiros comunitários nos ultrapassam nos mais variados indicadores!A educação dos Portugueses, outrora paixão, apagou-se novamente.E é de educação que a sinistralidade vive. Ou melhor, da falta dela.Leiam e meditem nos relatos da grande maioria dos acidentes nas nossas cidades e estradas...A idade e a carta de condução?Tem interesse, sim senhor!Pelo menos para pôr os médicos de família, distraídos entre as suas múltiplas tarefas e preocupações, a emitir atestados de condução a quem completa 50 anos durante o ano em curso... Rui Cernadas
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A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
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