O plano inclinado
DATA
19/06/2008 14:27:08
AUTOR
Jornal Médico
O plano inclinado

Há quem discuta a inclinação pela inclinação... Discordo, mas respeito. Acho que há inclinações para tudo e, nalguns casos, para algumas coisas mais.

Há quem discuta a inclinação pela inclinação...

Discordo, mas respeito.

Acho que há inclinações para tudo e, nalguns casos, para algumas coisas mais.

A ideia do “plano inclinado” consumiu-me já horas de leitura atenta e de pesquisas incessantes na “net”. Perda de tempo?

Nos tempos que correm, o tempo perdeu valor, senão veja-se como e quanto se desbaratou discutindo assuntos relevantes para o país, como o Primeiro-Ministro fumar na viagem para a Venezuela...

Se há quem deteste as alturas, por fobia ou mania, muitos outros há que se sentem atraídos pelas longas inclinações, sejam cobertas de neve, para os amantes do esqui alpino, sejam cobertas de outros desígnios, materiais ou interesses...

No mar, por exemplo, no mar que aprecio diariamente do meu consultório na Praia da Aguda, as inclinações podem ser mais perigosas, porque o adornar de uma embarcação, a partir de certo momento, torna inevitável o naufrágio.

Em terra, pelo contrário, as inclinações excessivas, podem levar à queda, mas por norma o risco de mergulhar nalguma poça, mesma face à chuva caída, é baixo.

De uma forma ou de outra, fica um primeiro conselho: será conveniente saber ou aprender a nadar.

Já me cansei de falar na actual questão da falta de médicos em Portugal.

Pelos menos desde 2003 nas páginas deste Jornal!

Percebi que a falta de médicos não deve ser, contudo, grave.

No máximo, será tão grave, penso, quanto as outras carências apercebidas, faltam: o arroz, os cereais, o leite, as rações, os empregos, o trabalho, o dinheiro, as poupanças, os nascimentos, os padres, o TGV, a seriedade, a vergonha, sei lá que mais!

E de facto para quem exerce o Poder, face a tantas misérias, não será fácil encontrar respostas, nem soluções.

Também é verdade, que todos, nos interrogamos sobre como é possível, em tantas questões, andar a inventar, quando tudo está inventado e que por essa Europa fora, não faltam exemplos e bons, de como decidir, como actuar e como resolver!

Mas a falta de médicos em Portugal vai agudizando o quadro de recursos e parece que, tudo e todos, continuam distraídos.

O Estado porque, tendo um SNS, constitucionalmente consagrado, não consegue evitar as saídas da chamada Função Pública. Entre 2006 e este ano, saíram já mais de mil e quatrocentos clínicos!

Sabe-se - basta atentar na pirâmide etária dos médicos lusitanos - que os próximos 5 a 10 anos, serão dramáticos quanto ao ritmo de abandono do SNS por passagem à aposentação.

As burocracias e os sistemas montados para actuação e controlo, não parecem ajudar. A formação dos profissionais mais jovens está em risco e os hospitais dão já mostras de menor empenhamento formativo.

Os índices, os vários índices de saúde dos cidadãos portugueses, tão arduamente conquistados nos últimos vinte anos, irão sofrer rapidamente uma regressão, ou deslizamento, no tal plano inclinado.

No sector privado da saúde, os hospitais, as clínicas e os investimentos não cessam, apesar da badalada crise financeira e do brutal endividamento das famílias portuguesas...

Os grupos económicos não estão no sector para perder dinheiro. Obviamente, também não estão cá parar prestar serviço público!

Nem era de esperar que o fizessem, quando sabemos que, entre nós, muitas vezes nem os respectivos prestadores o praticam...

O que me espanta é como essa torrente de estruturas de prestação de cuidados de saúde privados, estima conseguir garantir a satisfação das suas necessidades em pessoal médico!

Naturalmente que, por alguns anos, o sector privado continuará a proporcionar o êxodo de médicos do SNS.

Como a muitos colegas, também a mim foram apresentadas propostas de trabalho concreto, em condições remuneratórias melhores ou muito sobreponíveis às usufruídas no sector público...

A não partidarização, o reconhecimento do valor individual e o modo de tratamento, podem muito bem fazer toda a diferença entre o ficar e o partir...

Por isso, desde o início desta crónica que vos falava em inclinação.

Inclinei-me para ficar.

Neste caso, com o meu grupo – ex-RRE, actual USF modelo B.

Se fosse católico, começaria a rezar, com razões acrescidas face às expectativas anteriormente geradas.

Como não sou, espero só que a inclinação não me leve ao fundo! 

 

Rui Cernadas

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A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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