Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li!... O estado da nação...
DATA
31/07/2008 08:42:38
AUTOR
Jornal Médico
Desculpem, mas eu li!... O estado da nação...

A uma funcionária duma junta de freguesia, o Senhor Ministro das Finanças mandando-a de baixa para o domicílio...  E não é que a tal senhora decidiu deslocar-se a um santuário e de lá saiu curada?

CernadasRui.jpgMuito se ouviu falar e se discutiu sobre o “estado da nação”.
Valeria, a propósito, discutir o conceito de nação, mas isso seria fortemente cansativo, numa época em que todos pensam já nas vacances e em como escapar ao calor que nos torra e desidrata...
Em todo o caso, esse e outros temas, como o que vale a democracia, poderão ser motes simpáticos e polémicos, para o regresso às escritas após as merecidas férias do nosso director e da sua esforçada equipa.

As mudanças...

Como quer que seja, Portugal não parece ser uma nação como as outras. Mesmo as que, connosco, integram a comunidade dita europeia.
Qualquer mudança parece levar a uma onda de turbulência e ruído em que tudo e todos contestam, desde a oportunidade, à forma… Desde os fundamentos aos objectivos.
Viu-se em muitas áreas da governação o que as transformações ou reformas criaram, ora motivando alguns, ora desmotivando outros, ora nada parecendo dizer a muitos...
Na Saúde, a grande reforma dos CSP mexeu e muito, com muita gente.
Ao ponto de o Ministro Correia de Campos ter acabado por ser a vítima de um processo que, afinal, nem parecia do governo que integrava... Porque se fosse...
As SRS, por exemplo, onde as ARS sugerem ter sido embrulhadas num complexo e trabalhoso “abraço”, ao qual, a quem está de fora, os instrumentos legislativos não parecem ter sido nem pontuais, nem síncronos...
As USF, outro exemplo, lá vão avançando num mar revolto, escondendo perigos sem fim, ameaças ocultas, que vão desde a eventual burocratização interna, à vontade de servir em nome de um serviço público pouco articulado e dinâmico.
Os ACES, os chamados agrupamentos dos centros de saúde, são o senhor que se segue. Aqui, todavia, julgo que há mais boas intenções do que certezas...
O processo de consulta às autarquias inclui a repartição e configuração administrativa, prevê o envolvimento das autarquias locais na gestão local e cria novos cargos com exigências e requisitos bem determinados, mas estimuladores de novos apetites e saciedades...
Ainda assim, como em tudo e sempre, não obviam os anseios e os sonhos para as nomeações dos seus dirigentes.
Vimos, aliás, como esse aspecto terá já provocado a agitado marés e marinheiros...

Milagres!

Corria o ano de 2007...
O país “descobria” uma dura realidade!
Juntas Médicas mandavam pessoas trabalhar, quer dizer, Juntas ditas Médicas, tomaram decisões injustas que, como as televisões e os jornais insistiam, penalizavam trabalhadores, em especial, da Função Pública.
Por essa altura, até se chegou ao cúmulo de, com uma tal funcionária duma junta de freguesia de Ponte de Lima, o Senhor Ministro das Finanças se substituir aos médicos, mandando-a de baixa para o domicílio (onde já estava há cerca de três anos!), o que igualmente à época, me motivou a clamar contra a concorrência desleal e a necessidade de aprovar a Lei do Acto Médico!
Eis que o destino volta a pregar das suas!
Não é que a tal senhora decidiu, em boa hora diria, deslocar-se a um santuário católico, em Braga e de lá saiu curada?
Sem mais nem menos.
Sem medicamentos, sem exames médicos, sem clínicos, sem juntas médicas, Sem o senhor ministro… Sem mais ninguém!
Agora sim, em definitivo, acredito em tudo!
Só lamento e lastimo que os mesmos jornalistas que lhe concederam tempo de antena, não lhe dediquem agora idêntico tratamento...

Clínicos gerais em extinção

A área mais decisiva para o SNS é a dos cuidados primários.
É aí que as populações mais sentem os efeitos da proximidade e acessibilidade.
Sabemos todos que se trata de uma carreira e de uma especialidade em vias de extinção acelerada, mesmo que, à custa do funcionamento e da evolução das USF, possa criar-se a ideia de que há menos cidadãos sem médico de família...
Os números, ainda há pouco transmitidos na Assembleia da República, não deixam margens para dúvidas. Em doze anos - nos últimos doze anos - a desproporção na distribuição de médicos, entre os cuidados primários e os hospitalares, passou de 1 para 2, para 1 para 4!
Não vou sequer chamar à liça a questão da “fuga” de médicos do sector público para o privado, mas este problema deveria merecer uma renovada e urgente atenção, tal a dimensão sensível a olhos vistos...
Será escusado manter o discurso bolorento da errada distribuição de recursos humanos. A principal questão é já ulterior: faltam médicos e em especial, médicos de clínica geral.
À vista desarmada, o impacto da construção ou lançamento de um hospital é mais apelativo, mas a eficácia de um serviço nacional de saúde, constrói-se e radica no nível extra-hospitalar.
Foi assim que Portugal ganhou posições no ranking de ganhos de saúde.
Mas há números que assustam: Portugal terá cerca de cento e vinte e cinco mil trabalhadores ao serviço do Ministério da Saúde!
O que me espanta é ver uma coisa e ouvir outra.
Em concreto, tenho ouvido falar de que “há que aprender com os privados, importar do sector privado as boas práticas",”mas o que vejo, é outra coisa, os privados a escolher os que querem uma outra realidade e experiência.
Nem vejo nisso mal nenhum.
Desde que deixemos de falar e passemos a competir com as mesmas armas...

Rui Cernadas
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Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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