Jornal Médico Grande Público

Querido Diário...
DATA
21/10/2008 08:12:36
AUTOR
Jornal Médico
Querido Diário...

Imagina lá o que me sucedeu hoje: estive mais de cinco minutos à espera que o Alert abrisse. Quer dizer que, dos quinze que se calcula durar em média uma consulta, 1/3 foi consumido aguardando que a aplicação informática se dignasse desabrochar

“(…) ‘Nada receeis até que o bosque de Birman marche contra Dunsinane’ e agora um bosque avança sobre Dunsinane”Shakespeare

 

 Imagina lá o que me sucedeu hoje: estive mais de cinco minutos (leste bem: cinco longos minutos) à espera que o Alert abrisse. Quer dizer que, dos quinze que se calcula durar em média uma consulta, 1/3 foi consumido aguardando que a aplicação informática se dignasse desabrochar em todo o seu esplendor! E que fulgor: uma tolice que veio beneficiar a empresa que a vendeu.Sabias que o Alert já passou à história nalguns centros de saúde, substituído pela nova funcionalidade do SAM, que permite referenciação directa e bem mais lógica? Se não sabias ficas a saber. O que eu não sei é o por quê de muitos de nós continuamos agarrados àquele emplastro. É facto que o envio das referenciações pelo Alert poupa o tempo dispendido na peregrinação entre a minha extensão - sede do CS – hospital que, não sei se te cheguei a dizer, chagava a demorar 20 dias!Isso mesmo: 20 dias!Outra vantagem potencial do Alert, seria a transparência. Isto é, está escarrapachado tempo médio de espera das consultas, a qualidade da referenciação, os motivos de recusa das referenciações, etc.. Assim as chefias quisessem dar-se ao trabalho de espiolhar o mundo real. Se queres que te diga, penso que mais do que uma questão de trabalho ou preguiça, acho que se trata de coragem ou falta dela. Voltando aos interlúdios, que a lentidão das ligações telefónicas impõe ao sistema informático da minha extensão de saúde, devo dizer-te que os tais 5 minutos não são, graças a Deus, a regra. Só de vez em quando é que ele empastela tanto. Regra geral, talvez gaste menos de 40 segundos em tempos mortos, com a rodinha às voltas e eu a olhar (qualquer dia fico hipnotizado, vais ver).Mas esse caracol (o tal Alert) ainda não é o pior, já que só se usa de quando em vez. Mais penosa é a lesma do SAM. Nem te digo as velocidades de tráfego a que aquilo “corre”. Se quiseres vir comigo, trazes um relogiozinho e confirmas o que te digo: abrir o processo do utente, 3 segundos, abrir a janela de ECD, 8 segundos (não acreditas, pois não? Mas é verdadinha da mais pura). Enviar para a impressora documento a imprimir, varia de 3 a 7 segundos, abrir receita, 4, visualizar EDC efectuados 3… E por aí fora.Agora, multiplica a soma desses tempos pelo número de consultas e verás quanto tempo deitado displicentemente ao lixo.Enfim: um despautério. Como sabes, não entendo nada de gestão, economia ou dessas cenas agora muito em voga, mas surge-me intuitivo que a última coisa que um empregador quer é um trabalhador parado durante as horas de serviço. É mau à brava para a produtividade.Pôr nas unhas do trabalhador uma ferramenta tão deficiente, que lhe empata o serviço em vez de ajudar, deveria pôr os chefes em polvorosa, levando-os a espalhar a banda larga por esse Portugal fora. Assim como fizeram ao Magalhães (salvo seja).Mas não! Lá continuamos puxados pela carroça de bois informática: eu a olhar para o monitor, o utente a olhar para mim e o pessoal, na sala de espera, a olhar para o relógio.Nem queiras saber como é desgastante! Qualquer dia dá-me uma coisinha má! É verdade que dotar as extensões de saúde implica investimento considerável e pilim é coisa que não há para aí aos pontapés … excepto se for para adquirir bugigangas como o Alert! Só te digo que se a ministra e a malta lá da João Crisóstemo, mais os colaboradores distritais, pensam que é com enxadas destas que cativam o pessoal para não passar à reforma antecipada ou não cavar para a privada, bem podem tirar o cavalinho da chuva!Podes crer: qualquer dia o SNS parece a aldeia de Vilarinho: solitária e afundada. Aliás a situação dos CSP faz lembrar o crash das bolsas. A política de desinvestimento (e repara que não estou apenas a falar de dinheiro) nos centros de saúde prolongou-se demasiado. Se exceptuarmos a invenção das USF, que me parece mesmo inovadora, o imobilismo mantém-se. A ideia dos médicos de família burocratizados, a passar declarações e demais cretinices tidas pelos portugueses como sua primordial função, está a asfixiar a nossa especialidade.Quando se der a derrocada (e não faltará muito) a malta da João Crisóstemo vai parecer tal qual os CEO da Merrill Lynch! Bom! Fico-me por aqui: Morfeu assenhoreou-se-me do intelecto e daqui para a frente, ou durmo, ou profiro disparates inconcebíveis

 

Acácio Gouveia

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Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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