Transgénicos e “chip” ou os novos feiticeiros!
DATA
21/10/2008 08:32:18
AUTOR
Jornal Médico
Transgénicos e “chip” ou os novos feiticeiros!

A cada dia que passa, vemo-nos confrontados com uma burocratização tão severa, quanto discutível, principalmente quando ouvimos falar em novas tecnologias, rapidez e desenvolvimento!

 

A cada dia que passa, vemo-nos confrontados com uma burocratização tão severa, quanto discutível, principalmente quando ouvimos falar em novas tecnologias, rapidez e desenvolvimento!

Aos médicos de família - na prática os tais "cuidados primários de saúde" - cabem tarefas múltiplas, saberes diversificados, aptidões inesperadas, deveres incontáveis, chatices sem monta!

Na verdade, virámos feiticeiros do século XXI, uns sábios capazes de tudo resolver aos portugueses e ao país!

Atentemos ao que se vê ou lê e não há número, nova edição ou emissão que não traga, apresente e insista em nova necessidade ou indicação remetida para os clínicos gerais!

Como publico os meus artigos com o endereço electrónico, desafio os leitores a darem-me conhecimento de alguma entrevista, revisão, editorial ou monografia que, das especialidades hospitalares ou das sociedades científicas ou das associações de doentes, não atribua aos médicos da clínica geral mais um dever de diagnóstico, de rastreio, de referenciação, de informação ou de notificação!

Ainda um dia, se formos vivos, teremos a obrigação de adivinhar...

Pode até tratar-se de um caso de visão obnubilada, mas creio que com a ajuda exterior poderei ficar descansado sobre essa matéria ou sina, diria.

Claro que a vastíssima gama de documentos e de atestados, incluindo as certificações temporárias de doença e os relatórios para invalidez e aposentação, podem ficar prejudicados face aos superiores interesses clínicos.

E a tarefa não é fácil, se pensarmos que Portugal se transformou num Estado de reformados e aposentados, "baixistas militantes", doentes crónicos e desempregados.

Os caçadores precisam de atestado médico, mas os assaltantes de bancos e gasolineiras não! Os pescadores e marinheiros também, mas os banhistas de Verão não. E os desportistas também necessitam, ainda que possam sofrer terríveis lesões ou eventos na sua prática.

Os condutores de veículos igualmente e agora, face às alterações legais, mais vezes e mais cedo. Em Espanha, ao lado, dispõem de centros específicos para esse fim...

As seguradoras e os bancos, céleres na concessão dos créditos e venda de produtos descobriram, entretanto, que com as incapacidades temporárias, os devedores accionam as cláusulas de suspensão dos pagamentos e toca a transferir para o SNS toda a série de pedidos de informações e relatos clínicos...

Os programas informáticos ajudam mesmo na gestão da informação e tornaram-se a nova caneta do médico mas abriram, em simultâneo, a porta à conveniência - felizmente - de melhores registos e de mais registos, prolongando os tempos médios de consulta.

Com tudo isto, estou certo de que, a breve prazo, o número de doentes será ultrapassado pelo número de cidadãos em busca de um papel, tipo câmara municipal...

 

Foi, portanto, com surpresa, que tomei conhecimento de que, em certas zonas do país, já há utentes a marcar consulta nos centros de saúde e USF para pedir opinião sobre a segurança dos alimentos geneticamente modificados.

A biotecnologia ou tecnologia de genes nas sementes e plantas! Fiquei espantado e não hesitei em achar que a explicação deve passar pela revolução causada pelo "Simplex"!

Utentes que pedem esclarecimentos sobre as sementes transgénicas em Portugal?

Na verdade, o Ministério da Saúde já abordou esta questão, designadamente na definição ou equação das orientações estratégicas do Plano Nacional de Saúde, para o período de 2004/2010. Foi reconhecida a polémica e o alvoroço que os organismos nos quais o ADN foi alterado e/ou recombinado por via da manipulação genética, pode criar.

De resto, a segurança das transferências de genes individuais seleccionados, entre organismos e/ou espécies, de facto, a médio e longo prazo, é desconhecida.

Serão esses riscos potenciais ou possíveis, que poderão colocar à discussão a hipótese de problemas médicos, para além dos que mexem na área ambiental.

Quem sabe as implicações em aspectos como os da alergia, toxicidade, resistências microbianas, metabolismos dos fármacos, efeitos cumulativos, fertilidade?

Por outro lado, o disparo das áreas cultivadas com transgénicos é fenomenal, ao ponto de os EUA terem mais de 60 milhões de hectares trabalhados com sementes várias, desde a soja, ao algodão, ao milho, à papaia ou à abóbora!

Mas outros países avançam igualmente com números brutais, como o Brasil, com 16 milhões de hectares, a Argentina com 20, o Canadá com 7, a Índia com 6,5, a China com 4...

Os argumentos científicos esgrimidos entre os que estão a favor e os que estão contra, não cessam e o futuro promete novidades para um e outro lado.

A verdade - cada qual assume a sua - é que o impacto na saúde, a curto prazo, parece irrelevante ou nulo. Numa perspectiva mais abrangente, fica prometida a diminuição franca da diversidade biológica e a capacidade para monitorizar a cadeia alimentar não está, longe disso, garantida!

Mas o destino é este.

Vivemos numa sociedade dita democrática e num estado dito social.

A segurança individual e a dos bens estão em choque, em muitos planos; a liberdade dos cidadãos e a sua livre organização perdidas, perante a centralização dos poderes dos Estados e das suas entidades reguladores aberrantes.

Valha-nos que os carros já vão ter um "chip".

Para o ano, talvez, seremos nós os "chipados" pelas mesmas razões com que, agora, nos "chipam" os carros.

Como Huxley tinha razão no seu regresso ao admirável mundo novo!

 

Rui Cernadas

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A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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