Como é bom ser Clínico Geral… (Porque somos tão sábios)
DATA
21/10/2008 08:40:47
AUTOR
Jornal Médico
Como é bom ser Clínico Geral… (Porque somos tão sábios)

É sabido que os nossos doentes envelhecem connosco (McWhinney). Aprendemos juntos a aceitar a saúde como ela vem, embrulhada em detritos que são acontecimentos, gemidos, pequenas e grandes dores. Os problemas são para falar, nem sempre para resolver, ou resolvê-los é torná-los acessíveis à fala, vivíveis, enunciáveis

Cruzam-se e enleiam-se as linhas

Al Berto

 

jorge_nogueira.jpgÉ sabido que os nossos doentes envelhecem connosco (McWhinney). Aprendemos juntos a aceitar a saúde como ela vem, embrulhada em detritos que são acontecimentos, gemidos, pequenas e grandes dores. Os problemas são para falar, nem sempre para resolver, ou resolvê-los é torná-los acessíveis à fala, vivíveis, enunciáveis. Se quero impedir um doente de voltar ao eterno tema das suas más digestões - e às vezes quero - não existe método melhor do que ameaçá-lo com a necessidade de fazer uma endoscopia. É quase certo que ele disfarça e muda de assunto. Se não muda é mau sinal (prova terapêutica, juízo salomónico), sinal quase certo de doença no mínimo muito incómoda. Há nos nossos doentes uma consciência profunda da tendência do homem para a maldade, da queixa como uma ousadia reprovável que merece castigo, e do médico como representante da autoridade que o administra, dono de uma capacidade infinita e assustadora para o mau trato e o abuso, a quem daria (dá?) prazer picar, cortar, meter tubos, coser, apalpar (com «a»), meter o dedo, perseguir, vigiar - expressões que ouço, adulteradas ou não, ao virar de cada frase, de cada doente, de cada saudável, de cada esquina da minha consulta. Será verdade que quem gosta de magoar, ou tem medo de gostar, tem (mais) medo de ser magoado? Ou quem toda a vida foi magoado não é capaz de configurar outra possibilidade senão essa? - «Eu sei que o doutor vai ralhar comigo», dizem. Uma palavra amável é uma bênção inesperada, chega a fazer soltar lágrimas de comoção, uma vontade irreprimível de chorar. «Quando vejo o cor-de-rosa parece que se referem a mim», dizia o Almada, em absurdo aparente. Vem-me à lembrança Xanana Gusmão e o modo como comoveu o povo português com a sua referência ao carinho, inesperada na boca de um político. Dizia-me uma doente: «Mesmo que não me dêem mais nada, ao menos que me dêem uma boa palavra».

A atenção do médico é desejada e do mesmo passo, e talvez por isso mesmo, reprovável (todo o desejo é pecador, como toda a nudez castigada?) e vergonhosa. Ou então a única modalidade de atenção possível, aquela que conhecem, é a reprovação e a crítica. A súplica parece ser: «olhe para mim, mas com outros olhos». É porque é essa a competência do médico, VER os doentes, dificilmente se consegue imaginar um médico cego (embora os haja). Mas nós vemo-los com olhos perscrutadores, captando os defeitos, críticos, afáveis às vezes, atenciosos, avaliadores, raramente neutros (não está ao nosso alcance ser neutro). Pensamos, não me estou a rir de si estou-me a rir de mim, de uma coisa que me lembrei por sua causa, estou-me a rir para si, estou-me a rir porque estou bem disposto estou-me a rir e pronto. Do outro lado «ele» pensa, o médico descobre doenças, encontra-as, é para isso que ele serve, ri-se das doenças que me encontra, ri-se de cada vez que me descobre uma doença, um defeito qualquer, fica todo contente por ter descoberto, é um prazer lá dele. De certa maneira ainda bem, se não fosse assim ele não descobria doenças nenhumas e não me tratava, quando eu estivesse saudável ele não me ligava nenhuma e corria logo comigo, dizia-me que eu já não precisava de cá voltar, quando estou saudável perco a piada. Tudo se passa como se, para algumas pessoas, aquilo que nos liga a elas fosse uma nossa secreta esperança de lhes encontrar um defeito, manifesto ou oculto, por onde pudéssemos ganhar ascendente e poder sobre elas.

Fraca compensação seria (é?) essa, de encontrar defeitos por baixo da aparente perfeição, doenças a espreitar por baixo da aparente saúde. Volto aos exemplos dos doentes (os médicos pelam-se por eles), uma doente tinha um caroço no peito e foi ao médico, que suspeitou de cancro e lhe mandou fazer uns exames e ir a uns especialistas. A doente nunca mais apareceu. Voltou passados quatro ou cinco anos com uma lombalgia muito intensa. Verificou-se que tinha metástases ósseas. Morreu pouco tempo depois. Fiquei muito tempo a pensar nisto: se tivesse feito o que o médico lhe mandou teria sobrevivido mais tempo e melhor, ou não? Supondo que a doente tinha escolha (psicológica, digo, na realidade é claro que tinha) e decidiu conscientemente, quem pode afirmar com certeza que fez a pior escolha? O problema é que nestas coisas a liberdade de escolha é muito relativa e a consciência ocupa um lugar limitado na decisão, sobretudo se considerarmos que neste caso, como noutros, se trata mais de uma não-decisão.

 

Jorge Nogueira

A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
Editorial | Joana Romeira Torres
A "hiperventilação" dos Cuidados de Saúde Primários
A Organização Mundial de Saúde alude que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) são cruciais para a obtenção de promoção da saúde a nível global. Neste sentido, a Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) tem estabelecido estratégias que têm permitido marcar posição dos mesmos na comunidade médica geral.

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