Jornal Médico Grande Público

Programa de 4 anos – Breves Apontamentos
DATA
04/11/2008 08:19:50
AUTOR
Jornal Médico
Programa de 4 anos – Breves Apontamentos

Está a viver-se um momento de mudança no internato de especialidade em medicina geral e familiar (MGF) em Portugal com vista ao aumento da sua duração para 4 anos e publicação em Diário da República

Está a viver-se um momento de mudança no internato de especialidade em medicina geral e familiar (MGF) em Portugal com vista ao aumento da sua duração para 4 anos e publicação em Diário da República.

Este aumento da duração do internato tem vindo a gerar discussões entre internos e especialistas em MGF, embora já haja países europeus com internatos de duração de 4 anos. Entre eles conta-se Espanha que, em 2004, introduziu o terceiro programa oficial da Especialidade, onde se procedeu a uma adaptação da duração do internato para 4 anos face às necessidades sentidas para obter o elevado nível de competência exigido actualmente ao médico de família (MF).

O interesse de conhecer o programa da especialidade em medicina familiar e comunitária de Espanha prende-se não só com a sua duração, mas também com a proximidade histórica e cultural que nós, Portugueses, partilhamos com este País. Acresce ainda que essa proximidade se faz sentir também na semelhança entre as populações de ambos os países. Assim, pretende-se, de uma forma sucinta, dar a conhecer a fundamentação e a organização do referido programa.

Porquê mais tempo de formação?

 

Aumentar a duração do internato prende-se com a exigência de maior tempo de aprendizagem para melhorar as competências do MF, segundo duas perspectivas: como ponto central do Sistema de Saúde e como profissional com elevada capacidade de resolução de problemas e coordenação de recursos e fluxo de utentes dentro do referido sistema.

Objectivos do Programa de Medicina Familiar e Comunitária

 

Segundo a Organização Mundial dos Médicos de Família WONCA, o objecto do conhecimento do especialista em Medicina Familiar e Comunitária (MFC) é a pessoa como um todo, sem fragmentação entre o físico, psíquico e social, integrada no meio familiar e na comunidade.

O especialista em MFC trabalha com o objectivo de melhorar o nível de saúde das pessoas saudáveis e da comunidade em que se insere e curar, cuidar, aconselhar e consolar as pessoas doentes a seu cargo de modo a melhorar sua a qualidade de vida. Este especialista baseia os seus actos na continuidade e longitudinalidade dos cuidados, de uma forma dinâmica.

 

Condições Básicas do Internato Espanhol:

 

O programa

 

O programa do internato (que em Espanha é designado por residência) baseia-se no perfil profissional do MF, seguindo uma lista de actividades sujeitas a uma metodologia de ensino e de avaliação, com definição de objectivos específicos para cada competência, com a duração de 4 anos, tendo em vista  um progressivo ajuste para 5 anos, de acordo com o requerido pela União Europeia dos Médicos de Clínica Geral (UEMO) ao Parlamento Europeu.

A flexibilidade e a pluripotencialidade são duas características importantes deste programa de internato, tendo em conta que o seu objectivo final é aquisição de competências e não o modo como são adquiridas. No final da formação o interno deve ter capacidade para trabalhar em centros de saúde, em serviços de urgência, em unidades públicas ou privadas.

 

Os orientadores de formação

 

A relação interno - orientador de formação é tida como fundamental. A formação tutelada com avaliação contínua tem como objectivo potenciar a auto-aprendizagem.

Os orientadores de formação deverão ter um nível de competência adaptado à informação a transmitir e às metodologias pedagógicas a empregar. Compete às administrações de centros de formação garantir formação contínua do orientador, existência de locais de formação idóneos e promoção de actividades para manter a motivação dos orientadores.

 

As unidades docentes

 

A unidade docente em que o interno se insere deve permitir um contacto inicial amplo com cuidados de saúde primários (3 a 6 meses), 50% do tempo formativo no centro de saúde, um estágio no centro de saúde em cada ano de formação, um contacto contínuo e estruturado com o orientador de formação e o aumento da responsabilidade do interno na consulta, ainda que supervisionada, no último ano de formação.

Estas unidades docentes devem ainda favorecer o aumento do número e diversidade dos locais de formação, a melhoria da estrutura física dos mesmos, permitindo consultórios contíguos entre Orientador de Formação e Interno, e providenciar estágios electivos no final do 3º ano de internato para colmatar necessidades formativas do Interno.

 

Estrutura do Programa de Internato Espanhol:

 

Existem 5 áreas no programa de internato:

1. Competências essenciais: comunicação, raciocínio clínico, gestão, bioética;

2. Cuidados ao indivíduo: prevenção primária, secundária e terciária; abordagem de grupos populacionais e grupos com factores de risco;

3. Cuidados à família;

4. Cuidados à comunidade;

5. Formação e Investigação.

Para cada área existe uma ficha caracterizando os objectivos e as actividades de aprendizagem a realizar, segundo níveis de prioridade e de responsabilidade. Assim, definem-se os seguintes níveis de prioridade:

• Prioridade 1 - conhecimento / competências indispensáveis - todos os internos

• Prioridade 2 - competências importante - maioria dos internos

• Prioridade 3 - não prioritário - critério de excelência

E níveis de responsabilidade:

• Primário - o MF deve ser capaz de identificar, avaliar e tratar estes problemas no âmbito dos CSP em 90% dos casos.

• Secundário - normalmente é necessário consultar outro nível assistencial para avaliação / tratamento.

• Terciário - diagnóstico e tratamento da competência de outros especialistas, no entanto o MF deve ser capaz de informar, apoiar o paciente e a família e assegurar a coordenação e continuidade dos cuidados.

 

Metodologia de Ensino:

 

A metodologia de ensino recomendada em Espanha é variada, incidindo na auto-aprendizagem, aprendizagem de campo, aulas, realização de trabalhos em grupo e frequência de workshops.

 

Fontes de Informação:

 

Ao interno deve ser fornecida informação estruturada sobre revistas médicas básicas e recomendadas, livros básicos de MFC e sites de internet dirigidos a MF / MFC.

 

Avaliação:

 

A avaliação do Interno em Espanha é realizada com base na Pirâmide de Miller, através de métodos indirectos (provas desenhadas de forma a simular a realidade, como exames escritos, exames orais estruturados, pacientes standard, simuladores...) e directos (autoscopia, auditoria de histórias clínicas). Nesta fase é essencial o Livro do Especialista em Formação em que se especifica não só o grau de prioridade dos objectivos educativos, como actividades previstas para sua execução.

 

Joana Melo Cabrita

Interna da especialidade de MGF

USF Horizonte (C.S. de Matosinhos)

 

Cronograma do Internato Espanhol

1º ano

Cuidados Saúde Primários (CSP) - 3 a 6 meses (R1)

Medicina Interna e outras Especialidades - 5 a 8 meses

Serviço de Urgência

Auto-aprendizagem / Aulas / Trabalhos de Grupo / Workshops

1 Mês de Férias

2º ano

 CSP rural - 3 meses (R2)

Medicina Interna e Especialidades Médicas / Medico-cirúrgicas - 8 meses

Saúde Infantil - 2 meses - fundamentalmente nos CSP

Saúde da Mulher - 3 meses

3º ano

Saúde Mental - 3 meses

Estágios electivos / Aprendizagem de campo no CS - 3 meses (R3)

Serviço de Urgência

Auto-aprendizagem / Aulas / Trabalhos de Grupo / Workshops

2 Meses de Férias

4º ano

CSP - 11 meses (R4)

Serviço de Urgência

Auto-aprendizagem / Aulas / Trabalhos de Grupo / Workshops

1 Mês de Férias

Worshops / Aulas Sugeridas:

 

Relacionados com a clínica:

•-          SU - SBV, SAV

•-          Imobilizações

•-          Pequena cirurgia

•-          Toxicodependências

•-          Cuidados em situação de violência

•-          Infiltrações

•-          Fisioterapia

•-          ECG

•-          Radiologia básica

•-          Saúde mental

•-          Cuidados paliativos

•-          ORL

•-          Oftalmologia

 

 

Áreas conceptuais, metodológicas e de gestão de cuidados:

•-          Introdução à MFC

•-          Gestão em CSP

•-          Educação para a saúde

•-          Cuidados no domicílio

•-          Cuidados à família

•-          Cuidados à comunidade

•-          Planificação e programação em CSP

•-          Bioética

•-          Informática

•-          Sociologia da saúde

•-          Epidemiologia, estatística e demografia

•-          Pesquisa bibliográfica

•-          Medicina Baseada na Evidência

•-          Comunicação, entrevista clínica e
relação médico-doente

•-          Capacidades sociais

•-          Serviços no centro de saúde

•-          Raciocínio clínico

 

 

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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