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Desculpem, mas eu li!... “O que se lê por aí...”
DATA
11/11/2008 01:31:31
AUTOR
Jornal Médico
Desculpem, mas eu li!... “O que se lê por aí...”

 Li numa revista semanal recente, que um estudo desenvolvido por psicólogos e sociólogos alemães concluíra que, entre as crianças germânicas, a profissão dos pais era determinante ou fortemente influenciadora, pelo menos, das suas futuras opções de trabalho e de vida.

 

rui_cernadas.jpgLi numa revista semanal recente, que um estudo desenvolvido por psicólogos e sociólogos alemães concluíra que, entre as crianças germânicas, a profissão dos pais era determinante ou fortemente influenciadora, pelo menos, das suas futuras opções de trabalho e de vida.

Mais ainda, o seu respeito pelas actividades profissionais e económicas era, de certo modo, condicionada por aquele conhecimento, o que, por outro lado, explicaria uma procura incessante de melhoria no sentido em que os jovens partiriam para níveis de maior exigência pessoal.

Será isto que ajuda a perceber o chamado milagre alemão?

Não sei se entre nós, lusitanos, há algum estudo similar, disponível ou em curso, ou até se as conclusões daquele serão ou não extrapoláveis para cá...

Nem sei, igualmente, que opinião terão as nossas crianças, dos papás que são militares, políticos, engenheiros, médicos, serralheiros, carpinteiros, banqueiros, economistas, comerciantes ou polícias!

Os tempos que vão passando não são agradáveis, nem trazem promessas de melhores dias.

O pessimismo proverbial dos portugueses, enfim, contagiou os outros povos e, finalmente, temos a chamada globalização no seu máximo esplendor!

A economia globalizou e com ela, a preocupação e a crise globalizaram-se também!

Bastou o cenário bolsista desabar e acordamos a ouvir que "a economia real" pode sentir o impacto da recessão, como se já não fosse ela a sustentar-nos...

Aquilo que acho tremendo é esta de "economia real" versus a "outra economia", a que vive e se alimenta de especulação, de golpes e de influências, que gere dinheiro à custa de nada e do trabalho de outros, em regra mais ou menos explorados, e que aproveita - e muito - a alguns, sem aproveitar a tantos que precisariam de muito pouco, afinal.

Aquilo que acho delicioso, perdoem-me a expressão, é o falhanço profundo dos economistas e de outros sábios do século XXI, apostados em que só eles saberiam gerir as sociedades e as instituições e as empresas, criando inúmeros mecanismos e monstros reguladores, saciando os accionistas e os gestores com grossos dividendos e remunerações...

Agora que se discute já os termos do presente e do futuro do capitalismo, a ignorância das causas da crise, a falta de confiança, como se diz, a respeito das bolsas e dos bancos, a quebra sucessiva do preço do petróleo e os maus resultados das empresas, não se vê, nem ouve, discutir, o papel e a responsabilidade, nem dos gestores e administradores que caminharam para as falências, nem a ciência dos gurus da economia!

Previsões, modelos, planos, auditorias e um sem número de outras expressões ligadas à economia vão por água abaixo, hora a hora, ao mesmo ritmo com que os accionistas, os modernos vampiros da nossa era, gemem e gritam, enfim, não contestando, porém e ainda, os principescos soldos e retribuições dos iluminados timoneiros empresariais, que passaram de bestiais a bestas!

A globalização, fenómeno tão louvado quanto irreversível, foi-nos vendida como a panaceia gerada à medida... Que se transformou numa espiral que ainda muitos e muitos há-de engolir e digerir.

Só espero que os governos das nações possam aprender algumas lições, como a de que o trabalho e o esforço de cada um dos seus cidadãos é muito mais importante, consistente e fiável do que as aventuras especulativas. E que se possam reduzir à sua verdadeira dimensão, alguns economistas que, na praça, rebentaram de tanto saber e capacidade de antecipação e de previsão, cientes de tanto poder para regular as pessoas, os mercados e as sociedades!

Os recursos humanos sempre foram o capital mais importante ao longo da história e na sua sábia condução, caberá o sucesso de todas as possibilidades.

Mas, claro, todas as coisas têm o seu reverso.

Se os economistas têm culpas no cartório, os políticos também, desde logo por se terem deixado embrulhar e conduzir.

A gente conhece a preocupação dos deputados com o país e com os seus eleitores, bem como a sua apertada relação com os problemas e as desventuras do dito país real...

Os anos mais recentes, de resto, têm demonstrado a elevada qualidade intelectual e o grau de exigência imposto pelos partidos na escolha dos seus representantes parlamentares!

A gente - nós, os médicos - conhecemos bem a preocupação dos senhores deputados com o SNS, por exemplo. Ou com as listas de espera, as cirúrgicas e as outras, também.

No dia 1 de Outubro, li nos jornais que a Comissão Parlamentar da Saúde da Assembleia da República não reuniu por falta de quorum.

As imagens televisivas do hemiciclo, repetidas desde sempre, mostram uma habitual pouco "mobilada" sala, com cadeiras vazias até dar com um pau!

Talvez por isso, de vez em quando, alguns se lembrem, timidamente, de recordar que, se calhar, o Parlamento fazia e produzia o mesmo com metade dos deputados, embora, naturalmente, um despedimento assim fizesse elevar as taxas de desemprego!

Pelos vistos, dos dezanove deputados efectivos, apenas nove teriam estado presentes, obrigando ao cancelamento da agendada reunião...

Valha-nos que, neste caso, provavelmente, nada se terá perdido, ou pelo menos, nenhuma grave consequência terá advindo ao mundo!

Também, decerto, teria sido uma enorme surpresa se de tal reunião algo de verdadeiramente útil tivesse resultado...

 

Rui Cernadas

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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