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Rui Cernadas: mudanças e carreiras…
DATA
22/01/2009 07:28:43
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: mudanças e carreiras…

O que assusta, sabendo-se que as explicações para muitas das crises que nos entalam pelo mundo foram, começaram exactamente por truques da chamada engenharia financeira, cada vez mais claramente percebida pelos ignorantes como eu, como vigarice, burla ou desvio… rui_cernadas.jpg

Os tempos vão mudando a uma impressionante velocidade, como se tudo e todos tivéssemos uma enorme ânsia de gastar os dias das respectivas existências... Diz-se que estamos em crise, numa crise sem paralelo, que economistas e adivinhos do mundo financeiro e especulativo nem previram nem conseguem explicar... Mas falam, todos e os políticos também, em crise de confiança!

Como se a confiança fosse um bem oco e superficial, daqueles que se podem apostar nas bolsas e nos movimentos similares, perspectivando lucros e ganhos incontornáveis e injustos, sobretudo para quem trabalha e vive apenas do seu esforço...

A crise e a confiança passaram a ser vocábulos do dia-a-dia, ouvidos aqui e ali, um pouco a propósito de tudo e de nada.

É neste contexto, com crise e confiança, ou falta dela principalmente, que o ano de 2008 acabou com contactos entre os sindicatos médicos e a Ministra da Saúde a propósito das Carreiras Médicas (ou o que delas sobra...) e dos seus (do Governo) projectos de reestruturação...

Curiosamente, não me parece que os Colegas estejam muito atentos, informados ou alertados sequer, sobre estas questões que directamente lhes respeitam.

Claro que reconhecemos que o panorama da Saúde se modificou - e muito - nos últimos anos.

A expansão do mercado e da oferta das seguradoras, por exemplo, a par do crescimento generalizado e nacional do sector privado da saúde, com a passagem de muitos profissionais do sector público para o particular, são circunstancialismos profundos e relevantes.

Ainda há meses atrás, a própria Ministra admitiu à comunicação social a necessidade de estudar medidas de defesa do sector público, face a uma certa debandada do Estado...

O protótipo de desenvolvimento do País, por outro lado, com uma progressiva e consistente desertificação do interior, ao mesmo tempo que as áreas urbanas monopolizam investimentos, degradação das condições de vida e fixam mais populações, contribui para uma nova realidade social.

Os cuidados de saúde reflectem essas nuances, quer ao nível das insuficiências de respostas, quer ao nível da organização pública e privada de saúde.

Uma entrevista do presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, ao "Tempo Medicina" (nº 1317, 8 de Dez. 2008), deixava alguns indícios assustadores para o futuro...

Dizia ou aceitava o entrevistado, Dr. Pedro Lopes, que na contabilidade dos hospitais EPE, "os recursos humanos e os medicamentos" eram áreas manipuláveis em matéria de contabilidade.

O que assusta, sabendo-se que as explicações para muitas das crises que nos entalam pelo mundo foram, começaram exactamente por truques da chamada engenharia financeira, cada vez mais claramente percebida pelos ignorantes como eu, como vigarice, burla ou desvio...

Mas voltemos às Carreiras.

Todos os mais velhos nos lembram ainda de como era quando começamos.

Hoje está tudo diferente.

Por exemplo, quem reparou e compreendeu a posição do Conselho Nacional do Médico Interno sobre a nova legislação para os Internatos de Especialidade?

A criação de um novo sistema que inclui uma entrevista para avaliação de competências no final do Internato de Especialidade parece desajustado e subjectivo.

Como a inviabilização da possibilidade de alguém poder mudar de Especialidade, antes do cumprimento de três anos do Internato, se afigura como indesejável e tardia!

Outras questões ligadas aos Internos mereceriam maior aprofundamento, como o facto de o respectivo regime horário - trabalho de 42 horas semanais - corresponder efectivamente a um regime de exclusividade e não ser retribuído como tal. Mas não era esse o objecto da sua invocação.

Quisemos apenas lembrar, a quem está de um certo lado da idade e do percurso, aspectos que importam a outros que vêm atrás, na idade e no caminho...

As carreiras médicas já foram, claramente.

Veremos agora o que se lhes sucede e como...

A ideia governamental poderá passar por duas carreiras.

Uma, dirigida e ligada aos clínicos que estejam ainda no âmbito da Função Pública.

Outras, naturalmente, com base na contratação colectiva, para quantos fora da Função Pública, estejam sob contrato individual de trabalho.

Já li e confrontei argumentos diversos, sob o ponto de vista técnico e também jurídico, em favor e contra esta solução.

A condição médica - de base e para todos, universal - baseia-se na idoneidade e certificação profissional que o registo e a carteira profissional emitidas pela Ordem dos Médicos nos garantem.

Outra questão importante pode respeitar ao facto de a categoria profissional se relacionar, exclusivamente, com a diferenciação técnica. Isto é, deixaria de haver um certo paralelismo ou relação, entre a categoria e a progressão ou evolução salarial.

Poderia até, também aqui, colocar-se a questão das quotas já aventadas em outras áreas profissionais ou sectores da actividade pública, quem sabe...

Não sei em que medida é que os Sindicatos Médicos vão actuar, depois de conhecerem verdadeiramente os processos de reestruturação sugeridos.

O que me parece, desde já, é que os Médicos Portugueses devem procurar informação, estar atentos e interessados numa discussão que lhes diz respeito.

Porque, pessoalmente, acho que é uma discussão que envolve todos os médicos, designadamente os médicos que têm Carreira e os que não a têm!

 

Rui Cernadas

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